Mataram o bitcoin (de novo). E agora?


Thiago Baron 4 minutos de leitura

Antes de escrever sobre alguma coisa, gosto de dar uma fuçada sobre os caminhos que o Google Trends pode me apontar e quais insights ele pode me trazer. É uma das maneiras mais rápidas e simples de ter uma pesquisa quanti ali na sua mão, em poucos segundos.

Para ser mais assertivo, lancei lá duas palavras, coisa simples: “bitcoin dead”. Minha ideia era tirar a temperatura se a população mundial – no caso, os interessados em investir em ativos de alto risco – estaria embarcando nas sucessivas notícias da “morte do bitcoin”.  

Me deparei com um resultado interessante. Puxando o histórico de buscas feitas via Google, em todo o mundo, durante os últimos cinco anos – o que me dá uma boa base de análise temporal –, é possível identificar dois picos de aumento de buscas pela tal morte desse cripto ativo.

O primeiro aconteceu em dezembro de 2017, quando o termo alcançou praticamente o valor máximo no ranking de interesse de buscas – 98 pontos em uma escala de 0 a 100. O segundo pico aconteceu há pouco, em junho deste ano, quando o termo alcançou o valor máximo nesse ranking de interesse: 100 pontos.

Esses picos refletiram movimentos reais de queda do valor dessa criptomoeda ou foram apenas um reflexo da massa indo confirmar no Google se o que ouviram “por aí” estava certo?

Haja fôlego para subir e descer tanta ladeira junto com os arautos do apocalipse bitcoin.

Voltei um pouco às notícias para me lembrar o que acontecia lá em 2017. Naquele ano, o bitcoin começou valendo US$ 1.290 e terminou em quase US $20 mil – uma valorização de mais de 1.400%. “Ué, mas se valorizou tanto, essa cripto ia morrer pelo quê?” É aquela velha história do peixe que morre pela boca. Essa alta volatilidade levou os analistas de mercado e a imprensa a aventar que, agora, o bitcoin “iria com Deus”. 

É, mas não foi. No ano seguinte, 2018, ele até desceu a ladeira: fechou valendo míseros US$ 3,3 mil. Mas logo em 2019 se recuperou e voltou praticamente à casa dos US $12 mil. Haja fôlego para subir e descer tanta ladeira junto com os arautos do apocalipse bitcoin.

LADEIRA ABAIXO, LADEIRA ACIMA

O segundo – e maior – pico da história foi em junho deste ano e refletiu uma queda no preço do bitcoin, que corria o risco de descer abaixo dos US$ 20 mil e que foi o que, de fato, aconteceu. No dia 19 de junho, o preço foi o menor já registrado desde o final de 2020:  US$ 17.720. Mas, novamente, o danado se recuperou e voltou a subir a ladeira dos preços.

Enquanto escrevo esta coluna, vejo que o bitcoin fechou o dia de ontem (15) na casa dos US$ 19 mil. É fato que, comparado ao valor de janeiro (US$ 47 mil), ele não está no melhor dos seus momentos. Mas basta olhar para o gráfico de todo este ano – e dos anos anteriores também – e é inegável o quanto essa cripto já subiu e desceu incontáveis vezes. 

Encontrei um site, inclusive, que faz uma espécie de “mortômetro”, computando quantas vezes o bitcoin já foi embalsamado e pronto para ser sepultado. Desde 2010, já foram 455 vezes que sua morte foi anunciada na imprensa. Percebam que ainda nada aconteceu, se não, nem estaríamos aqui falando sobre isso.

O fato é que ele balança, mas não cai de fato. Até cai em cotação, mas é só puxar um gráfico mensal ou semestral para perceber que o sobe e desce sempre fez parte da história desse rei dos criptos. 

Desde 2010, a morte do bitcoin já foi anunciada 455 vezes pela imprensa. O fato é que ele balança, mas não cai.

Nem a pandemia conseguiu aniquilá-lo de vez. No começo daquele fatídico 2020, enquanto o vírus se espalhava pelo Brasil (fevereiro/ março), o preço despencou mais de 90%. Porém, voltou a subir e fechou o ano passando dos US$ 20 mil pela primeira vez na história.

Com os fogos do réveillon para 2021, veio mais um recorde: o bitcoin começou aquele ano batendo os US$ 30 mil. Dias depois, chegou aos US$ 40 mil, dobrando de valor em pouco mais de um mês.

Voltando aos dias de hoje, onde temos elementos como a mudança de política do FED americano, que pressionou os ativos de risco, a implosão do ecossistema Terra – que detém a bitcoin Terra (Luna) – ou especulações de que players como Celsius e Three Arrows Capital estariam passando por um momento de insolvência, é fato que há um cenário mais complicado para o bitcoin e para as criptos como um todo. Agora, a dizer que o bitcoin vai empacotar de vez… 

Na minha carteira de criptos hoje tenho apenas Ethereum e Wibx (já tive bitcoins) e, por isso, há algum tempo venho acompanhando as notícias do mercado e as opiniões de colegas. Há sempre os mais fervorosos e os mais céticos.

Seria presunção minha cravar aqui se, desta vez, é melhor irmos nos despedindo do bitcoin. Mas olhar para trás, como tentei fazer aqui trazendo esses insumos de informação, é superimportante para entender quão resiliente ele é e para ter consciência de que não é o primeiro vale que ele frequenta.

O que posso cravar é que, ao falar de bitcoin, vale aquela máxima do jornalismo brasileiro: morreu, mas passa bem.


SOBRE O AUTOR

Thiago Baron é o founder e chief creative officer da DOJO. Formado em Design e pós-graduado em Semiótica, tem 20 anos de experiência c... saiba mais