Ninguém fica rico sozinho

Quem não olha para a diversidade da população brasileira está deixando dinheiro na mesa e inovação do lado de fora da porta

Colagem com uma multidão em uma rua movimentada, campos verdes e uma figura de roupa preta com barras de ouro no lugar da cabeça.
créditos:magnific.com, MesquitaFMS, Mininyx Doodle via Getty Images

M.M. Izidoro 4 minutos de leitura
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Pensa numa floresta. Qualquer uma. Agora imagina essa floresta com uma espécie só de árvore, sem cipó, sem bromélia, sem fungo, sem passarinho. Não dá. Uma espécie só tem nome: monocultura. E monocultura precisa de veneno e de gente vigiando o tempo todo pra não morrer.

Nenhuma fauna tem um bicho só. Nenhuma região tem um tipo só de solo. A onça precisa da capivara, a capivara precisa do capim, o capim precisa da terra que foi adubada por todo o resto. Cada um depende dos outros pra ser o que é.

Com a gente é igual. Não dá pra ser rico sem que exista o pobre. Não dá pra vender sem ter quem compre. Todo sistema precisa da sua força igual e contrária. E quem acha que pode escolher uma parte do sistema e ignorar o resto está fazendo monocultura com a economia.

Agora olha pro tamanho do Brasil.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, somos 203,1 milhões de pessoas. Desse total, 112,7 milhões se declaram pretas ou pardas, 55,5% da população. São 92,1 milhões de pardos e 20,6 milhões de pretos. Se essa gente formasse um país, ele seria mais populoso que a Alemanha, a França ou o Reino Unido, que estão todos abaixo de 85 milhões de habitantes.

As mulheres são 104,5 milhões, 51,5% do país. Tem seis milhões de mulheres a mais que homens por aqui.

Então, quando uma empresa fala em "público geral" e pensa num homem branco de 35 anos morando em bairro nobre, ela está falando de uma minoria. A maioria do Brasil tem outra cara. E essa maioria tem dinheiro.

O Instituto Locomotiva, do Renato Meirelles, criou uma ideia que eu gosto muito, o Clube do Trilhão. São os grupos que, sozinhos, movimentam mais de R$ 1 trilhão por ano.

A população negra tem cerca de R$ 1,9 trilhão em renda própria por ano, pela estimativa de 2023. As mulheres, pela estimativa da época, também têm R$ 1,9 trilhão, o que dava 41% de todo o dinheiro que passa pela mão dos brasileiros. As pessoas com mais de 50 anos ficam perto de R$ 2,1 trilhões.

Tem mais. Segundo o mesmo instituto, a cada R$ 100 consumidos no Brasil, R$ 72 vêm de grupos minorizados: negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+. A tal da minoria é quem paga a maior parte da conta.

Aí vem o número que mais me incomoda. Numa pesquisa do Locomotiva com a Feira Preta, 72% dos consumidores negros dizem que as pessoas das propagandas são muito diferentes deles.

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Pensa nisso como dono de negócio. Seu cliente movimenta quase R$ 2 trilhões por ano e mais de sete em cada 10 dessas pessoas olham pro seu anúncio e não se reconhecem.

Em qualquer reunião de diretoria isso ia ganhar nome de falha de produto. Mas quando o assunto é raça, gênero, idade ou orientação sexual, vira "pauta de diversidade" e vai pro fim da agenda, depois do café.

Acho que é aí que a gente erra o enquadramento. Durante muito tempo, diversidade foi tratada como caridade. Coisa do RH, do relatório de sustentabilidade, da foto bonita em junho ou em novembro. E quando a economia aperta, é a primeira coisa que corta.

Nenhum país acelera a economia ignorando mais da metade da própria população.

Só que, se a gente não olha pra isso, não está só deixando de fora uma política ou um trabalho social. Está deixando dinheiro na mesa e inovação do lado de fora da porta.

Inovação nasce de problema e quem tem problema que ninguém resolveu é justamente quem ficou de fora. A mulher que sustenta a casa e precisa de um crédito que caiba no mês dela. O senhor de 60 anos que quer usar o aplicativo do banco e não consegue ler a letrinha. O casal gay que não sabe se vai ser bem tratado na loja de móveis. A menina preta que passou a adolescência procurando na farmácia uma base pro tom de pele dela e nunca achou.

Cada uma dessas pessoas é um mercado esperando alguém com coragem de olhar.

desigualdade de gênero
Créditos: GetFlashFiles/ FotografieLink/ iStock

E a monocultura cobra caro dentro da empresa também. Quando todo mundo tem a mesma cara, estudou na mesma faculdade e mora no mesmo bairro, a decisão sai com o mesmo ponto cego.

Ninguém na sala percebe o erro, porque ninguém na sala vive o erro. O produto chega na rua, não pega e a culpa vai pro consumidor, que "não entendeu a proposta".

Eu falo isso sem bandeira. Não importa se você está mais pra esquerda ou mais pra direita. Se o que te move é justiça social, o argumento está aí. Se o que te move é crescimento, lucro, PIB, o argumento também está aí, e com número do lado. Nenhum país acelera a economia ignorando mais da metade da própria população.

O Brasil é floresta. A gente insiste em administrar como se fosse um campo de soja, uma espécie só, bem alinhadinha, e depois estranha quando a terra cansa. A riqueza daqui sempre veio da mistura, do que nasce quando uma coisa encosta na outra.

Quem mexe com terra sabe que solo bom é solo cheio de vida diferente. Tem minhoca, tem folha caída, tem raiz de tudo quanto é planta segurando a água pra época da seca. Com mercado acontece a mesma coisa.

Da próxima vez que alguém na sua empresa chamar diversidade de custo, eu perguntaria quanto está custando deixar aqueles R$ 72 de cada R$ 100 para a concorrência.


SOBRE O AUTOR

M.M. Izidoro é apresentador, roteirista, diretor e estrategista criativo. Um contador de histórias obcecado por representar os muitos ... saiba mais