Estar bem-informado é entender, com dados, o que está acontecendo em tempo real


Nohoa Arcanjo 4 minutos de leitura

Pinga uma notificação no seu celular: é um tuíte que vem das profundezas do Amazonas, com alguém contando sobre o desaparecimento do indigenista e do jornalista inglês no Vale do Javari. Nesse momento, ninguém na grande mídia havia escutado falar nos nomes de Bruno Pereira e Dom Phillips, mas aquele tuíte com um like e dois retuítes de engajamento já estava no seu radar, por causa de um serviço chamado Dataminr – que usa inteligência artificial para identificar quando um conteúdo tem potencial de ganhar importância.

Se você é jornalista, essa informação traz pistas para o início de um trabalho de apuração e aumenta exponencialmente a sua chance de descobrir uma história importantíssima antes da concorrência. Agora, imagine que você é um produtor de conteúdo para marcas e está prestes a lançar uma campanha relacionada à Amazônia. Esse alerta pode ser fundamental.

AGULHA NO PALHEIRO

O maior desafio é como fazer exatamente esse dado chegar à sua mão em um mundo no qual são criados e consumidos mais de 90 zettabytes de informações todos os anos, segundo o IDC & Statista? Esse número é nada menos que o 90 com 21 zeros à sua direita – uma soma insana de bytes espremidos em 365 dias, que dá uma noção de como nosso conceito de “estar bem informado” envelheceu mal.

De repente, ser um cidadão que lê bastante, assiste Jornal Nacional toda noite e vê uma série ou outra para trocar ideia com os amigos num bar parece pouco, muito pouco, não é?

É claro que o melhor profissional de conteúdo não é aquele que dá conta de processar tudo isso no cérebro. Mas, definitivamente, é um baita diferencial ser alguém capaz de receber os alertas certos, entender o que está acontecendo agora e tomar atitudes baseadas nesses dados.

NA PRÁTICA

Um exemplo trivial: se você trabalha na comunicação de

é um baita diferencial ser alguém capaz de receber os alertas certos e tomar atitudes baseadas nesses dados.

uma fabricante de roupas esportivas, hoje não é difícil monitorar alguns nomes de jogadores ou times de futebol. Basta configurar alertas em um serviço como o PagerDuty, que avisa quando Gabigol for a pessoa mais falada do momento, por exemplo. Talvez uma terça de manhã, quando o jogador estiver fazendo uma live surpresa, seja o timing perfeito para lançar aquela promoção e explodir de vender a camisa 9 do Flamengo.

Mas o uso de dados para se compreender o agora pode ser muito mais disruptivo e socialmente impactante do que isso. Estudantes da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, programaram um modelo de machine learning capaz de cruzar informações demográficas para estimar quais regiões do mundo têm maior possibilidade de ter trabalho escravo acontecendo.

Parece meio “Minority Report”, né? Mas não precisa nem do Tom Cruise, nem de mutantes com habilidades preditivas para saber onde um crime está prestes a ocorrer. Bastam dados, sistemas treinados e gente empenhada em ler os resultados.

UMA NOVA PROFISSÃO

Quanto mais se intensifica o fluxo de informações e a velocidade com que elas ganham e perdem relevância, mais difícil é filtrar tudo para agir em relação ao que interessa. Saber monitorar todo esse conteúdo, entender o fluxo das conversas e se antecipar ao pico para tomar atitudes na hora certa são habilidades cada vez mais valiosas.

mexer na lama de conversas nas redes sociais pode ter lá seu custo à saúde mental.

Melhor ainda seria ter a capacidade de compreender e programar algoritmos prontos para identificar tendências e jogá-las na sua cara. Encontrar as conversas importantes que estão acontecendo todos os dias, ao longo de semanas, mas que não “hyparam” e nem saem nos jornais.

Mas, tudo bem. Você não precisa ser um expert em soluções tecnológicas para ir além dos trending topics e sofisticar sua detecção de assuntos. O mais importante aqui é essa busca ativa e constante. Quem vai atrás todo dia e não fica esperando receber informação de bandeja é quem consegue conectar os pontos e transformá-los em ideias calcadas na realidade, em soluções de impacto para os problemas das pessoas.

ALERTA VERMELHO

Vale o aviso: mexer na lama de conversas nas redes sociais, lugares tão inóspitos, pode ter lá seu custo à saúde mental. Tanto pela toxicidade, quanto pelo ritmo frenético que esse trabalho de monitoramento impõe.

Então, com o tempo, nada mais inteligente do que sofisticar as suas ferramentas. Não vai demorar até que, na rotina de todo mundo que trabalha com conteúdo, estejam presentes sistemas com inteligência artificial que categorizem, meçam confiança, digam se algo é fake ou não e identifiquem características de conversas com boa precisão de acerto sobre seu potencial de ganhar relevância.

Quem estiver disposto vai colocar os pés descalços nesse terreno agora, para daqui a pouco sair voando.


SOBRE A AUTORA

Fundadora e Growth Leader da Creators.LLC - plataforma de matchmaking entre criadores e marcas. Acelerada em 4 programas do Google For... saiba mais