Num desses paradoxos da pandemia, à medida que abandonamos a proximidade proporcionada pelo escritório, de alguma forma começamos a enxergar as pessoas atrás dos crachás. A funcionária exausta. O profissional que se esconde atrás de um notebook para não vivenciar a rotina doméstica. O assédio digital de subordinados por líderes que costumam enviar mensagens de WhatsApp altas horas da noite para suas equipes. Resposta padrão: “Mas eu não espero que eles respondam no ato”. Não importa, é assédio digital. Ou a crença inabalável de que a mulher tem de estar impecável no ambiente profissional (sua webcam nos últimos 14 meses…), enquanto o homem pode estar de camiseta e com a barba por fazer. Esta realidade, ignorada por sua conta e risco se no seu crachá está escrito algo como “gestor”, sugere que a sociedade precisa de algum grau de rebeldia dentro das empresas. Rebeldia que naturalmente venha de baixo para cima, mas não menos necessário é ter líderes rebeldes nas organizações.

Para compreender por que a primeira tarefa é olhar para o chamo de “Presente do Trabalho”.

Anywhere Office é uma expressão que está no Felicidade S.A., meu primeiro livro. Saiu em 2012. Ficou muito popular (a expressão, não o livro…) no ano de 2020, depois de uma década no limbo. Era a pandemia no seu papel de aceleradora de partículas comportamentais. Já que o escritório é qualquer lugar onde podemos conectar nosso laptop e nosso celular à internet, estamos livres para atuar no modelo de Ambiente de Trabalho Apenas de Resultados (ROWE, na sigla em inglês)? Em tese sim, mas olhe para o que aconteceu nos últimos meses. Surgiu uma (talvez não) surpreendente demanda por softwares de monitoramento que, por exemplo, fazem um print screen do computador do funcionário a intervalos aleatórios para flagrá-lo matando tempo. Ou cookies que permitem rastrear tudo o que cada pessoa do time acessou num dia de trabalho.

Empresas do Vale do Silício estão recuando de sua fixação inicial com o 100% remoto e caminhando para um futuro híbrido. É uma virada nas perspectivas de funcionários e lideranças. Os primeiros queriam ter a experiência de trabalhar remotamente. Parte da liderança das companhias resistia à “liberalidade” do home office em tempo integral. A pandemia impôs na marra o experimento – e muita gente não gostou. Notadamente, mulheres sentindo mais o peso das responsabilidades domésticas com a família toda em casa. Sim, a questão de fundo é o machismo, mas lidar com as crianças em casa tem sido um desafio para famílias em geral e mulheres em particular. O fato é que está havendo uma transição do 100% remoto para um modelo híbrido nos países que começam a emergir da pandemia. E a tendência chegará aqui.

“Quando você trabalha em casa, parece que está dormindo no trabalho”, diz Satya Nadella, CEO da Microsoft. É verdade. Não saio nunca deste mesmo espaço, onde escrevo, como, faço videochamadas, lives, entrevistas e afins. Isso quer dizer que todo mundo vai querer voltar ao trabalho como era antes? Não. Em enquete recente, um de cada três trabalhadores americanos diz que pode até pedir demissão se for obrigado a retornar ao escritório em tempo integral. É razoável prever que também no Brasil uma parcela grande da força de trabalho dirá “não” a uma proposta de volta ao escritório cinco dias por semana. E é aí que entra o desfio da gestão.

Parte da complexidade de gerir pessoas a partir de agora será lidar com a multiplicidade de opiniões e necessidades em relação a de onde trabalhar. Conviver simultaneamente com três grupos de pessoas. As que querem trabalhar remotamente o tempo todo – ou quase o tempo todo –, porque já estão em outra cidade e não querem voltar. Estão satisfeitas em morar em algum lugar no interior ou no litoral. As pessoas que querem o híbrido – e esse grupo parece que vai ser majoritário. Querem trabalhar duas ou três vezes por semana fora de casa. E um terceiro grupo com gente que quer ou precisa trabalhar o tempo todo no escritório. Que não tem condições razoáveis para trabalhar em casa. Para quem o escritório tem a ver com conforto.

Eis o grande desafio para todo tipo de gestor: administrar o tempo todo pessoas distribuídas entre esses três grupos – as equipes 3 em 1. Ser tão justo quanto possível para avaliar o desempenho dessas pessoas. Já pensou nisso? Como é que eu avalio o desempenho das pessoas quanto tenho dentro da minha equipe colegas do mesmo nível trabalhando de casa, do escritório ou alternando entre os dois? E essa é uma preocupação que aparece em todos os estudos com profissionais que estão em home office: medo de ser mal avaliado (nos processos formais e informais de avaliação de desempenho). Um dos desafios novos da gestão de pessoas.

A funcionária exausta estará num desses grupos. A rotina doméstica será um desafio. Mensagens de WhatsApp altas horas da noite ainda serão assédio digital. Bem-aventuradas as lideranças rebeldes que aproveitarem o tempo que nos separa da reabertura dos escritórios para desenhar futuros que prescindam de softwares de monitoramento de funcionários e destaquem-se pelos sistemas de avaliação de desempenho em modelos múltiplos de trabalho.  

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor e cofundador da ODDDA – O Dia Depois De Amanhã.