No apocalipse, cante: o que os festivais ainda podem nos ensinar

Os festivais de inovação tornaram-se cada vez mais parecidos entre si: repetitivos, previsíveis, autocentrados

mulheres com fantasias de baiana e prédios ao fundo
Créditos: FG Trade/ Windzepher/ Getty images

Cesar Paz 2 minutos de leitura

Frequento há muitos anos os principais festivais de publicidade e de inovação. Entre outros tantos, estive diversas vezes em Cannes e, por 10 anos consecutivos, no SXSW, em Austin.

Vi de perto o nascimento de tendências, a consagração de discursos e a transformação desses encontros em grandes palcos de validação simbólica.

Com o tempo, porém, algo ficou evidente: os festivais de inovação tornaram-se cada vez mais parecidos entre si; repetitivos, previsíveis, autocentrados. Hoje, confesso, eles já não me atravessam como antes.

Foi nesse deslocamento que passei a valorizar, com mais intensidade, os festivais de arte, de literatura e de música. Não porque sejam “menos estratégicos”, mas justamente porque são mais humanos.

Eles acessam camadas da experiência que os festivais de inovação, com toda sua retórica de futuro, já não conseguem tocar. São espaços onde a vida se apresenta como expressão simbólica da existência – não como pitch, não como tendência, mas como presença.

Nos últimos anos, me distanciando um pouco dos festivais de “inovação”, fui conhecer a Bienal de Veneza, a FLIP, em Paraty, e na semana passada vivi uma linda experiência em La Serena, uma pequena praia uruguaia.

Ali, participei do festival mais simples e, paradoxalmente, mais poderoso que já conheci. Sob uma cuidadosa liderança dos irmãos Drexler, o Festival de la Canción de la Serena é uma celebração da música e de seus encantos mais profundos.

Não há espetáculo inflado, nem a lógica da celebridade. Os espaços são tratados como sagrados. Os ritos, respeitados. Não existe tietagem. Não há disputa de vaidades.

O que existe é colaboração entre talentos latinos de diferentes lugares. Pessoas que se colocam a serviço da arte, da música e do encontro. Tudo ali parece lembrar algo que esquecemos nos grandes festivais globais: a cultura não é um produto, é um pacto. Um acordo sensível entre corpos, sons, silêncios e escutas.

O que mais me emociona nesses festivais é justamente o que falta nos outros: transcendência sem discurso, profundidade sem palco, sentido sem urgência. Eles não prometem o futuro – eles nos devolvem ao presente.


SOBRE O AUTOR

Cesar Paz é empreendedor serial, fundador do Ecosys, engenheiro e mestre em design estratégico. Também é cidadão emérito de Porto Aleg... saiba mais