O cliente mais importante do Rock in Rio ainda é quem compra o ingresso?

Com limite físico de público, o festival amplia ativações, produtos e experiências premium — mas todo esse ecossistema ainda depende de quem compra o ingresso.

Público levanta as mãos diante de um telão com o logotipo do Rock in Rio.
Créditos: rockinrio via Youtube / methaphum via Adobe Stock

Paulo Chiodi 7 minutos de leitura
Favoritar no Google

Outro dia, vi no Twitter — eu sei que é X, me deixa — um post comparando o tempo necessário para o Rock in Rio vender seus ingressos em diferentes edições. Foi daí que surgiu uma pergunta: o cliente mais importante do festival ainda é quem compra o ingresso?

Em 2013, o Rock in Rio colocou 445 mil ingressos à venda. Quatro horas e quatro minutos depois, não havia mais nenhum. Em alguns momentos, cerca de 400 mil pessoas tentaram comprar ao mesmo tempo. Depois de uma instabilidade inicial, o sistema chegou a processar aproximadamente 1.200 ingressos por minuto.

Treze anos depois, o Rock in Rio 2026 começou com ingressos disponíveis para algumas datas.

O contraste me levou a pesquisar se o festival estava mudando seu modelo de negócio. Minha hipótese inicial era relativamente simples: o Rock in Rio parecia menos dependente de vender todos os ingressos rapidamente e mais apoiado nas cotas, ativações e investimentos das marcas.

A edição de 2022, porém, enfraquece essa hipótese. O dia de Justin Bieber esgotou em 12 minutos. O de Coldplay, em 27. O line-up continua fazendo diferença para a demanda. Portanto, o ritmo das vendas de 2026, isoladamente, não prova que o festival perdeu relevância ou deixou de depender do público.

Durante a pesquisa, outro número me chamou mais atenção: o público presencial praticamente parou de crescer.

Foram cerca de 700 mil pessoas em 2017, 700 mil em 2019, 700 mil em 2022 e 730 mil em 2024. Em 2026, o festival voltou a receber pouco mais de 700 mil pessoas durante seus sete dias.

Isso revela um limite físico. É possível reorganizar palcos, aperfeiçoar a operação e criar novas áreas, mas não dobrar o público sem alterar completamente o festival.

A pergunta, então, muda: como a Rock World cresce quando a quantidade de pessoas que pode entrar na Cidade do Rock já tem um teto?

Quando o público tem um limite físico, o crescimento precisa vir do valor criado ao redor dele.

O VALOR DE LOTAR RAPIDAMENTE

Vender 700 mil ingressos em quatro horas ou levar semanas para alcançar o mesmo número muda bastante a vida de quem organiza o evento. Afeta o risco, o caixa e a percepção que o mercado e as redes sociais constroem sobre aquela edição.

Para uma empresa que compra uma cota de patrocínio, porém, a conta pode ser um pouco diferente.

Quando os portões se abrem, os dois cenários podem terminar com centenas de milhares de pessoas circulando pela Cidade do Rock. É esse público que uma marca procura quando monta uma experiência, distribui um produto ou compra presença na transmissão.

Em 2026, o Rock in Rio reuniu mais de 90 marcas e mais de 100 ativações. A organização estimou 8 mil horas de experiências promovidas por empresas, cerca de 1 milhão de brindes distribuídos durante o festival e aproximadamente 400 produtos licenciados.

Sim, 1 milhão de brindes.

Público circula pela Cidade do Rock ao lado de texto que informa 8 mil horas de experiências e 1 milhão de brindes.
Em 2026, as marcas parceiras do Rock in Rio promoveram 8 mil horas de experiências e distribuíram cerca de 1 milhão de brindes.

Em 2024, quando 730 mil pessoas passaram pelo festival, Roberto Medina disse que as marcas investiram R$ 510 milhões em ativações e comunicação relacionadas ao evento.

É importante separar esse valor da receita obtida pela Rock World. Os R$ 510 milhões também incluem despesas das próprias marcas com mídia, estruturas, produtos, brindes, ações e comunicação. Portanto, não representam dinheiro integralmente recebido pela organizadora.

Ainda assim, o número ajuda a dimensionar quanto investimento circula ao redor do festival antes mesmo de se considerar a bilheteria.

Também existe a audiência que acompanha os shows fora da Cidade do Rock. Em 2024, a Globo informou que suas plataformas alcançaram aproximadamente 46 milhões de pessoas. Nas redes sociais da empresa, conteúdos relacionados ao festival acumularam 1,4 bilhão de visualizações.

AS MARCAS ESTAVAM LÁ DESDE O COMEÇO

A relação com as marcas não surgiu depois que o Rock in Rio ficou grande. Ela fazia parte de sua origem.

Segundo Rodolfo Medina, o festival nasceu de um briefing da Brahma. A agência procurava uma ideia capaz de sustentar meses de comunicação para a cervejaria, e Roberto Medina apresentou o projeto de um festival.

