Memória: lembro, logo existo
Uma conversa com o neurocientista Rafael Nunes para entender como a tecnologia está reorganizando nossa relação com o tempo e com nós mesmos

Li recentemente o livro "O Criador de Memórias", de Gian Fabra. É a história de uma pessoa que lida com o avanço do Alzheimer da mãe e que, por acaso, acaba indo de encontro às suas próprias memórias e as da sua família. No livro, a frase "lembro, logo existo", um trocadilho com a frase de “penso, logo existo”, de René Descartes, mexeu comigo.
Fiquei alguns dias pensando sobre isso: se a memória é tão fundamental para nossa existência, onde vamos parar diante do está acontecendo com a nossa? Como estamos formando memórias em uma época em que a atenção é o bem mais raro e disputado?
Há anos venho falando sobre o hackeamento da nossa atenção, sobre como a tecnologia está reorganizando nossa relação com o tempo e com nós mesmos. Mas, desta vez, quis ir mais fundo, entender a ciência por trás disso. Por isso chamei o neurocientista Rafael Nunes para uma conversa.
Prepare-se para bons insights.
Genesson Honorato – Para começo de conversa, o que é memória?
Rafael Nunes – Memória é o processo que permite ao cérebro registrar experiências, mantê-las ao longo do tempo e acessá-las posteriormente. Simples assim.
Mas essa simplicidade esconde uma complexidade. Quando você vive uma experiência, ela passa por cinco fases até se consolidar como lembrança:
- aquisição:você precisa estar atento, focado, presente;
- codificação: passa pela sua interpretação pessoal, pelas suas sinapses;
- consolidação: a memória sai do efêmero e vai para o longo prazo;
- evocação: você consegue acessar aquela memória quando precisa;
- reconsolidação: aquele momento em que você traz a memória de volta e ela fica maleável, aberta a mudanças.
Existe um estudo fascinante chamado "Lost in the Mall" que consegue implantar memórias falsas em grande parte das pessoas, combinando elementos verdadeiros com histórias inventadas.

Eles contam histórias reais da sua infância e, no meio delas, inserem uma história que nunca aconteceu, mas com detalhes que você realmente viveu. Então você começa a lembrar.
Você não é exatamente quem acha que é. Você é a história que conta para si mesmo. Sua identidade é construída sobre narrativas que podem não ser 100% condizentes com os fatos.
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Mas essa construção narrativa é extremamente importante, ela nos localiza no tempo e no espaço. Sustenta nossa aprendizagem. Nos ajuda a planejar, raciocinar, resolver problemas.
Sem memória, você não sabe quem é. Sem memória, você não consegue aprender. Sem memória, você não consegue se localizar no tempo.
Genesson Honorato – A tecnologia e a fragmentação da atenção estão, de fato, afetando a qualidade das nossas memórias?
Rafael Nunes – Estamos diante de um fato: a qualidade das nossas memórias mudou, e mudou drasticamente. Para que uma experiência seja gravada com riqueza de detalhes, você precisa estar lá, inteiro.
O cérebro humano é uma máquina analógica brilhante, mas não foi desenhado para dividir o foco entre o sabor do jantar, o ângulo perfeito da foto e a notificação que acaba de vibrar no bolso.
Quando você fragmenta sua atenção, compromete a fase de aquisição. A memória não se consolida com a mesma riqueza. Você fica com fragmentos, não com experiências completas.
Estamos entregando nossas memórias – que são nossas vidas – a máquinas que não sabem o que é sentir o cheiro de um domingo em família.
Existe um conceito chamado "memória estendida". Toda vez que você escreve em um caderno para lembrar algo, você terceiriza um pedaço da sua memória para um ente externo. Isso sempre existiu, mas a quantidade de informações que você tem que lidar hoje, a quantidade de interfaces que você precisa gerenciar mudou.
É uma mudança sutil e perigosa: antes, nossa preocupação era guardar a informação. Hoje, nosso cérebro se condiciona a lembrar apenas onde a informação está armazenada. No buscador, no GPT, no app. Você não fica conectado à memória e sim ao lugar onde ela está armazenada. Você não lembra mais o que você sabe, mas sim onde procurar.
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Quando você transfere para as telas, para a nuvem, para a inteligência artificial a responsabilidade de guardar sua história, você deixa de reter conhecimento. Sem retenção, não há aprendizado.
Seu repertório, aquele conjunto de conexões neurais que você usa para interpretar o mundo, para proteger-se contra perdas cognitivas no futuro, vai encolhendo. Isso vai cobrando um preço emocional, cognitivo, existencial.
Genesson Honorato – Existem estratégias práticas para proteger nossa memória e atenção?
Rafael Nunes – A primeira estratégia é a autoconsciência. Entender que, sim, há uma fragmentação da atenção em curso e que precisamos estar atentos a ela. Entender que o celular é uma máquina de desatenção e mudar a maneira de se relacionar com ele pode ser o primeiro passo.
A boa notícia é que, do ponto de vista prático, isso pode acontecer de formas simples. Desativar as notificações. Não permitir o acendimento automático da tela. Delimitar os locais onde você não estará com o celular. Nada de celular no quarto ou no banheiro. Criar momentos de alta expressão, de alto significado, onde você está de fato ali, no churrasco com os amigos, sentindo o cheiro, vendo as cores, lembrando das conversas.
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A inteligência artificial não lê as entrelinhas, a intenção das coisas, o peso das coisas. Você pode estar em uma conversa harmônica, mas pode existir um clima de tensão imperceptível a um algoritmo. Você pode estar em um churrasco com amigos, e aquele momento pode carregar toda a riqueza de uma vida inteira, mas uma máquina não consegue capturar isso.
Estamos entregando nossas memórias – que são, fundamentalmente, nossas vidas – a máquinas que não sabem o que é sentir o cheiro de um domingo em família. Que não compreendem por que uma conversa sem telefone por perto vale mais do que 100 mensagens de voz.
Genesson Honorato – Como você vê o futuro da memória humana? Será que estamos sendo críticos o suficiente?
Rafael Nunes – A inteligência artificial e a hiperconexão não foram uma bomba que caiu de surpresa sobre nós. Nós abrimos a porta. Deixamos que entrassem, seduzidos pela promessa de ganhar tempo.
O que não percebemos é que, nessa transação, estamos economizando tempo ao custo de abreviar significados. Estamos ganhando velocidade e perdendo profundidade.

Será que estamos sendo críticos o suficiente para olhar mais de perto os efeitos dessas máquinas de memória que pegam a nossa memória e nos deixam conectados não à lembrança, mas ao lugar onde ela está guardada?
O resgate da nossa existência coletiva e individual exige que a gente comece a fazer perguntas diferentes. Não apenas "como usar melhor a tecnologia", mas "o que estamos deixando de ser ao transferir a memória para máquinas?". Não apenas "como ganhar mais tempo", mas "qual é o preço da velocidade em termos de significado?".
Espero que tenha gostado dessa reflexão.
Recuperar o tempo vivido em vez do tempo medido. Cultivar o olhar demorado, a escuta atenta que não divide espaço com uma tela. Criar momentos de alta expressão, de alto significado, onde você está de fato ali, no churrasco com os amigos, sentindo o cheiro, vendo as cores, lembrando das conversas.
Que possamos construir memórias que sustentem quem somos, hoje e amanhã.
Até a próxima.
