Não vamos sucumbir
Às vésperas do segundo turno, Sil Bahia recorre a Elza Soares e Gal Costa para lembrar que resistir também é continuar fazendo planos e imaginando futuros.

Se eu tivesse o disco Planeta Fome, da Elza Soares, ele teria furado. E o furo estaria bem na faixa “Libertação”, que ouvi sem parar nas últimas semanas. É a canção em que, com o BaianaSystem sublimemente martelando ao fundo, ela, naquela voz que faz tanta falta, declama: “Eu não vou sucumbir!”.
A frase não canta vitória fácil, mas, enfaticamente, rejeita a rendição. Elza não tem a soberba de prometer que o bem vai triunfar no final, muito menos afirma que devemos confiar no universo. Ela está simplesmente lembrando que, mesmo quando tudo parece nos empurrar para a derrota, existe pelo menos um pedaço da vida que continua sendo conduzido por nós.
Sim, estou falando das eleições. O primeiro turno trouxe resultados que me animam e outros que me preocupam de verdade. Houve avanços importantes na representação política, novas pessoas chegando a espaços de decisão, movimentos que conseguiram transformar anos de trabalho em mandato. Mas também se consolidaram projetos que podem produzir efeitos muito duros sobre políticas e direitos que estão no centro de tudo aquilo em que acredito.
Sinto que uma eleição transforma a atmosfera, mesmo antes de qualquer nova lei ou decisão do governo. Percebo uma mudança na luz, no ar. O resultado das urnas reorganiza correlações de força, expectativas, possibilidades, riscos. E, assim, mexe com a maneira como imaginamos o futuro. Faz algumas pessoas se sentirem mais autorizadas a ocupar certos espaços e leva outras a medir cada passo. A temer.
O medo é um péssimo arquiteto de futuros.
Mas então Elza brada: “Não vou sucumbir!”. Não dá para viver em estado permanente de apuração e importar a lógica do medo para dentro do peito. Porque, junto da voz de Elza, vem a da Gal Costa: “É preciso estar atento e forte”.
Sim, eu sei que, em 1968, quando Caetano e Gil escreveram esse verso de “Divino, maravilhoso”, o Brasil caminhava para o período mais sombrio da ditadura. Não quero forçar comparações que reduzam a gravidade daquele tempo ou simplifiquem o nosso. Mas, quase 60 anos depois, a frase segue falando alto porque há momentos em que prestar atenção é uma necessidade política.
A armadilha está aqui: quando a atenção vira vigilância, a força vai para o ralo. O medo é um péssimo arquiteto de futuros. Quando ocupa espaço demais na nossa cabeça, nos faz encolher. Cancelamos planos antes da hora, passamos mais tempo reagindo do que construindo e aceitamos horizontes mais estreitos. Uma sociedade exausta tem menos energia e imaginação para disputar a vida coletiva.
Lá em 1968, a atenção e a força daquela frase vinham sobretudo da voz rasgada e do corpo em movimento da Gal. Havia ali uma presença física que se recusava a permitir que o pavor e a letargia ditassem o ritmo da existência.
Uma sociedade exausta tem menos energia e imaginação para disputar a vida coletiva.
Por isso, hoje, combino as vozes de Elza e Gal – e de Caetano, de Gil e do BaianaSystem. Precisamos estar atentos para enxergar o buraco, fortes para não cair lá dentro e inteiros o bastante para não deixar que ele dite nossos passos. Resistir também é continuar fazendo planos, encontrando gente, criando coisas, ocupando espaços, rindo, dançando, desejando, mesmo quando estamos cansadas ou desanimadas.
Nem tudo se decide num domingo à noite. Na manhã de segunda, vamos nos levantar. Não necessariamente porque fomos vitoriosos, mas pelo compromisso com o Brasil que desejamos construir e com a vida que queremos ver florescer. Das urnas até lá existe uma imensidão de dias comuns. E, em todos eles, quero estar alerta sem entregar ao perigo mais do que ele merece.
Elza chama isso de não sucumbir.
Os futuros exigem atenção e força. Sim, dá um trabalho danado. Ao trabalho, então.
