“Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa”: estamos procurando inspiração nos lugares certo?

Nunca tivemos tanto acesso a referências. E, talvez, nunca tenha sido tão difícil encontrar inspiração de verdade. Essa contradição tem me incomodado há algum tempo.
Todos os dias somos expostos a centenas de imagens, vídeos, músicas, campanhas, opiniões, opinões, opiniões, verdades absolutas, tendências, cases, posts e ideias. Temos o Linkedin, Pinterest, Instagram, TikTok, YouTube, newsletters, podcasts e agora inteligências artificiais capazes de nos entregar dezenas de referências em segundos. Tecnicamente, deveríamos estar vivendo o período mais criativo da história.
Mas não tenho certeza se é isso que está acontecendo.
Existe uma diferença importante entre consumir referências e construir repertório. Repertório é aquilo que fica. É o que atravessa a nossa experiência, se mistura com outras coisas que já vimos, vivemos, ouvimos e sentimos e, algum tempo depois, reaparece transformado em caminhos novos.
Talvez por isso sempre me interessei mais em onde pessoas criativas foram buscar aquilo que produziram… o que consumiram para transformar vida em algo novo.
Quando encontro uma campanha que me impressiona, quero saber menos qual ferramenta foi utilizada e mais o que aquelas pessoas estavam lendo, ouvindo, assistindo ou vivendo quando tiveram aquela ideia. Tive um negócio, por anos, baseado nessa troca…
Quando converso de verdade com alguém que admiro (de verdade), gosto de descobrir suas obsessões. Os discos que ouviu centenas de vezes, os filmes que reassiste, os livros que guarda, suas paixões, coleções e as viagens que mudaram alguma coisa, as pessoas com quem conversou, as referências aparentemente inúteis que, anos depois, encontraram alguma utilidade.
Existe uma diferença importante entre consumir referências e construir repertório. Repertório é aquilo que fica.
Criatividade sempre me pareceu muito mais uma consequência de curiosidade do que de técnica.
E é justamente por isso que “Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa”, documentário idealizado por Érico Borgo e Laís Almeida, me tocou. O projeto permeia uma pergunta aparentemente simples: de onde veio a Terra-Média?
Para tentar respondê-la, Borgo e Almeida passaram mais de 60 dias viajando. Foram cerca de 4.500 quilômetros apenas pela Inglaterra, além de passagens pela França e Suíça, percorrendo mais de quarenta lugares relacionados à vida, às experiências e ao imaginário de J.R.R. Tolkien. Oxford e Birmingham aparecem nessa cartografia, mas também Cornualha, Battle, a península do Humber e outros lugares associados às referências do escritor.
A viagem física, porém, parece ser apenas a superfície da história. O que eles estão procurando é o caminho percorrido por uma ideia antes de ela se transformar em obra.
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Paisagens. Línguas. Mitologias. Leituras. Perdas. Experiências pessoais. Lugares reais que, depois de atravessarem a cabeça de Tolkien, reapareceram como um universo imaginário capaz de sobreviver por gerações.
O documentário usa essa jornada para discutir criatividade, autoria e a preservação da imaginação em um mundo acelerado pela tecnologia. E mais… as próprias buscas pessoais por novos sopros de propósitos. O que, de verdade, entendo muito.
Eu sou um daqueles que viveu a famosa frase: “o mundo é dividido em quem já leu O Senhor dos Anéis e em quem ainda vai ler…”. Ter lido a trilogia no fim da minha adolescência teve um impacto gigantesco na minha vida.
Produzir ficou absurdamente fácil, a inteligência artificial reduziu brutalmente a distância entre imaginar alguma coisa e materializá-la. Mas existe uma parte do processo que nenhuma ferramenta resolve sozinha, que é ter alguma coisa interessante para dizer. Para isso ainda precisamos de repertório. E repertório exige uma coisa que nossa relação atual com a tecnologia parece determinada a eliminar, o luxo do tempo (da presença).
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Tempo para ler alguma coisa sem pensar em transformá-la em post, para assistir a um filme sem abrir outra tela, para ouvir um disco inteiro… sim, isso existiu. Tempo para entrar em uma livraria sem procurar um título específico. Para viajar sem transformar cada experiência imediatamente em conteúdo. Para conversar com alguém sem pensar no que aquela conversa pode render.
Tempo para ficar entediado.
Tolkien não abriu uma caixa de busca e digitou “referências para criar um universo de fantasia”. Sua obra foi construída pela combinação improvável de filologia, mitologia, religião, guerras, natureza, industrialização, idiomas, amizades e lugares que fizeram parte de sua existência.
Essa talvez seja uma das ideias mais interessantes por trás dessa jornada do Erico e da Laís… aliás, a química e a troca sincera da dupla nos presenteia com os momentos mais verdadeiros, engraçados e sensíveis do documentário todo.
Co-produzido pelo Gabagoo Studio e Mount8 e com produção executiva da Tribuzy Inc, “Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa” estreia com sessões especiais a partir de 21 de setembro, justamente no aniversário da publicação de “O Hobbit”, e entra no circuito comercial da Cinemark em 13 de outubro. A jornada também se desdobra em livro pela HarperCollins Brasil e audiolivro narrado na Audible.
Recomendo.