Games como inclusão social


Thiago Baron 4 minutos de leitura

Esqueça o sonho de se tornar um jogador de futebol profissional. Essa era a resposta que os moleques da minha época davam aos seus pais e avós quando perguntados sobre o que gostariam de ser quando crescer. Eu mesmo dei esta resposta várias e várias vezes nas minhas redações escolares.

A moda agora é ser jogador profissional de videogame – esse é o sonho de praticamente todos os jovens moradores de comunidades no Brasil.

O dado é do Instituto Data Favela, constatado em uma pesquisa realizada em parceria com a Locomotiva – Pesquisa e Estratégia e a Cufa (Central Única das Favelas). Para 29% destes aspirantes a pro-players, esse é o maior sonho de suas vidas atualmente, maior até do que comprar um imóvel próprio ou – veja você – encontrar a tal da felicidade.

O dado foi obtido a partir de entrevistas com jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica durante o evento Taça das Favelas Free Fire, de 2020.

Gosto sempre de comentar sobre o aspecto democrático do Free Fire, um jogo do tipo battle royale, gratuito, feito para celulares e que não requer modelos ultra-power-pro.

No mundo, ele conta com 150 milhões de usuários ativos diariamente. No Brasil, país onde há mais celulares do que pessoas, ele pode, claramente, ser considerado um “abre-portas” para o universo dos jogos eletrônicos.

Olhando os dados das últimas Pesquisa Game Brasil (PGB), é possível perceber um movimento social onde, a cada ano, mais usuários das classes média e baixa se identificam como jogadores frequentes de games.

Uma prova de que o videogame não é mais só coisa de uma classe alta que pode comprar consoles caros. A PGB deste ano já mostra que a maioria dos jogadores brasileiros são das classes B2, C1 e C2 (62,7%) e, em suas mãos, estão os smartphones.

TER E SABER

Até aqui o cenário é lindo. Dados e mais dados que mostram a penetração dos jogos eletrônicos na vida da sociedade brasileira, furando a bolha do extrato social e alcançando o dia a dia e os sonhos dos jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Até aqui, não podemos negar que os games – do ponto de vista de quem joga – estão em um bom caminho como agentes de inclusão social.

ser jogador profissional de videogame é o sonho de praticamente todos os jovens moradores de comunidades no Brasil.

Mas só ter celular a rodo não basta. A inclusão digital é um rio muito mais caudaloso e com contornos que precisam ser claramente olhados para que não tenhamos a falsa ideia de que tudo são flores por aqui.

Segundo o ranking global feito pela “The Economist”, o Brasil é o segundo mais bem colocado entre os 20 países latino-americanos, quando são analisadas questões como infraestrutura disponível para o acesso à internet no território e o custo desse acesso.

Porém, quando são levados em conta critérios como habilidades e alfabetização digital, nosso país despenca e passa a ocupar a 69ª posição. Ser um país digitalmente inclusivo é muito menos sobre ter, mas sim, sobre saber usar o que se tem.

Sobre a qualidade da conexão, o relatório de “Barreiras e limitações no acesso à internet hábitos de uso e navegação na rede nas classes CDE”, feito pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e Instituto Locomotiva traz dados que ajudam a compreender o cenário da conectividade dos brasileiros de classe média.

A pesquisa demonstra que, nas classes socioeconomicamente mais vulneráveis, 58% utilizam planos de dados pré-pagos, que não geram despesa fixa mensal, mas oferecem um serviço mais limitado. Ou seja, para uma parcela significativa da população a internet ainda acaba durante o mês.

Os dados mostram ainda que, entre as classes C, D e E, o pacote de dados dura em média 23 dias no mês e, entre os usuários de planos pré-pagos, especificamente, 21 dias. Isso significa dizer que passam praticamente um quarto do mês privados do acesso à rede, utilizando apenas aplicativos gratuitos. O que, claramente, restringe a experiência online.

DESIGUALDADES

Diferentemente do mundo do futebol, onde a garotada pode treinar para peneiras de times de base apenas com uma bola de futebol comprada na vendinha da esquina, jovens da periferia não competem em pé de igualdade quando o tema é performance para se tornarem jogadores profissionais.

O game profissional hoje no Brasil, como em qualquer lugar do mundo, requer horas e horas de treinamento e dedicação, o que não condiz com a realidade de jovens que precisam trabalhar para pagar as contas.

O que nos mostra que a inclusão social pelo videogame, no país onde o 5G acaba de desembarcar, ainda tem grandes desafios. Isso sem nem comentar o ponto de vista de quem desenvolve os games, que seria pauta para outro artigo inteiro.

Dito tudo isso, concluo afirmando que o predomínio dos celulares e o desenvolvimento de jogos que possam ser jogados nesses dispositivos são um passo muito importante para o cenário brasileiro.

Porém, temos que tomar cuidado com o canto da sereia que pode nos confundir quanto à real inclusão digital e social que o gigante mercado dos videogames permite. Hoje, jogar é para todos. Mas todos ainda não podem jogar em pé de igualdade.

Quiçá esta equação possa melhorar cada vez mais.


SOBRE O AUTOR

Thiago Baron é o founder e chief creative officer da DOJO. Formado em Design e pós-graduado em Semiótica, tem 20 anos de experiência c... saiba mais