E se campos de futebol virassem agroflorestas?


David Hertz 3 minutos de leitura

Calma, não se assuste com a provocação do título. Não estou sugerindo que a gente converta o templo sagrado do esporte número um dos brasileiros em agroflorestas. A primeira vez que soube dessa ideia foi quando encontrei Bela Gil e ela me contou que a família decidiu fazer isso em seu sítio em Araras, região serrana do Rio de Janeiro.

Em uma das cenas do documentário “Em Casa com os Gil”, as crianças aparecem colhendo tomates na agrofloresta que ocupa parte do campo de futebol. É pura educação, diversão e a transformação do sistema alimentar.

Agora, o biólogo Valdely Kinupp está conduzindo um projeto criativo, usando o campo de futebol do sítio de um amigo meu para transformá-lo em agrofloresta usando as chamadas PANC (plantas alimentícias não-convencionais), como há alguns anos são conhecidas as ervas daninhas.

É uma boa e inspiradora experiência de como usar o solo ancorado numa agricultura sustentável e regenerativa.

Recorro a ela em continuidade ao tema que explorei no meu último artigo, dando foco a uma agenda para o solo – ecossistema não renovável, que estamos perdendo diante de problemas como erosão, desertificação e salinização. Como disse antes, sua preservação é essencial para mitigar os efeitos de gases estufa por meio do sequestro de carbono na atmosfera.

Conheci Valdely Kinupp numa das minhas viagens à Amazônia, onde ele vive.  Seu modelo defende o uso dessas plantas para combater a monocultura no campo, a monotonia alimentar no dia a dia das pessoas e os problemas ambientais causados pela ótica econômica exploratória da agricultura padrão.

A agrofloresta é um modelo que consegue associar a produção de alimentos e a preservação da mata, com vantagens para os dois ecossistemas.

A agrofloresta, para quem não sabe, é um modo de adotar no campo uma forma de uso da terra que, digamos, imita o que a natureza faz normalmente nas florestas: solo coberto pela vegetação, misturando diferentes culturas anuais, árvores perenes e leguminosas. É um modelo que consegue associar a produção de alimentos e a preservação da mata, produzindo vantagens para os dois ecossistemas.

É uma solução para uma agricultura sustentável e contra o desperdício. Hoje cerca de 30% da produção no Brasil é praticamente jogada fora na fase pós-colheita. Por isso, parece difícil falar em agrofloresta sem falar em PANC.

Pela variedade da categoria – verduras, hortaliças, frutas, castanhas, cereais, condimentos e corantes naturais –, essas plantas representam uma variedade de nutrientes que podem servir de garantia para a segurança alimentar. Além do Kinup, há cada vez mais profissionais, empresas e startups no Brasil ensinando como criar agroflorestas.

No México, conheci Namastê Messerschmidt, um dos maiores especialistas do assunto e que fez o projeto da família Gil. Filho de mãe brasileira e pai alemão, nasceu no Piauí e estuda e pratica a agricultura dos sistemas florestais desde os 12 anos. Hoje há filas para seus cursos no Brasil e lá fora. São chefs, agricultores e entusiastas do tema querendo participar dessa transformação da terra.

Repensar o uso do solo, a produção de alimentos e a conservação das florestas – como faz de maneira tripla essa experiência de transformação de um campo de futebol em uma área de PANC – é essencial como parte de uma agenda de presente em nome do nosso futuro.

Especialmente quando pensamos que toda a cadeia de alimentação exige uma transformação para estar mais conectada com os ciclos naturais do meio ambiente, desde a produção e distribuição ao consumo dos alimentos.

Mais do que uma provocação, os campos de futebol agroflorestais são um bom ponto de partida para virar esse jogo!


SOBRE O AUTOR

David Hertz é chef, co-fundador da Gastromotiva, do Refettorio Gastromotiva e do Movimento de Gastronomia Social. Empreendedor social ... saiba mais