Entre mundos: aprendendo a imaginar em meio à transição
O Festival Transplanet coloca pessoas trans e gênero-diversas em primeiro plano como lideranças da imaginação radical e da construção de mundos

Vivemos entre mundos. Aquilo que nos disseram que se sustentaria está vacilando; rios engolem cidades, incêndios consomem florestas tropicais e, até 2050, haverá menos peixes nos mares do que plásticos.
Que futuros poderão emergir desta precariedade? Este é um tempo de transição coletiva, à medida que o familiar desmorona lentamente e o novo demora ainda mais para lançar sementes, brotar e se tornar visível.
Em uma frase célebre, Gramsci descreveu tempos como estes. “O velho mundo está morrendo, o novo mundo luta para nascer, agora é o tempo dos monstros.” E este é certamente esse tempo: de monstros e horrores existenciais iterativos.
Ações monstruosas de culturas e economias humanas extrativistas e violentas empurram os sistemas da Terra para além de sua capacidade de sustentar a vida; consequências monstruosas enquanto metabolizamos o recente alerta da ONU de que o aumento da temperatura global está a caminho de ultrapassar 1,5°C, provavelmente nos próximos anos; e uma incerteza monstruosa enquanto desmoronam as narrativas culturais que sustentam o capitalismo avançado.
Mas o monstro não é apenas uma figura de medo; é também uma figura de potencial. É uma figura do devir, da adaptação e do poder, movendo-se pelas margens e sombras da imaginação coletiva. Um tempo de monstros é também um tempo de narrativas, sonhos e possibilidades.
Em meio à transição, entre incontáveis finais, extinções e colapsos, a possibilidade de mundos ainda por vir cintila logo além do horizonte. Novas esperanças coletivas e narrativas culturais de sobrevivência: culturas simbióticas com tecnologias e economias que atuam com e pelos ecossistemas da Terra, governos que priorizam regeneração e reparação e comunidades que prosperam em mutualismo.
Seus primeiros lampejos já são visíveis na justiça interespécies, em tecnologias para coletar e reutilizar microplásticos, na semeadura de nuvens para resfriar os oceanos, em métodos acústicos para ressuscitar recifes de coral ou em aeradores artificiais para trazer cursos d’água de volta à vida.
A ecologia nos mostra que a vida se faz no processo, por meio de iterações em cascata e transição contínua.
Para fazer emergir futuros construídos sobre esses começos, precisamos praticar com urgência a capacidade de vislumbrá-los, falar sobre como poderia ser a vida na Terra e identificar os comportamentos, estruturas e ações que precisamos adotar agora para ajudá-los a tomar forma.
A imaginação coletiva está se tornando uma questão de sobrevivência, mas o imaginário social está empobrecido, esgotado e consumido pelo colapso. Culturas antropocêntricas são assoladas pelos limites de um binarismo utopia/ distopia profundamente enraizado, que opõe sonhos de apocalipses a milagres salvíficos, sem deixar entre eles espaço para nuances.
Diante apenas de escolhas binárias, imaginar algo híbrido, emergente, incerto ou ainda não visto parece impossível. Na introdução de seu livro "Imaginable", a pesquisadora de futuros Jane McGonigal capta isso ao observar que as palavras “inimaginável” e “impensável” apareceram nos títulos de 5,5 milhões de notícias somente durante os anos de 2020 e 2021.
O futurista Marc Gafni descreve isso como uma “crise da imaginação”: uma dificuldade de olhar para além do horizonte do presente e conceber algo radicalmente diferente.

Agora, é essencial aprender a viver, sonhar e falar a partir do entrelugar, de dentro da transição coletiva e planetária.
Para desafiar a herança ideológica mortal do capitalismo, precisamos rejeitar o binarismo utopia/ distopia, recusar qualquer noção de ponto de chegada e fazer morada no terreno escorregadio e emergente do devir coletivo.
