O Brasil precisa mastigar

Um século depois do modernismo, o país precisa decidir como assimilar as tecnologias globais e inscrever suas próprias inteligências na construção do futuro.

Colagem mostra o mapa do Brasil coberto por vegetação e formas geométricas, cercado por diferentes mãos
Créditos: Unsplash, Getty images

Raquel Virginia 4 minutos de leitura
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Se somos antropofágicos culturalmente, o que o Brasil vai mastigar no século XXI?

Nos anos 1920, os modernistas se inspiraram na Europa para romper com ela, então a hegemonia cultural formal do Ocidente. Nas artes brasileiras, forma e conteúdo mastigaram referências estrangeiras na tentativa de interpretar e encontrar as essências do Brasil.

Mas também é preciso reconhecer os limites desse gesto. O modernismo renovou a arte a partir de um olhar elitista, míope e concentrado em São Paulo, deixando à margem leituras descentralizadas do país que almejava traduzir.

Ficaram à margem a permanência da cultura escravista após a abolição, o crescimento vertiginoso das favelas e as transformações do carnaval, da música popular, da fotografia e do cinema para além de São Paulo. É o que debate Rafael Cardoso em Modernidade em preto e branco: arte e imagem, raça e identidade no Brasil, 1890–1945.

Hoje, as interferências são outras e vivemos em um mundo interconectado. Nossas vidas são ocupadas por tecnologias europeias, americanas e chinesas, produzidas em centros culturais e econômicos que disputam os sentidos do mundo.

Se somos antropofágicos culturalmente, o que o Brasil vai mastigar no século XXI?

Mas seguimos diante de uma questão tão fundamental quanto aquela da época modernista: o que estamos mastigando e o que queremos mastigar para pensar o Brasil?

Releitura tridimensional de Abaporu mostra figura humana de pés grandes diante de cactos e do sol
Releitura futurista de Abaporu, de Tarsila do Amaral, criada com auxílio do ChatGPT.
É esse o futuro asséptico do Brasil?

Toda tecnologia carrega visões de mundo, idiomas, valores, modelos econômicos, padrões de consumo e ideias de futuro. Se a inteligência artificial generativa transforma previsão estatística em linguagem, como vamos cocriar diante dos vieses dos conteúdos usados em seu treinamento?

Nossas vidas são ocupadas por tecnologias europeias, americanas e chinesas, produzidas em centros culturais e econômicos que disputam os sentidos do mundo.

Como li em Tecnologias da invenção, de Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, esse universo parte, de modo desproporcional, de perspectivas WEIRD: ocidentais (Western), educadas (Educated), industrializadas (Industrialized), ricas (Rich) e democráticas (Democratic). Muitas vezes, também masculinas e brancas.

Ou seja: estamos falando de uma inteligência artificial com comportamento enviesado.

Qual é a nossa proposição de Brasil diante disso? A preocupação é menos patriótica do que ligada à construção de memórias e identidades — elementos que movimentam a cultura e decidem os ritmos e as estratégias de um país.

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Pensar que teremos de mastigar todas essas tecnologias pressupõe que teremos, mais do que nunca, de nos conhecer. Pede-se muito, e com razão, que estudemos as artificialidades da inteligência. Mas precisamos, sobretudo, estudar aquilo que forma a inteligência brasileira.

O QUE SÃO AS NOSSAS INTELIGÊNCIAS?

As inteligências brasileiras seguem sendo nosso grande desafio intelectual e estratégico. Como fazer o complexo Brasil — os muitos Brasis — avançar com as tecnologias? Como estabelecer conversas legítimas que construam nossa posição no século XXI?

Essa reflexão precisa considerar as diferenças sociais, regionais, culturais, econômicas e psíquicas do país. Precisa incluir os centros urbanos, as periferias, os interiores e as comunidades tradicionais.

Cópia de parte da publicação original do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, publicado em 1928
Tupi or not tupi, that is the question? A pergunta que chega no século 21.

Se queremos acionar, no século XXI, o poder antropofágico de assimilação presente na cultura brasileira, não podemos simplesmente repetir o gesto modernista. Precisamos ampliá-lo. Precisamos mastigar com o máximo de dentes que temos no Brasil.

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Isso significa incluir diferentes territórios, conhecimentos, experiências sociais, repertórios culturais e formas de inteligência na construção das tecnologias. São muitas as interfaces que precisam ser ativadas para que possamos pensar e agir estrategicamente.

Em uma perspectiva macro, precisamos construir parcerias entre os setores público e privado que reúnam o poder estrutural do Estado à agilidade das empresas e incorporem o conhecimento das universidades, dos setores criativos, das comunidades e dos territórios.

Em uma escala micro, precisamos desenvolver projetos multidisciplinares e multitécnicos desde a concepção, fazendo com que diferentes experiências de Brasil participem das decisões, das linguagens, da organização dos dados e das interfaces.

Isso exige construir repertório, reconhecer o Brasil e mapear as inteligências que já existem no país. Exige compreender nossas diferenças antes de transformá-las em dados, narrativas, produtos, serviços e estratégias.

Mastigar a tecnologia, portanto, não é apenas aprender a utilizá-la. É criar as condições para que o Brasil participe de sua formulação, interfira em seus sentidos e decida quais futuros deseja construir por meio dela.

Antes de perguntarmos o que a tecnologia pode fazer pelo Brasil, precisamos decidir o que o Brasil pretende fazer com a tecnologia.


SOBRE A AUTORA

Raquel Virgínia é CEO e fundadora da Nhaí!, referência na conexão entre criatividade, negócios e impacto social. Vencedora do Caboré, ... saiba mais