Existe um momento que a vida muda de pergunta
Enquanto caminharmos esperando que a vida nos sirva em uma bandeja de prata, dificilmente encontraremos sentido e significado

Não são poucas as vezes em que alguém que ocupa um alto cargo de liderança senta na minha frente e diz sentir algo que não consegue nomear.
A vida está financeiramente bem resolvida. Há patrimônio, bônus, status, reconhecimento e uma carreira construída ao longo de muitos anos. Visto de fora, tudo parece estar certo. Aos olhos dos amigos, tudo está perfeito. Mas algo dentro começa a incomodar.
Algumas pessoas falam em inquietação, outras em desconexão. Algumas arriscam dizer que sentem uma espécie de vazio.
Arrisco dizer que esse vazio talvez não seja a falta de mais alguma coisa para conquistar, mas a presença de uma pergunta simples e profunda: qual o sentido de tudo isso?
Recentemente, fui convidada para falar em um Fórum Executivo para CEOs e CHROs. Ao final, alguns deles me procuraram porque desejavam aprofundar certas provocações que haviam permanecido com eles:
- Por que fazemos o que fazemos?
- Qual legado queremos deixar?
- Queremos ser grandes ou grandiosos?
- Por que a nossa vida importa?
- O que realmente vale a pena fazer com a nossa breve existência?
Essa última pergunta, especialmente, nos convida a sair da superficialidade e da trivialidade com que muitas vezes enxergamos e vivemos a vida.
Arthur C. Brooks começa seu novo livro, "The Meaning of Your Life" (ainda sem tradução para o português) contando a história de Tolstói. Aos 51 anos, o escritor tinha dinheiro, reconhecimento, família e enorme sucesso literário. Ainda assim, experimentava um profundo vazio porque não conseguia responder ao “porquê” de sua vida.
Tolstói procurou essa resposta no trabalho, no sucesso e até na ciência. Mas descobriu que nenhuma dessas conquistas, sozinha, era capaz de oferecer o sentido que buscava.
SUCESSO EXTERIOR NÃO GARANTE SENTIDO INTERIOR
A pirâmide de Maslow nos ajuda a compreender esse movimento.
Enquanto estamos ocupados em garantir segurança, estabilidade e pertencimento, grande parte da nossa energia está direcionada à sobrevivência e à construção da vida exterior. Quando essas necessidades estão razoavelmente atendidas, outras perguntas começam a emergir.

Já não basta saber como viver ou o que conquistar. Queremos compreender para que estamos aqui, o que somos chamados a realizar e a serviço de quê colocaremos tudo o que construímos.
Normalmente, esse momento chega na metade da vida. Para alguns, um pouco antes. Para outros, que insistem em não escutar o incômodo da alma, um pouco depois.
Mas, quando estamos muito distantes da rota, inevitavelmente nos deparamos com uma crise de sentido.
Complemento essa visão com a filosofia hinduísta, onde existe a ideia de que tudo tem um sentido, uma função no Universo – inclusive você. Essa função é chamada de dharma.
sempre aparece uma voz sábia para guiar o herói durante a jornada. E, na grande parte das vezes, essa voz está dentro de nós.
Quando estamos fora do nosso dharma, a vida costuma trazer situações que nos convidam ao redirecionamento. Podemos brigar, controlar e resistir ao que ela está apontando ou podemos nos render e abrir espaço para que uma nova direção apareça.
A crise de sentido nos coloca diante de uma pergunta: estamos vivendo o que viemos viver?
A resposta inclui a carreira, mas não termina nela. O sentido também passa pela arte, pela beleza, pela natureza, pela transcendência, pelas relações e pela possibilidade de fazer o que quer que seja imbuído de amor e humildade. Mas, nesta reflexão, quero me deter especialmente na carreira.
Na metade da vida, encontrar sentido parece ter muito a ver com trocar a lente do “eu” por algo que transcenda o “eu”. Talvez seja preciso, inclusive, trocar a palavra trabalho pela palavra servir.
Na primeira metade da vida, concentramos grande parte da nossa energia na construção desse “eu” – em seu poder, seu status, suas conquistas e seu reconhecimento. Na segunda, somos convidados a colocar tudo o que construímos a serviço de algo maior do que nós.
A SERVIÇO DE QUÊ COLOCAMOS NOSSO TEMPO, TALENTO E INFLUÊNCIA?
Está na filosofia, nas escrituras e nas culturas mais sábias: quem se coloca a serviço é o mestre, não o discípulo.
Enquanto caminharmos esperando que a vida nos sirva em uma bandeja de prata, dificilmente encontraremos sentido e significado. Mas, ao colocar a nossa própria vida a serviço de um chamado, de uma comunidade, de outros seres humanos ou de uma causa, talvez possamos reencontrar o sentido que parecia perdido.
Não é simples.
Será preciso questionar aquilo que fomos treinados a valorizar durante tantos anos. Desconstruir, filosofar e recalcular a rota.

Nosso cérebro não gosta de sair da zona conhecida e fará de tudo para manter aquilo que já está estabelecido. Socialmente, também não somos incentivados a trilhar um caminho diferente daquele que todos consideram seguro e aceitável.
Por isso, encontrar o sentido, encontrar o próprio dharma, é uma jornada do herói. É o mito de cada um, como dizia Joseph Campbell.
Há batalhas e dragões interiores a serem vencidos. Mas, se observarmos a mitologia, as lendas ou mesmo filmes como "Star Wars", inspirado na sabedoria de Campbell, sempre aparece uma voz sábia para guiar o herói durante a jornada. E, na grande parte das vezes, essa voz está dentro de nós.
O nosso papel é parar de nos distrair, fazer silêncio e abrir espaço para escutá-la, para que algo em nós comece a recordar a direção. Não necessariamente o caminho mais fácil, mais óbvio ou mais reconhecido. Mas aquele que pode nos levar a viver o que somente nós viemos viver.
Leia mais: 5 passos simples para encontrar propósito na vida
Talvez encontrar sentido não seja descobrir o que mais a vida pode nos oferecer, mas reconhecer a serviço de quê podemos oferecer a nossa vida. Ou será que está na resposta que Tolstói encontrou depois de tanto procurar?
“O sentido da vida é servir à força que nos enviou ao mundo.”