Eita! Uma conversa com Lenine sobre o espanto, o tempo e o futuro
O espanto, o tempo, a confiança em quem vem lá, o chão, o farol. Lenine nos presenteia com uma reflexão profunda e importante para o nosso tempo

William Blake disse certa vez que “quando as artes declinam, as nações se dissolvem”. Poeta, pintor e tipógrafo inglês, Blake defendia que a imaginação era um elemento central para elevar a liberdade e se aproximar do divino.
Porém, à medida que o tempo passa, imaginar se torna supérfluo – e, como diria Manuel Bandeira ao se referir aos poemas como um “inutensílio”, algo que, para uma modernidade alicerçada na aceleração e na produtividade útil, passa a ser inadequado. O mesmo parece acontecer com a imaginação, a intuição, a filosofia, arte etc.
A pergunta que fica é: como imaginar novos caminhos, possibilidades e futuros se nos disseram que a imaginação se tornou algo inútil?
Para refletir sobre nosso tempo, convido desta vez Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, mais conhecido como Lenine. Cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista brasileiro. É ganhador de sete Grammy Latinos, dois Prêmios da APCA e nove Prêmios da Música Brasileira.
Ele foi um dos grandes responsáveis pela minha formação cultural. Foi ao som de Lenine que enfrentei muitos desafios da minha vida. Talvez o principal deles tenha sido a constante necessidade de se reinventar para sobreviver.
Foi ouvindo “Paciência”, que aprendi que, “Na Pressão” (álbum lançado em 1999), “o mundo vai girando cada vez mais veloz. A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós. Um pouco mais de paciência.”
Recebo nesta coluna Lenine e desde já agradeço a honra de entrevistá-lo.
Vem nesse papo com a gente!
GenessonHonorato – Estou pesquisando sobre a nossa relação com o crescer, com o “se tornar adulto” A pergunta “o que você quer ser quando crescer?” aparece quase como uma cobrança quando somos crianças. Agora adulto, fiquei pensando no que deixamos de ser talvez para caber, para satisfazer a família, ou simplesmente porque a vida vai nos exigindo outras coisas. Diz pra gente Lenine, o que você deixou de ser quando cresceu?
Lenine – Essa é uma questão que sempre me levou a pensar muito. Acho que o ser humano, de uma maneira geral, é levado muito cedo a ter que fazer escolhas que definem o seu futuro. É muito cedo aos 17, 18 anos, escolher fazer um vestibular para alguma coisa que você não conhece a ponto de ter certeza.
Na maioria dos casos, penso eu, as pessoas se arrependem e não tem como voltar e começar de novo. E ficam nessa amargura, presos a uma escolha que fizeram muito cedo.

Eu, por exemplo, estudei engenharia química por causa de dois professores de química que tive na época do Científico [atual Ensino Médio]. A maneira como eles passaram o conhecimento foi tão sedutora, digamos assim, que resolvi fazer engenharia química por causa deles.
A gente é levado muito cedo a ter que escolher um caminho, e na maioria dos casos as pessoas não tem nem condições, nem coragem de recomeçar tudo de novo. Como tive essa coragem, não acho que deixei de ser alguma coisa quando cresci não.
Eu trouxe comigo o que eu era para a atualidade, por causa dessa coragem que tive no terceiro ano de faculdade – dizer "não, eu não vou, eu não vou continuar com isso". Abri essa percepção em casa, na "plenária", porque papai, como comunista, tinha isso: o jantar era plenária para tudo.
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Foi em uma plenária dessas que eu disse "ó, estou largando a faculdade, vou para o Rio, arriscar a música". Estava também acontecendo o nascimento do meu primeiro filho, João. Eu estava preparado para qualquer coisa que meu pai dissesse. Mas, naquele momento, ele disse “e por que demorou tanto?”.
Então, também sou um sortudo nesse sentido, porque tive no núcleo familiar esse apoio de recomeçar.
Genesson Honorato – Quem é o ser humano contemporâneo? A modernidade ampliou nossa consciência ou apenas multiplicou as distrações que nos afastam de nós mesmos?
Lenine – Não tenho a mínima ideia nem ouso descrever quem é o ser humano contemporâneo. Agora, diante da contemporaneidade em que estou inserido, existe uma constatação para mim que é clara, cristalina: é uma desconstrução da realidade.
Isso me causa espanto, porque, não por acaso, a primeira música do disco "Eita" vai nesse tema, da confiança. Nós perdemos a confiança. E isso é um problema, eu acho.
Vai demorar muito para voltarmos a ter uma percepção do mundo mais coletiva, mais de comunhão, mais de afeto.
Na minha formação, fui educado a confiar na pessoa. Se não conheço alguém, eu confio nela, até que me provem o contrário. Hoje é completamente o oposto. Hoje a gente vive numa época de dissimulação.
As pessoas não têm o mínimo escrúpulo, não têm a mínima educação. Falam uma coisa, pregam essa coisa, mas agem de forma oposta, completamente oposta. É muito dissimulado, é muito mentiroso o que a gente está vivendo hoje em dia. É como se a gente tivesse voltado a uma certa Idade Média, desacreditar das coisas que a gente já tinha conquistado.
Não sei quem é esse ser humano contemporâneo. Torço para que ele tenha uma tomada de consciência e volte a escolher um caminho do bem comum.
Genesson Honorato – Em seu novo trabalho você traz a palavra/ expressão "eita", que me parece definir o nosso tempo. Seria esse um espanto, ambiguidade, surpresa, choque e imprevisibilidade diante de um mundo girando cada vez mais veloz e que nos revela uma imensa distopia?
Lenine – Sim. A bem da verdade, sou um colecionador de palavras e adoro descobrir de onde elas vêm, a etimologia das palavras. O “eita” é uma interjeição que já estava no meu caderninho há muito tempo, na minha coleção.