Para isso, podemos aprender diretamente com a Terra, uma série complexa, emaranhada e plural de sistemas que nunca buscam a finalidade ou a estabilidade celebradas pelo pensamento binário, mas prosperam na transição. A ecologia nos mostra que a vida se faz no processo, por meio de iterações em cascata e transição contínua.
Este planeta revela que todas as formas transitam de uma para outra, deslizando entre categorias e escapando de qualquer desfecho definitivo em favor da regeneração contínua. Transformação, metamorfose e evolução são direitos inatos da vida terrestre, esquecidos pelos mitos de estase e estabilidade presentes nas culturas antropocêntricas extrativistas.
Leia mais: Em 2046, a humanidade chegou a Marte numa sexta-feira
A Terra e seu futuro são fluidos. Em vez de buscar desesperadamente uma conclusão para as convulsões de nosso tempo, como poderíamos abraçar a transição radical como um convite à reinvenção sem limites?
Como poderíamos reconhecer que estar “entre” se define tanto pela incerteza, pelo desconforto e pela entrega quanto pela emergência, experimentação, inovação e resiliência?
Para zelar pelas próximas gerações da Terra, em todas as espécies, precisamos reaprender práticas simbióticas e recíprocas; semear estratégias de vida coletiva e reparação; e nutrir mutuamente nossas imaginações, para que soluções estranhas e indóceis, tanto para problemas súbitos quanto arraigados, possam se tornar possíveis.
É possível sonhar para além da estrutura de utopia e distopia e conjurar algo mais próximo da própria Terra: um futuro de mudança contínua e iterativa; transições incessantes em diversas escalas; categorias transgredidas e desfeitas? Como poderíamos habitar tal “transtopia”, acolhendo e celebrando a fluidez e a incerteza como estados de potencial, sem expectativa de resolução?
As vidas trans e gênero-diversas carregam conhecimentos situados sobre esse terreno: sobre navegar pela incerteza, questionar categorias herdadas e construir vida através da transformação sem a promessa de uma forma fixa ou final.
Construído a partir da relação entre a transição perpétua da Terra e esse conhecimento situado, o Festival Transplanet chegará a São Paulo em 2027. Um festival para um mundo em transição, ele coloca diferentes disciplinas em diálogo, centradas na consciência planetária e no cuidado, para assegurar futuros afirmativos para todes es terráquees.
Transplanet coloca pessoas trans e gênero-diversas em primeiro plano como lideranças da imaginação radical e da construção de mundos, em diálogo com outros campos de transição e especialistas.
Um tempo de monstros é também um tempo de narrativas, sonhos e possibilidades.
Transplanet vai além de propor um futuro planetário e cria seu protótipo, com toda a programação situada no ano de 2047. Reunides nesse futuro, lideranças das áreas de tecnologia, regeneração, arte, inovação, economia, conhecimento indígena e diversidade trans e de gênero refletirão sobre 20 anos já transcorridos de transição climática, para imaginar coletivamente o que foi conquistado, perdido e aprendido nesse período.
Lançado no fim de agosto, o festival realiza eventos pop-up no período que antecede a programação de 2027, com o primeiro evento público acontecendo em 24 de setembro, na Sala Crisantempo, na Vila Madalena, em São Paulo.
Na programação, uma exibição do documentário "Uýra: A Retomada da Floresta", seguida pelo painel "Ecologias amazônicas: contravisualidades, corpos-territórios e futuros para além do binário", com mediação de Lyngar Da Luz e participação da diretora Juliana Curi, em diálogo com artistas TRANSÄLIEN, Oru Karyry e Pajé A-yá Kukamíria.
Serviço
Abertura: 18h
Exibição: 19h
Encerramento: 21h45
Local: Rua Fidalga, 521, Vila Madalena, SP
Entrada gratuita; vagas limitadas
Acompanhe as atualizações em @transplanet.festival ou or ssexbbox.com/transplanet
