“Corra que o velho mundo está atrás de você.”

Eu sempre me lembro dessa frase emblemática proferida, em especial na França, pela geração de 1968.

Renegar o que veio antes sempre fez parte dessa tentativa de ganhar identidade e dominar a cena, ditar comportamentos, num dilema histórico para ser diferente e igual a um só tempo.

“E dentro de cada subsegmento – 60 a 70 anos, por exemplo – as semelhanças não expressam a complexa variedade de comportamentos, de atitudes, de valores, de desejos, de medos, de demandas”

O recente debate entre millenials e geração Z reflete exatamente essa lógica que vem em ondas, como a definição de gerações, que é um recurso metodológico para tentar agrupar comportamentos e, assim, ter uma abordagem mais ampla sem perda de efetividade. Isso porque fala com um volume maior de pessoas a partir de pontos de interseção e identidade inevitáveis, por conta do momento e do contexto.

O mais engraçado é que, com a tecnologia atual e a capacidade de segmentação e construção de identidades individuais, com o auxílio das CDPs (customer data platforms), que conseguem agrupar informações de diversas fontes sobre cada pessoa, essa discussão deveria servir mais como uma ilustração que tenta capturar a fotografia de uma época.

Se for por aí, ok.

Eu sempre me lembro de uma foto do ferry que fazia a travessia para Manhattan, acho que da década de 1930, que mostrava uma multidão de homens, todos de chapéu, lendo jornal: uniformidade total.

Mesmo com esse recorte, difícil imaginar que todos ali representados tivessem o mesmo comportamento diante da vida.

Essa mesma tentativa de uniformização é o que ainda vemos quando nos referimos ao grupo 60+.

Aliás, se considerarmos que esse grupo começa aos 50 anos, imaginando que vivam até os 80, no mínimo, temos um intervalo de 30 anos. Muito mais que a infância, que a adolescência, do que a juventude ou a fase adulta.

Mesmo considerando que essas duas últimas fases vêm se ampliando em termos de tempo, ainda assim, como imaginar que pessoas com 50, 60, 70, 80 sejam iguais?

E dentro de cada subsegmento – 60 a 70 anos, por exemplo – as semelhanças não expressam a complexa variedade de comportamentos, de atitudes, de valores, de desejos, de medos, de demandas.

Parafraseando o responsável pela campanha política de Bill Clinton: “é o comportamento, estúpido!!!”.

Tente deixar de lado a cronologia e olhar a pessoa, o indivíduo, seu histórico.

Esportivo? Pratica ou prefere só assistir? Ou ambos? Quais esportes? Todos? Só futebol? Ou só ciclismo? Sozinho ou com amigos? Com a família? Todos os dias ou só nos finais de semana? No celular, na TV ou no computador? Ou nos três?

E esse é um pequeno recorte do que compõe o universo desse indivíduo.

Como ele compra? Quando ele compra? Que caminhos ele percorre para se decidir? Assiste resenha? Unboxing? Conversa com os amigos? E prefere a loja física ou online?

Ao cruzar esses dados, como fazemos com diversos outros segmentos, as possibilidades são muitas.

Na mesma proporção de se ter uma abordagem mais autêntica, de impacto, decisiva.

E até quando as marcas vão deixar de lado essa oportunidade?

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marco Antonio Souto é head de estratégia do Grupo Dreamers e ativista da causa do Idadismo.