Gritaram-me Negra!


Adriana Barbosa 3 minutos de leitura

Fechando o Julho das Pretas, recorro ao poema “Me Gritaram Negra”, da pensadora peruana Victoria Santa Cruz para destacar a importância do dia 25 de julho, dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e para reverenciar a nossa ancestral Tereza de Benguela, símbolo de resistência e liderança feminina no Brasil.

Esses nomes e datas nos ensinam que ser uma mulher negra não é só sinônimo de sofrimento e luta. Por isso, aproveito a data para dizer que precisamos sair desse lugar da escassez e das ausências. Hoje eu quero falar de potência, das movimentações realizadas e realizadoras, quero falar de existência, de conquista e do direito à felicidade como partes constituintes da história construída por mulheres negras.

Em seu poema, e a partir de seu próprio processo, Victoria Santa Cruz nos revela como o racismo cotidianamente atravessa a nossa autoestima e nos enfraquece. Muitas de nós, antes de compreender a grandeza da nossa história e cultura, passam pela negação de si mesmas como alguém com direito a se sentir bonita, amada, reconhecida e valorizada como é.

É importante dizer que essa negação não é uma questão individual. É fruto de um processo histórico de colonização e escravismo que nos destituiu de nós mesmas e projetou a aniquilação dos nossos saberes, das nossas espiritualidades, das culturas, de tudo que nos constitui como humanos.

Mas, apesar de tudo, continuamos existindo e, ao fortalecermos nossa negritude por meio da conexão com a ancestralidade, embarcamos em uma retomada da nossa herança de grandeza e da consciência de quem somos e de quem podemos ser.

Um dos meus maiores aprendizados foi me reconhecer enquanto uma mulher negra. Mas não trilhei esse caminho sozinha, fui incentivada, principalmente, pelas mulheres da minha família.

O Julho das Pretas, mais que uma celebração, é uma data para lembrar que a sociedade tem um dívida com a nossa história

Relembrando esses afetos, ressalto a importância de evidenciar os que vieram antes, que acreditaram que a vida poderia ser melhor, que desenvolveram trabalhos fundamentais para a transformação de nossa sociedade e que me ajudaram a construir quem eu sou.

São muitos os nomes e as memórias dessas mulheres imprescindíveis, mulheres que marcaram a história e mulheres anônimas que, com amor e coragem, sonharam o sonho que nos trouxe até aqui.

O Julho das Pretas, mais que uma celebração, é uma data para lembrar que a sociedade tem um dívida com a nossa história, que precisa reconhecer o potencial que as mulheres negras têm de movimentar a economia e todos os setores da sociedade. E, de uma vez por todas, a sociedade precisa aceitar que os nossos saberes e tecnologias são fundamentais para a realização do mundo que conhecemos.

Nós, mulheres negras, aqui e em todos os lugares, somos produtoras de conhecimento e transformamos a realidade. É por isso que, com a minha história e com o meu trabalho, quero ser a ponte para que as novas gerações possam ir muito mais longe do que nós vamos. Quero ser caminho e acolhimento, tal como outras mulheres negras foram para mim.

“Eu sou porque nós somos”, a filosofia Ubuntu, nos ensina que somos porque tantas outras mulheres negras latinomericanas e caribenhas construíram estratégias, alianças, projetaram suas inteligências em ações que hoje nos garantem direitos sociais, políticos e humanos.

Nesse mês de luta, celebro essas existências que nos deixaram um legado de força e beleza, celebro a organização de Tereza de Benguela e de tantas outras que inspiraram a construção de um quilombo potente, grandioso e catalisador, como hoje é a Feira Preta.

No Julho das Pretas, na “seviralogia”, no empreendedorismo, nas alegrias e nas dores, reivindico o grito de esperança e rebeldia de Victoria Santa Cruz e reafirmo a potência de dizer em voz alta “Negra Soy”.

(Este texto foi escrito pela Adriana em conjunto com Danielle Almeida, cientista da educação, especialização em diversidade e diáspora afro latina.)


SOBRE A AUTORA

Fundadora da Feira Preta, evento de cultura e empreendedorismo, e CEO da PretaHub. Foi apontada pelo Fórum Econômico Mundial como a pr... saiba mais