Geração algoritmo
A disputa política no Brasil não é mais sobre quem comunica melhor. É sobre quem chega primeiro ao seu sistema nervoso

“Quando nascemos fomos programados pra receber o que vocês / Nos empurraram com os enlatados / Dos USA, de nove às seis.”
Essa música não saiu da minha cabeça nas últimas semanas. Quando Renato Russo a compôs, no fim dos anos 70, o alvo era nítido. Era a indústria cultural norte-americana chegando ao Brasil em filmes, séries e jingles, forjando desejos e imaginários. Em plena Guerra Fria, os territórios se conquistavam pela cultura.
Quatro décadas depois, seguimos sendo programados. Mas os "enlatados" deram lugar ao algoritmo. A prateleira de produtos culturais foi substituída e agora o produto à venda somos nós: nosso tempo, nossa convivência, nosso estado emocional.
Estamos na boca do gol do segundo turno. Quem observa esta eleição como uma disputa de propostas e de narrativas está olhando para o lugar certo com a lente errada.
Hoje o pleito não se vence na base da competência. É uma batalha predominantemente sobre quem chega primeiro a um território anterior à linguagem: o das reações bioquímicas que o corpo tem antes de a mente formar uma opinião. A disputa política deixou de ser apenas de comunicação. É uma disputa pelo sistema nervoso.
Um relatório publicado em setembro nos Estados Unidos, Feelings over Facts, assinado pela neurocientista Jiggy Geronimo e pela estrategista de campanhas Kate Catherall, resume o que décadas de pesquisa já indicavam: a emoção chega antes do raciocínio. É com ela que lembramos, acreditamos, decidimos e agimos.
Emoção imprime memória. Repetição produz sensação de verdade. Fatos que ameaçam nossas crenças são processados como ameaça, não como informação a ser analisada.
As plataformas das big techs operam exatamente sobre esses atalhos biológicos. Fazem isso por desenho e por modelo de negócio. Excitação emocional, surpresa, pertencimento e repetição são parte dos gatilhos emocionais que aumentam a retenção das plataformas, oferecendo a elas justamente nossos recursos mais preciosos: a atenção e o tempo.

Em 2012, o então Facebook alterou o feed de quase 700 mil usuários para testar se emoções se espalham por contágio. A partir de 2017, segundo documentos internos revelados mais tarde, a plataforma passou a dar às reações emocionais – a de raiva incluída – cinco vezes o peso de uma curtida.
Os próprios cientistas de dados da empresa constataram que posts que geravam raiva carregavam mais desinformação e toxicidade. Ainda assim, o peso foi mantido por anos, porque raiva gera engajamento.
Estamos sendo bioprogramados. A palavra é forte, e é para ser. Quando a infraestrutura que ordena o que vemos é calibrada para acionar nosso sistema nervoso, ela passa a influenciar o que sentimos antes de pensarmos. Isso vale para decisões tão triviais quanto uma compra e tão fundamentais quanto um voto para presidente.
Fatos que ameaçam nossas crenças são processados como ameaça, não como informação a ser analisada.
Quem quer disputar o futuro precisa disputar as tecnologias. É urgente tirar essa conversa do campo da comunicação e levá-la para o da arquitetura de sistemas. Transparência algorítmica, auditoria independente e o direito de escolher como nossa informação é ordenada não são mais pautas técnicas. Viraram pautas democráticas.
O Brasil já deu um passo nessa direção quando, em 2025, o STF ampliou a responsabilidade das plataformas sobre o que circula nelas. Mas responsabilizar pelo conteúdo é diferente de quebrar o código do algoritmo e revelar as entranhas desta bioprogramação.
É essa disputa que vai definir se seguiremos capazes de nos organizar em sociedades que protegem direitos ou se veremos ruir marcos civilizatórios que julgávamos garantidos. Eles já não estão.
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Em 1985, Renato Russo respondeu à enxurrada de produtos culturais com uma virada no tom da música, convocando o contra-ataque: “agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.
A geração algoritmo vai precisar travar essa disputa nas mesmas plataformas que a programam. Vai ter que se rebelar de dentro da máquina. Antes que nos transformemos inteiramente nela.