Em 1985, Queen, AC/DC, Iron Maiden, Rod Stewart, Ozzy Osbourne e Yes ajudaram a levar 1,38 milhão de pessoas à primeira Cidade do Rock. A Brahma já estava ali porque o evento também havia sido concebido como uma plataforma de comunicação.

Seria impreciso, portanto, afirmar que o Rock in Rio deixou de ser um negócio voltado ao consumidor e se transformou em uma operação B2B. Os dois lados sempre coexistiram. O que mudou foi o tamanho da plataforma comercial construída ao redor do público.

O Rock in Rio sempre vendeu ingressos e atenção. O que cresceu foi a quantidade de produtos criada em torno dessa atenção.

A montanha-russa do iFood ajuda a visualizar essa dinâmica.

Para a empresa, ela é uma ação de marketing. Para quem comprou ingresso, torna-se uma atração para ocupar o dia. Para a Rock World, ajuda a ampliar a experiência oferecida e a percepção de valor do festival.

Montanha-russa do iFood instalada na Cidade do Rock, com estrutura e painéis vermelhos da marca.
A montanha-russa do iFood transforma uma ativação de marca em atração para o público do Rock in Rio.

Em lugar de simplesmente comprar um espaço para exibir sua logomarca, as empresas ajudam a financiar parte das atrações que o público encontra dentro da Cidade do Rock. Em troca, recebem atenção, circulação, conteúdo orgânico nas redes sociais e associação com um evento que faz parte do calendário cultural brasileiro.

O PÚBLICO GERA OUTRAS RECEITAS

Justin Bieber e Coldplay mostraram, em 2022, que alguns artistas ainda conseguem mudar completamente a velocidade das vendas. A música continua sendo o principal motivo para alguém pagar pelo ingresso, reservar um dia inteiro e enfrentar a logística de chegar à Cidade do Rock.

Depois da compra, porém, o festival consegue vender outras coisas ao redor dessa pessoa: alimentação, bebidas, produtos licenciados, ativações, mídia e experiências premium.

Em 2026, a Rock World estreou a Comfort Zone, uma área de 674 metros quadrados próxima ao Palco Mundo, limitada a 2 mil pessoas e equipada com bares e banheiros próprios.

Enquanto a entrada inteira para o gramado custava R$ 870, o acesso à Comfort Zone chegava a R$ 1.950.

Quando a quantidade de pessoas possui um limite, uma possibilidade de crescimento é aumentar quanto cada visitante pode gerar em receita. Outra é criar mais espaços, produtos e experiências que as marcas possam comprar.

Isso não reduz a importância do line-up. Sem artistas que despertem o desejo de ir ao festival, toda a plataforma perde valor. Mas a expansão comercial cria uma pergunta importante: depois de reunir o público necessário, quanto ainda compensa investir para tornar a programação mais desejada?

Não há dados públicos suficientes para saber quanto custa o line-up de cada edição ou afirmar que a Rock World esteja deliberadamente investindo menos em artistas. Também não se pode interpretar a disponibilidade de ingressos para algumas datas como prova automática de desinteresse.

Existe, entretanto, um incentivo econômico evidente. Se uma combinação de artistas consegue reunir o público necessário, entregar a audiência prometida aos patrocinadores e sustentar a operação, qualquer investimento adicional no line-up precisa produzir algum retorno.

Esse retorno pode aparecer na velocidade das vendas, na satisfação de quem compareceu, na disposição para pagar por experiências premium ou na vontade de voltar à próxima edição. Lotar o festival até setembro, sozinho, não responde a nenhuma dessas questões.

ENTÃO, QUEM É O CLIENTE?

Em 2025, Luis Justo, presidente da Rock World, afirmou que quase 90% do faturamento de Rock in Rio e The Town vinha de bilheteria e patrocínio. A empresa não detalha quanto corresponde a cada fonte. Por isso, não é possível concluir se as marcas já geram mais receita do que os ingressos.

Talvez, então, a pergunta inicial esteja mal formulada.

O consumidor compra ingresso, comida, bebida, produtos e áreas premium. Também é a razão pela qual Itaú, Coca-Cola, iFood, Heineken e dezenas de outras empresas querem ocupar espaços dentro e fora da Cidade do Rock.

Quem compra o ingresso não é apenas uma fonte de receita. É também aquilo que torna as outras receitas possíveis.

Sem o público, o festival perde a bilheteria e as marcas perdem aquilo que foram buscar: atenção.

A Rock World não pode tratar esse público como coadjuvante, porque ele sustenta os dois lados do negócio. Ainda assim, um festival pode cumprir contratos comerciais, entregar a audiência prometida e terminar com parte dos visitantes sentindo que pagou caro demais pelo que recebeu.

É essa distância que vale acompanhar nas próximas edições: a que existe entre o sucesso comercial da plataforma e o valor percebido por quem ainda precisa comprar o ingresso para que tudo ao redor funcione.


SOBRE O AUTOR

Paulo Chiodi é gerente de produto do Itaú Unibanco e fundador da Product Guru's. saiba mais