Idade não define comportamento


Tati Gracia 7 minutos de leitura

Maior evento sobre trabalho e empreendedorismo 50+ do Brasil, o MaturiFest 2022 mostrou mais uma vez sua relevância, assim como a do sensível e mais do que necessário Mórris Litvak, CEO e fundador da Maturi – startup pioneira que conecta pessoas acima de 50 anos a oportunidades de trabalho, networking e desenvolvimento pessoal e profissional.

Destaco abaixo o que aconteceu de mais importante na quinta edição deste inovador festival da maturidade na perspectiva de Mórris, um especialista no tema e líder dessa frente no país.

Um estudo importante foi apresentado no MaturiFest. O que ele revela?

No evento, foi lançado um grande estudo realizado por Maturi e EY com empresas brasileiras sobre o etarismo no mercado de trabalho. O levantamento mostra, basicamente, que as organizações são idadistas – 78% das empresas se assumem etaristas – e têm consciência de que é um tema que vai afetar seu negócio, mas ainda não fazem nada a respeito. 80% não têm nem sequer políticas para combater a discriminação etária.

Essa pesquisa chega para embasar com dados os líderes que querem começar a olhar para isso sem ser a partir de achismos e planejar ações com base em estatísticas.

Acompanhei a repercussão de programas de grandes empresas voltados para mulheres 40+. O que você pensa sobre isso?   

A Maturi apresentou no festival um programa de contratação de mulheres 40+ para vagas estratégicas na Comgás e um programa gratuito de capacitação em empreendedorismo para mulheres 45+ no Grupo Boticário, que já passou de cinco mil inscritas no total (foram mais de duas mil em menos de 24 horas).

as organizações são idadistas e têm consciência de que é um tema que vai afetar seu negócio, mas ainda não fazem nada a respeito.

Tamanha demanda reprimida mostra a necessidade do mercado de trabalho e que grandes marcas estão considerando esse tema em seus planejamentos.

Uma curiosidade é que ambos os programas trazem o ponto da interseccionalidade da maturidade, que nada mais é do que dar atenção à questão da idade junto com gênero e raça, por exemplo – o que deixa o tema ainda mais desafiador.

Quais outros temas foram destaque no evento? 

Outro painel de destaque no MaturiFest disse respeito à menopausa no trabalho, que afeta uma elevada quantidade de mulheres que estão no auge da carreira e, muitas vezes, perdem o emprego por causa dos efeitos desse evento. E, pior, as pessoas nem mesmo sabem o que está acontecendo. Trata-se de um assunto sobre o qual vamos começar a ouvir e falar mais.

No festival, foi levantada ainda a questão das equipes intergeracionais e os benefícios que tanto startups quanto grandes empresas ganham pelo fato de terem pessoas de diferentes idades e gerações.

Não é fácil, esse tópico tem seus desafios, mas, sim, é possível chegar lá. Nota-se que as companhias de menor porte estão mais abertas a esse movimento porque têm mais necessidade.

Há diferenças entre como startups e grandes empresas enxergam os 50+?  

Mesmo as startups, quando começam a crescer, percebem em dado momento que também precisam de gente com mais experiência, até para lidar com as adversidades que começam a aparecer com o crescimento.

Já as empresas grandes consideram abraçar a causa mais porque ressaltam a diversidade e a inclusão como pilares do seu propósito, mas ainda não experimentaram o poder da intergeracionalidade. Sabemos, no entanto, que as vantagens da relação entre distintas gerações são várias.

Quais vantagens você pode citar? 

Por exemplo: é nítida a diminuição do turnover. A

A menopausa afeta muitas mulheres que estão no auge da carreira e, muitas vezes, perdem o emprego por causa dos efeitos desse evento.

rotatividade e o absenteísmo são muito menores quando você tem colaboradores mais velhos, que melhoram, inclusive, o clima e o engajamento a partir do momento em que há integração, educação e sensibilização na empresa, a começar pelos líderes, que passam a entender ser esse um ponto estratégico, já que a força de trabalho está envelhecendo.

O importante é o equilíbrio e a complementaridade: o time todo precisa entender que é fundamental a troca e o diálogo sem o choque geracional.

Por sinal, há estudos que mostram que equipes multigeracionais são mais inovadoras porque tendem a ser mais criativas e ter diferentes pontos de vista. Porém, o preconceito etário ainda é forte, principalmente em razão dos estereótipos.

