Deixamos de esperar por inspiração para nos tornarmos inspiração


Tati Gracia 6 minutos de leitura

Seguindo o propósito desta coluna, chegou a hora de falar sobre trabalho – um tema que não poderia ficar de fora da pauta, afinal, estamos vivendo a maior transição etária dos últimos tempos. Sob essa perspectiva de mudanças e reinvenção, novas possibilidades se abrem ao público 50+.

Pesquisador de tendências do futuro do trabalho, Alexandre Pellaes é uma verdadeira inspiração para mim no que se refere a temas ligados à carreira. Por isso, trago alguns highlights que me tocam e trazem um rol de ensinamentos a partir de suas falas.

Segundo Pellaes, as relações trabalhistas foram mudando ao longo do tempo e hoje temos dificuldade de compreender o que é o trabalho em nossas vidas. Afinal, mudaram as possibilidades, as oportunidades e toda a estrutura que existe no mundo do trabalho.

.”Mas será que eu mudei, acompanhei e entendi tudo isso?”

“O que é mais importante hoje: ter propósito, ser feliz, ter emprego? Será que ter os três é utopia?”

“Mas, e o futuro do meu trabalho, que é mais tangível e está ao alcance das minhas mãos? O que eu vou fazer?”

Para responder a essas perguntas, é preciso desconstruir o que aprendemos sobre o mundo do trabalho. Temos que nos atualizar, defende Pellaes.

Em linhas gerais, o mundo do trabalho passa por três grandes mudanças:

1 . Relacionadas às pessoas: o trabalho costumava estar associado ao retorno financeiro e ao sustento. Carreira bem-sucedida, propósito, felicidade… tudo isso é novo. Hoje, o significado passa por interpretarmos o trabalho. A boa notícia é que agora as organizações têm a oportunidade de criar vínculos mais ricos com seus colaboradores. Porque antes era mais importante o crachá do que o nome da pessoa.

2 . Referentes às relações de liderança, que atualmente é característica de uma conexão de valor e de influência. Não por coincidência, vivemos em um mundo de influenciadores. Para Pellaes, hoje é impossível liderar no atacado – é necessário ser líder no varejo, saber quem é cada um e entender os respectivos interesses individuais para cocriarmos juntos. Liderança, nos tempos atuais, não é característica de uma pessoa, mas de uma relação de conexões.

3 . Direcionadas às organizações e às suas estruturas, práticas e políticas. Toda empresa tem de ser uma plataforma de desenvolvimento de pessoas e de construção de legado porque, se ela não for isso, está fadada ao fracasso. O lugar do trabalho é de crescimento, não de sofrimento.

VALORES E INCERTEZAS

Nesse sentido, em que tudo está acontecendo ao mesmo tempo, Pellaes avisa que não haverá um novo normal, mas um novo você, que tem interesse em novos desenvolvimentos, conhecer outras as conexões e completar esse novo você cada vez mais integral.

Toda essa dinâmica de mudanças gera incertezas, uma vez que esse movimento é mais complexo do que era antigamente.

não haverá um novo normal, mas um novo você.

Em um mundo recheado de incertezas, em lugar de tentar cultivar certezas, eu cultivo valores.

É a vez de Pellaes questionar no atacado: “mas quais são os meus valores? O que eu quero da minha relação com o mundo? O que eu deixo e o que eu tiro, visto que vivemos em uma eterna troca com o mundo, a fim de imprimir a pessoa que está dentro de nós?”

Formamos percepções sobre as outras pessoas dependendo dos comportamentos que adotamos durante a vida e que devem estar bastante conectados com os valores.

Porque os valores compartilhados dentro de um grupo social se tornam a sua cultura.

Portanto, trabalho é um esforço direcionado a um determinado fim que está conectado a transformar uma realidade.

FUTURO DO TRABALHO

Quando falamos de futuro do trabalho, explica Pellaes, queremos compreender porque fazemos o que fazemos.

A conversa sobre o futuro do trabalho é, no fim do dia, um despertar para que a gente pare de se diminuir e se colocar sob a ordem dos outros. O trabalho, em última instância, é a sua decisão de ser uma interferência positiva em uma história que vai acontecer com ou sem a sua presença.

A vida no trabalho é, desse modo, uma oportunidade para construirmos a nossa melhor versão e também um legado.

É a hora de fazermos o que dizemos. Porque toda mudança no mundo só acontece na ação, não no discurso.

Se antes nos questionavam “o que você vai ser quando crescer?”, agora nos perguntam: “o que você deixou de ser quando cresceu?”

Se na nossa infância nos questionavam “o que você vai ser quando crescer?”, agora nos perguntam: “o que você deixou de ser quando cresceu?”

Uma das novas competências do mercado de trabalho chama-se, de acordo com Pellaes, aprendizagem intencional: o quanto quero buscar uma maneira de aprender e me desenvolver que não dependa tanto do treinamento.

Hoje, a aprendizagem está na mão de cada um. Decida o que você quer e coloque em prática. Use a plasticidade e não a resiliência. Ajuste e transforme o modelo, se adapte à realidade mantendo a sua essência. Estamos em transição!

A aprendizagem só acontece quando ela se torna real. Temos necessidade de nos tornarmos reais para o mundo – e aí, sim, sermos felizes.

Sobre o futuro do trabalho, portanto, não é importante o emprego como norma, mas o próprio trabalho. Não importa a felicidade como regra, mas a autorrealização, já que a única maneira de sermos felizes é se formos verdadeiros.

Assim, faça conexões com pessoas que fazem as coisas acontecerem. Coloque-se nesse movimento de protagonismo saudável de criação e desenvolvimento.

Cada um de nós será do tamanho do espaço que decidir ocupar. Então, ocupe bastante! Ainda que você precise mudar algo que não lhe agrada ou que queira se desenvolver.

SIGA EM FRENTE

Pellaes deixa para o final uma grande frase motivacional adaptada: “quando a vida te der limões, não esprema nos seus olhos”.

Em sua criativa reflexão, ele destaca que, se reclamo que estou muito velho para fazer isso ou aquilo, essa reclamação não vai mudar a verdade. Temos, ele admite, o costume de flertar com os problemas.

Ame quem você é, mas se apaixone por quem você vai se tornar.

Se perco tempo espremendo limão no meu olho, paro de enxergar o próximo passo para onde vou, interpreta Pellaes. Então se poupe, reconheça o problema, direcione, crie uma estratégia, mas siga em frente!

Como sociedade estamos perdidos no mundo do trabalho. A parte boa é que ninguém está perdido sozinho.

Cada um de nós tem uma singularidade rica que precisa vir para o mundo da ação. Assim, deixamos de esperar por inspiração para nos tornarmos inspiração, inclusive para nós mesmos.

Pellaes conclui, enfático: “pare de esperar por inspiração porque ela não vai chegar. Ame quem você é, mas se apaixone por quem você vai se tornar.”

O melhor desse pensamento é concluir que, independentemente da sua idade, essas palavras servem para cada um de nós.

Obrigada, @pellaes, por impulsionar esse novo olhar que vai além da idade e ilumina um tema tão relevante da nossa sociedade que precisa estar sempre no centro do debate.


SOBRE A AUTORA

Tati é referência em comportamento de consumo e empatia no Brasil. Mestre em Análise do Comportamento Humano, é autora do livro “Empat... saiba mais