Julho das Pretas: reparar para construir outros futuros
Construir outros futuros também passa por criar espaços em que pessoas negras possam formular suas próprias perguntas sobre ciência e tecnologia

Há alguns meses, estive no Sesc Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, para uma conversa sobre mulheres negras na ciência e na tecnologia. Dividi o palco com Carol Santos, fundadora do Instituto Educar+, que nasceu no Complexo do Chapadão.
Diante de nós, o público era o melhor possível: estudantes de escolas públicas. Meninas negras, em sua maioria, que ainda estavam construindo a ideia do que poderiam ser.
Enquanto conversávamos, pensei no que aquela cena oferecia a elas. Quando uma menina negra vê mulheres negras falando de ciência e tecnologia, assiste, de certa forma, ao trailer de um futuro que muitas vezes ainda lhe parece inédito. Se ela se reconhece em quem está no palco, talvez chegue em casa com uma ideia nova e uma possibilidade a mais.
Penso naquela tarde agora, durante o Julho das Pretas. Este ano, a mobilização acontece sob o lema “Seguimos em marcha por reparação e bem viver”, dando continuidade ao processo político que levou centenas de milhares de mulheres negras a Brasília, em novembro de 2025.
Os dois conceitos aparecem juntos porque se sustentam. Reparação diz respeito ao que foi destruído, negado e interrompido. Bem viver, ao que queremos construir. A aposta do movimento é que essas duas coisas precisam acontecer ao mesmo tempo.
Em 2022, a renda média das pessoas brancas era 87% maior que a das pessoas negras. A maior distância aparecia entre homens brancos e mulheres negras.
Na educação, apenas 15% das mulheres negras com 25 anos ou mais haviam concluído o ensino superior, diante de 29% das mulheres brancas segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
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Esses números descrevem o presente, mas também moldam o que vem depois. Renda e escolaridade definem quem tem tempo para estudar, quem consegue permanecer em um curso, quem pode aceitar uma oportunidade mal remunerada no início da carreira e quem consegue sustentar escolhas de longo prazo.
Quando essas condições se distribuem de forma tão desigual, também se torna desigual o direito de imaginar e construir a própria trajetória.
IMAGINANDO FUTUROS
O problema tampouco termina na entrada nesses espaços. A filósofa Sueli Carneiro deu nome a um processo que acompanha a experiência de muitas pessoas negras: o epistemicídio. Ele desqualifica os conhecimentos que essas pessoas produzem, apaga suas referências e coloca sua capacidade intelectual sob suspeita.
A ausência de referências negras nos currículos é uma de suas expressões, mas o problema também aparece na vida cotidiana das instituições. Uma mulher negra pode ingressar em uma universidade, em um laboratório ou em uma empresa e ainda encontrar um ambiente que espera dela execução e conformidade – nunca autonomia intelectual, criação ou formulação.
Por isso aquela tarde em Nova Iguaçu me marcou tanto. Carol e eu estávamos no palco falando de ciência e tecnologia como campos em que também podemos formular ideias, ensinar, pesquisar e fazer escolhas.

Estávamos ali como pessoas que interpretam o mundo, produzem conhecimento e compartilham o que sabem, para além da narrativa individual de quem conseguiu chegar.
Isso desloca uma medida antiga de valor. Durante séculos, mulheres negras sustentaram práticas de cuidado, transmissão de saberes, organização comunitária, criação e resistência política. Muito disso foi descrito como serviço, ajuda, habilidade natural ou intuição. Raramente como método, conhecimento ou tecnologia.
Reparar, portanto, é recuperar o que foi desautorizado, preservar o que foi apagado e criar condições para que novas gerações possam estudar, investigar, experimentar e errar. É garantir acesso a recursos, tempo, autoria e poder de decisão.
debates antes mantidos à margem começam a formar redes e campos próprios de produção de conhecimento.
É também disso que trata o Bem Viver: um projeto político enraizado nas experiências de povos que sobreviveram ao colonialismo construindo outras formas de organizar a vida, baseadas em solidariedade, cuidado coletivo, autonomia e outras relações com o tempo, a natureza e as comunidades.
Na formulação da Marcha das Mulheres Negras, o conceito questiona uma ideia de desenvolvimento que mede o avanço de um país sem perguntar quem paga por ele, quem colhe seus benefícios e quais vidas são tratadas como descartáveis.
Construir outros futuros também passa por criar espaços em que pessoas negras possam formular suas próprias perguntas sobre ciência e tecnologia. No fim deste mês, vou participar do Congresso Internacional Aqualtune Lab, dedicado às relações entre desigualdades raciais, direitos humanos e tecnologias digitais.
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Há apenas 10 anos seria difícil imaginar um encontro assim. Hoje, iniciativas como essa ganham fôlego e mostram que debates antes mantidos à margem começam a formar redes e campos próprios de produção de conhecimento.
O Julho das Pretas nos lembra que nenhum futuro será verdadeiramente novo enquanto continuar reservando às mulheres negras os mesmos lugares de sempre. Reparar é criar condições para que elas produzam conhecimento, participem das decisões e tenham poder para inventar os mundos que virão.