Outro aspecto positivo é que esse colaborador 50+ conhece as dores e necessidades e sabe como se comunicar com o consumidor com mais de 50 anos, que é um consumidor super relevante e será cada vez mais, além de bastante heterogêneo. O essencial é que deve ser algo genuíno, não só “para inglês ver” nem apenas marketing.

Estamos próximos de chegar a esse equilíbrio? O que falta?   

Ainda vamos levar uns bons anos para quebrar tais paradigmas e romper essas barreiras. Há uma vasta gama de desafios, porque nossa cultura é muito “jovemcêntrica”. Olhamos para o jovem em detrimento do mais velho. Isso tem que mudar. Aliás, isso vai mudar, porque não tem outro jeito.

Entretanto, estamos caminhando demasiado lentamente para isso se compararmos com a velocidade com que a população está envelhecendo. Em 2040, metade da força de trabalho no Brasil terá acima de 50 anos, embora a maioria das empresas continue focada nos jovens.

Portanto, é inovador olhar para os mais velhos, porque você está mirando no futuro. A transformação digital não tem a ver com juventude, mas com diversidade.

Você costuma usar “pós-carreira” em vez de aposentadoria. Por quê?

equipes multigeracionais são mais inovadoras porque tendem a ser mais criativas e ter diferentes pontos de vista.

A preparação para o pós-carreira é uma tendência cada vez mais real. Estamos falando da organização para uma vida e uma carreira longevas. Não só da importância de a empresa prover essa atualização contínua, mas de a pessoa fazer isso por conta própria, entendendo que precisa ter um plano B e se planejar para trabalhar por mais tempo, ainda que fora do mundo corporativo – e não estamos falando de aposentadoria. Aliás, é importante começarmos a, literalmente, aposentar esse termo.

Há outras pesquisas mostrando que crescem ano a ano, no Brasil, o número de pessoas 50+ e 60+ em cursos de graduação. Boa parte delas está mudando de área e se reinventando, dispostas a dar um passo atrás para recomeçar. Isso vai ser cada vez mais comum com a nossa vida longeva. Teremos várias profissões.

Estágio e trainee deixarão de ser programas para jovens, como é hoje o jovem aprendiz, e estarão voltados a quem está se formando, não importa a idade. Significa dar uma chance para pessoas com mais bagagem, experiência de vida e inteligência emocional.

O empreendedorismo será cada vez mais presente na vida dos 50+? 

O festival da maturidade traz algo de esperança, porque muita gente com idade entre 50 e 60 anos está se sentindo em um limbo: não está aposentado e precisa de renda, acha que o mercado de trabalho não o quer mais, não sabe o que fazer, porém tem medo de empreender.

A tendência é que o empreendedorismo seja cada vez mais comum para essa faixa etária. A verdade é que os jovens estão mais acostumados e é mais natural para eles trabalhar por conta própria, ao passo que os mais velhos foram educados desde cedo para ter um emprego. Por isso, têm tanta resistência à mudança e medo de algo que não seja fixo.

Qual a principal lição que o evento nos deixa?    

Entre tantas lições que ficam, destaco que não podemos definir um padrão comportamental por dados demográficos ou etários. Generalizar por causa da idade ou da geração é um erro. Temos que olhar cada indivíduo independentemente da idade. Isso vale para o marketing. Isso vale para todos.

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Deixo aqui um agradecimento muito especial ao meu amigo Mórris. Esse movimento, sem dúvida, se amplifica no Brasil por ter você como uma das lideranças. Ainda há muito por fazer, mas a jornada já começou!

Quem é Mórris Litvak – fundador e CEO da Maturi, é formado e pós-graduado em engenharia de software pela FIAP de São Paulo e empreendedor desde os 15 anos. Começou a estudar envelhecimento e longevidade em 2013, inspirado pela história de sua avó. Em 2015, criou a MaturiJobs (agora Maturi), primeira plataforma do Brasil que conecta profissionais acima de 50 anos a empresas que buscam experiência e comprometimento.

A plataforma já conta com mais de 200 mil pessoas cadastradas em todo o país e tem grandes empresas nacionais e multinacionais como parceiras e clientes na jornada de diversidade etária organizacional. Atualmente, é professor dos cursos de pós-graduação em gerontologia dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, e da matéria de gerações do curso de Diversidade da Escola de Negócios da Aberje. Também é o ponto focal para assuntos de empregabilidade e empreendedorismo do International Longevity Center (ILC Brasil).

Clique aqui para acessar o conteúdo do MaturiFest 2022.


SOBRE A AUTORA

Tati é referência em comportamento de consumo e empatia no Brasil. Mestre em Análise do Comportamento Humano, é autora do livro “Empat... saiba mais