Está na hora da síndrome do caramelo

A síndrome de vira-lata funciona porque a gente se mede pela régua dos outros. A síndrome do caramelo é a régua nossa.

síndrome do vira-lata caramelo
Créditos: Hick Duarte/ Thales Antonio/ Getty Images/ Shawn Day/ Unsplash

M.M. Izidoro 5 minutos de leitura
Favoritar no Google

Todo brasileiro conhece a síndrome de vira-lata. Nelson Rodrigues inventou o nome em 1950, depois da derrota na final da Copa do Mundo no Maracanã, e a gente nunca mais largou. É aquela certeza de que o que vem de fora é melhor, de que o Brasil chega sempre atrasado, de que a gente é bom de samba e ruim de todo o resto.

Se era assim que ele pensava em 1950, imagine o que ele escreveria depois do jogo no Mineirão, na Copa de 2014.

Mas aqui, neste momento de eleições e no dia da celebração da Independência do Brasil, quero propor a troca: está na hora de deixar a síndrome de vira-lata de lado e criar a síndrome do caramelo.

A diferença é simples. O vira-lata olha para si e vê falta. O caramelo olha para si e vê abundância. É o mesmo cachorro sem pedigree, dormindo na porta da farmácia, mas um se acha menos e o outro se acha o dono da rua.

Enquanto o vira-lata se impõe pela "coitadice", o caramelo sobrevive em qualquer canto pela felicidade, é adotado por todo mundo e não pede licença para entrar.

A síndrome do caramelo é pegar algo e não ler como falta, mas como oportunidade.Vou dar um exemplo do que acabei de ver.

Estive no KES Summit, em Trancoso, na Bahia, e conheci duas pessoas que mostram o quanto o Brasil pode estar na frente sem a gente conseguir enxergar.

Enquanto todo mundo está sendo inundado por conceitos e notícias sobre inteligência artificial, já tem gente pensando na próxima fronteira da computação, que é a interface entre o homem e a máquina. E duas das pessoas que estão na ponta dessa pesquisa são brasileiras.

A primeira é Alysson Muotri, biólogo formado na Unicamp, doutor pela USP, hoje professor da Universidade da Califórnia em San Diego. A pesquisa dele é meio absurda. Ele cria organoides, ou seja, órgãos humanos fora do corpo. Mais especificamente, cérebros. Minicérebros para estudar autismo, Alzheimer, doenças neurológicas em geral e, o mais incrível, computação.

Alysson Muotri, biólogo
Alysson Muotri

O trabalho dele já foi abraçado por grandes institutos de pesquisa e pela NASA, que bancou levar os minicérebros para a Estação Espacial Internacional, numa cápsula da SpaceX, para ver como o cérebro humano reage à microgravidade.

Hoje ele está fechando uma operação espacial privada, na qual vai ter um laboratório próprio no espaço, e para isso está treinando cientistas astronautas brasileiros para ficar nessa estação espacial e fazer os experimentos com os minicérebros.

Quem disse que ficção científica não ia virar realidade no Brasil?

Mas a pesquisa que mais me tocou foi outra. Junto com a Universidade Federal do Amazonas e o povo Huni Kuin, Muotri está pesquisando moléculas da floresta para tratar doenças neurológicas. E, se algum remédio nascer disso, os royalties voltam para os povos originários e para a conservação da Amazônia.

Ciência de ponta com conhecimento ancestral, e a conta dividida direito. É a prosperidade e a abundância que só o brasileiro tem. Aquilo que os estrangeiros historicamente vêm para cá roubar, o Alysson está dividindo.

Se a pesquisa do Alysson é absurda de impressionante, teve outra pessoa lá no KES Summit que é impressionante por si só. Só de ela existir, já prova que tem um caminho de prosperidade aqui que a gente cisma em dizer que não existe.

Duda Franklin, da Orby.co
Duda Franklin

Essa pessoa é Duda Franklin. A Duda é um aconteci- mento. Com 27 anos, mulher preta, crescida no Nordeste, formada em universidade federal, ela está criando uma empresa que já bate de frente com a Neuralink do Elon Musk.

A empresa dela se chama Orby, e o que ela descobriu é de cair o queixo: usar eletrodos, computação e IA para conversar com os neurônios que comandam os músculos e o corpo.

Em vez de abrir a cabeça de alguém para tirar sinal do cérebro, como faz o Musk, ela manda o sinal para dentro. Ensina o cérebro a reaprender o caminho.

Na prática, é ensinar uma pessoa com lesão medular a ficar de pé e voltar a andar, ou transformar um atleta em atleta de ponta em poucos meses. É basicamente Matrix virando realidade.

E isso está acontecendo com uma pesquisa que começou em Natal, no Rio Grande do Norte, e está sendo desenvolvida em uma fábrica na Grande São Paulo. Não é no Norte Global, é bem aqui do nosso lado que a próxima fronteira da computação está sendo criada.

Leia mais: 5 perguntas para Duda Franklin, CEO da Orby.co

Isso é tão brasilidade quanto uma banda de pífano. Quanto um vaneirão. Quanto pato no tucupi com maniçoba na hora do almoço depois do Círio de Nazaré.

Porque brasilidade não é só o que a gente já sabe que é nosso. É também o que a gente ainda não aprendeu a reconhecer como nosso.

Por isso eu falo que o Brasil é o Vale do Silício da tecnologia afetiva. Quando a gente cria qualquer coisa, não é só para a gente no individual, é para a gente no coletivo.

Que nesta Independência a gente fique independente de se achar pequeno.

A gente afeta a vida das pessoas, seja com uma música, seja jogando um esporte, seja mandando um cérebro humano criado em laboratório para o espaço ou fazendo pessoas com lesão na coluna andarem de novo.

É o caramelo cuidando dos amigos cachorros da rua depois que rouba o frango da padaria. Ele não vira lata, ele vira o lixo, pega o que é seu e vai embora.

O vira-lata teria olhado para Muotri e para Duda e pensado: "que bom que deram certo lá fora, que bom que alguém de fora acreditou". O caramelo olha e pensa outra coisa. Pensa que a floresta que vai curar Alzheimer é a nossa. Que a menina que vai fazer gente andar de novo cresceu no Nordeste. Que o cérebro que foi para o espaço saiu de um laboratório com sotaque de Campinas.

E que tanto a Duda quanto o Alysson olharam para suas pesquisas, trouxeram de volta para casa e estão fazendo seus experimentos em parceria com hospitais públicos e universidades federais. Porque a brasilidade e a síndrome do caramelo são sobre isso. Essa é a nossa maior tecnologia.

A síndrome de vira-lata é uma tecnologia colonial, funciona porque a gente se mede pela régua dos outros. A síndrome do caramelo é a régua nossa. Não é achar que a gente é melhor que ninguém. É parar de achar que é pior.

Que nesta Independência a gente fique independente de se achar pequeno, para assim criar mais gigantes e dezenas de Dudas e Alyssons por aí.


SOBRE O AUTOR

M.M. Izidoro é apresentador, roteirista, diretor e estrategista criativo. Um contador de histórias obcecado por representar os muitos ... saiba mais