O Brasil precisa mastigar
Um século depois do modernismo, o país precisa decidir como assimilar as tecnologias globais e inscrever suas próprias inteligências na construção do futuro.

Se somos antropofágicos culturalmente, o que o Brasil vai mastigar no século XXI?
Nos anos 1920, os modernistas se inspiraram na Europa para romper com ela, então a hegemonia cultural formal do Ocidente. Nas artes brasileiras, forma e conteúdo mastigaram referências estrangeiras na tentativa de interpretar e encontrar as essências do Brasil.
Mas também é preciso reconhecer os limites desse gesto. O modernismo renovou a arte a partir de um olhar elitista, míope e concentrado em São Paulo, deixando à margem leituras descentralizadas do país que almejava traduzir.
Ficaram à margem a permanência da cultura escravista após a abolição, o crescimento vertiginoso das favelas e as transformações do carnaval, da música popular, da fotografia e do cinema para além de São Paulo. É o que debate Rafael Cardoso em Modernidade em preto e branco: arte e imagem, raça e identidade no Brasil, 1890–1945.
Hoje, as interferências são outras e vivemos em um mundo interconectado. Nossas vidas são ocupadas por tecnologias europeias, americanas e chinesas, produzidas em centros culturais e econômicos que disputam os sentidos do mundo.
Se somos antropofágicos culturalmente, o que o Brasil vai mastigar no século XXI?
Mas seguimos diante de uma questão tão fundamental quanto aquela da época modernista: o que estamos mastigando e o que queremos mastigar para pensar o Brasil?

É esse o futuro asséptico do Brasil?
Toda tecnologia carrega visões de mundo, idiomas, valores, modelos econômicos, padrões de consumo e ideias de futuro. Se a inteligência artificial generativa transforma previsão estatística em linguagem, como vamos cocriar diante dos vieses dos conteúdos usados em seu treinamento?
Nossas vidas são ocupadas por tecnologias europeias, americanas e chinesas, produzidas em centros culturais e econômicos que disputam os sentidos do mundo.
Como li em Tecnologias da invenção, de Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, esse universo parte, de modo desproporcional, de perspectivas WEIRD: ocidentais (Western), educadas (Educated), industrializadas (Industrialized), ricas (Rich) e democráticas (Democratic). Muitas vezes, também masculinas e brancas.
Ou seja: estamos falando de uma inteligência artificial com comportamento enviesado.
Qual é a nossa proposição de Brasil diante disso? A preocupação é menos patriótica do que ligada à construção de memórias e identidades — elementos que movimentam a cultura e decidem os ritmos e as estratégias de um país.
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Pensar que teremos de mastigar todas essas tecnologias pressupõe que teremos, mais do que nunca, de nos conhecer. Pede-se muito, e com razão, que estudemos as artificialidades da inteligência. Mas precisamos, sobretudo, estudar aquilo que forma a inteligência brasileira.
O QUE SÃO AS NOSSAS INTELIGÊNCIAS?
As inteligências brasileiras seguem sendo nosso grande desafio intelectual e estratégico. Como fazer o complexo Brasil — os muitos Brasis — avançar com as tecnologias? Como estabelecer conversas legítimas que construam nossa posição no século XXI?
Essa reflexão precisa considerar as diferenças sociais, regionais, culturais, econômicas e psíquicas do país. Precisa incluir os centros urbanos, as periferias, os interiores e as comunidades tradicionais.

Se queremos acionar, no século XXI, o poder antropofágico de assimilação presente na cultura brasileira, não podemos simplesmente repetir o gesto modernista. Precisamos ampliá-lo. Precisamos mastigar com o máximo de dentes que temos no Brasil.
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Isso significa incluir diferentes territórios, conhecimentos, experiências sociais, repertórios culturais e formas de inteligência na construção das tecnologias. São muitas as interfaces que precisam ser ativadas para que possamos pensar e agir estrategicamente.
Em uma perspectiva macro, precisamos construir parcerias entre os setores público e privado que reúnam o poder estrutural do Estado à agilidade das empresas e incorporem o conhecimento das universidades, dos setores criativos, das comunidades e dos territórios.
Em uma escala micro, precisamos desenvolver projetos multidisciplinares e multitécnicos desde a concepção, fazendo com que diferentes experiências de Brasil participem das decisões, das linguagens, da organização dos dados e das interfaces.
Isso exige construir repertório, reconhecer o Brasil e mapear as inteligências que já existem no país. Exige compreender nossas diferenças antes de transformá-las em dados, narrativas, produtos, serviços e estratégias.
Mastigar a tecnologia, portanto, não é apenas aprender a utilizá-la. É criar as condições para que o Brasil participe de sua formulação, interfira em seus sentidos e decida quais futuros deseja construir por meio dela.
Antes de perguntarmos o que a tecnologia pode fazer pelo Brasil, precisamos decidir o que o Brasil pretende fazer com a tecnologia.
