É muito fácil adivinhar o futuro depois que ele acontece

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Créditos: Jacob Wackerhausen/ nullplus/ Getty Images

Guido Sarti 5 minutos de leitura

Tem uma coisa que a gente faz muito bem: olhar para trás e achar que tudo era óbvio. Que os sinais estavam ali, claros, e a gente só não viu. Que o caminho era uma linha reta apontando para um único desfecho inevitável.

Em 2007, o iPhone não era óbvio. Especialistas disseram que fracassaria. A ausência de teclado físico era heresia. Hoje, qualquer um com um smartphone na mão dirá que o sucesso era inevitável. Não era. Era um risco. Uma aposta. Um "talvez funcione".

A Netflix quase morre. A Blockbuster riu da proposta de parceria. Se o futuro era tão previsível, por que ninguém viu? Porque não era previsível. Era caótico. Era confuso. Era tudo menos óbvio.

Essa clareza que a gente sente quando olha para trás é uma ilusão. A memória é uma editora compulsiva que reescreve o passado para que ele pareça menos com um acidente e mais com um plano. Menos com sorte e mais com visão estratégica. Menos com erro e mais com aprendizado.

A VERDADE INCÔMODA

A verdade incômoda é que a gente não consegue prever o futuro. O que a gente faz é contar histórias sobre o passado. E depois, quando o futuro chega, a gente reconstrói a narrativa para que ele se encaixe na história que a gente já tinha contado.

Os especialistas fazem isso o tempo todo. Fazem previsões em janeiro. Em dezembro do ano seguinte, fazem novas previsões e fingem que as antigas nunca existiram. Ou, pior, reescrevem a história para que pareça que acertaram.

O problema é que a gente acredita neles. A gente acredita que é possível mapear o futuro, que existe um caminho claro se a gente apenas olhar com atenção suficiente. E, quando o futuro não segue o mapa, a gente culpa a gente mesmo por não ter visto os sinais.

Mas não havia sinais claros. Havia ruído. Havia incerteza. Havia múltiplas possibilidades competindo umas com as outras. E uma delas ganhou. Não porque era a mais óbvia, mas porque alguém apostou nela. Porque alguém imaginou que ela era possível.

A DIFERENÇA ENTRE PREVER E IMAGINAR

Irene Vallejo, essa escritora espanhola que fala sobre a leitura como máquina do tempo, diz algo como: a literatura sempre antecipa a ciência. Antes do ser humano chegar na Lua, a literatura já tinha chegado. Antes de descobrir as Américas, a literatura já tinha a descoberta.

Mas aqui está a coisa importante. A literatura não prevê o futuro. A literatura imagina o futuro. E tem uma diferença enorme entre os dois.

Prever é dizer: "Isso vai acontecer porque os dados mostram que vai acontecer." Imaginar é dizer: "E se isso acontecesse? Como seria? O que mudaria?"

A previsão é sobre certeza. A imaginação é sobre possibilidade. A previsão mata o futuro porque o torna determinístico. A imaginação o abre porque o torna múltiplo.

A gente perdeu a capacidade de imaginar. A gente ficou obcecado em prever. Em ter certeza. Em reduzir o futuro a um número, a uma métrica, a uma linha em um gráfico.

Mas o futuro não é um número. O futuro é um sonho coletivo. E sonhos não se preveem, se constroem.

Leonardo da Vinci sabia disso. Ele falou algo como: "Não deve ser difícil você parar algumas vezes para olhar as manchas de uma parede, ou as cinzas de uma fogueira, ou as nuvens, a lama e vai encontrar ideias verdadeiramente maravilhosas". A livre associação, o olhar desatento, a capacidade de deixar a mente vagar pode ser mais nossa amiga do que um debate acalorado sobre o futuro da tecnologia, da política ou da humanidade. Às vezes tudo que precisamos é estar com nós mesmos. Ver e ser inundado por opiniões, temas e desafios acadêmicos podem ser desafiadores e mágicos, mas nem sempre é isso que nos faz sonhar.

O RETROVISOR COMO PRISÃO

O pior de tudo é que essa ilusão de previsibilidade nos prende. Nos faz acreditar que o sucesso vem de ter visto o futuro corretamente. E, portanto, que o fracasso vem de não ter visto.

Criamos culturas que punem o desvio. Que exigem certeza onde ela não existe. Que preferem um plano errado mas bem estruturado a um experimento que pode dar errado. Porque, pelo menos, o plano errado pode ser reescrito como "aprendizado estratégico". O experimento que falha é apenas fracasso.

Mas a verdade é que todo grande avanço começou como um experimento que não estava no plano. Como alguém que ignorou o mapa e foi em outra direção. Como alguém que imaginou algo que os dados não suportavam.

A gente passa a vida olhando pelo retrovisor, achando que consegue ver o caminho à frente. Mas o retrovisor só mostra o que já passou. E o que já passou é sempre mais claro, mais lógico, mais previsível do que realmente era.

E AGORA?

Então, quando as pessoas vêm me perguntar como será o futuro, o que vai dar certo, qual tecnologia vai dominar, qual modelo de negócio vai morrer, eu tenho vontade de dizer: não sei. Ninguém sabe. Qualquer um que disser que sabe está mentindo ou vendendo algo.

O que a gente pode fazer é imaginar. Sonhar com o que poderia ser. Construir cenários. Explorar possibilidades. Testar rotas. E ter a humildade de reconhecer que a maior parte do tempo estamos perdidos, tateando no escuro.

Porque é aí, no escuro, onde as coisas novas nascem. Não nas certezas. Não nos mapas. Mas na capacidade de caminhar sem saber exatamente para onde se vai.

A literatura já sabe como será o futuro. Ou, pelo menos, imagina como ele poderia ser. O problema é que a gente parou de ler. Parou de sonhar. Ficou esperando que alguém nos diga qual é o caminho certo.

Mas o caminho certo não existe. Existe apenas o caminho que a gente escolhe caminhar. E, quando ele chegar ao fim, a gente vai olhar para trás e achar que era óbvio. Que os sinais estavam ali. Que não havia outra opção.

Mas havia. Havia muitas. A gente só escolheu uma. E chamou de destino.


SOBRE O AUTOR

Guido Sarti é sócio e vice-presidente de Dados e Tecnologia na Galeria, fundador da martech GAIA e da empresa de inteligência geolocal... saiba mais