E sim, não só pela perplexidade, pela surpresa que a palavra carrega – e, nesse sentido, ela tem esse significado em todo o território nacional, mas no Nordeste essa interjeição ganha outras camadas de significado. Isso também foi um motivo de eu ter escolhido, porque no "eita" o Nordeste é o grande protagonista.
Estamos vivendo um momento completamente distópico. Ainda não saímos dele. Acho que ainda vai demorar muito para voltarmos a ter uma percepção do mundo mais coletiva, mais de comunhão, mais de afeto. E isso é uma procura em tudo que eu faço.
Genesson Honorato – Percebo que o “chão” atravessa a sua obra, desde a música "Chão", do disco de mesmo nome. Qual a sua relação com a ideia de chão?
Lenine – O chão me persegue, digamos assim. Ou ele é um elemento muito importante nessa simbologia que eu uso para fazer minhas canções. O chão não só como solo, como piso, mas tudo que abrange também o chão no sentido de sustentação, de alicerce, de âncora, de farol.
Tudo isso tem a ver com a ideia do chão que atravessa, sim, a minha obra. Estou sempre atento para estar com os pés no chão e cumprir a minha função como repórter do meu tempo.
Genesson Honorato – Você tem um orquidário. Seu álbum "Labiata" (2008) tem o nome de uma espécie de orquídea. Enquanto as tecnologias nos induzem a acelerar a percepção do tempo, as plantas estariam nos mostrando que o tempo bom é o tempo que leva?
Lenine – Sim. As orquídeas foram como uma janela para me abrir todo esse universo botânico que hoje tem toda a minha curiosidade e toda a minha atenção. Aprendi isso na botânica: o tempo é o tempo que leva, isso não tem diferença.
Mas tenho a impressão que também aconteceu em mim uma descoberta de um universo muito amplo, que jamais imaginei que existia. E, no caso das orquídeas, as peculiaridades dessa planta foi uma coisa que me causou, "eita!" [risos] um espanto.
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Mas, mais do que tudo, a compreensão da evolução da vida no planeta, através da botânica. Isso ficou muito mais evidente, quando surge a flor pela primeira vez, como surgem os elementos polinizadores que daí dão os frutos. Tudo isso me interessa profundamente.
Essa paixão não arrefeceu durante todos esses tempos. Eu continuo um amante da botânica e a cada dia descubro novas famílias de plantas. Por exemplo, agora eu estou apaixonado pelas helicônias.
O espanto, o tempo, a confiança em quem vem lá, o chão, o farol. Lenine nos presenteia com uma reflexão tão profunda e importante para o nosso tempo. Tempo acelerado, cheio de ambiguidades, encontros e desencontros.
Ao Lenine, o meu muito obrigado!
E vocês, gostaram?
Até a próxima coluna!
