Quando contei para o meu pai que havia sido convidada para ser colunista da Fast Company Brasil, ele rebateu: “talvez no Brasil eles deveriam chamar a publicação de ‘Not So Fast Company’.” Piada típica de pai e que até tem nome nos EUA, “dad joke.” Tentei segurar o riso e revirei os olhos, mas entendi o que ele quis dizer.

No Brasil, é comum reclamar sobre como tudo é burocrático, complicado e devagar. E é por isso que, em parte, decidi trocar São Paulo pelos EUA aos 18 – a montanha parecia baixa e eu queria escalar mais alto, mais rápido.

Depois de anos escalando, caindo e me levantando de novo nos EUA, fui contratada pelo Tumblr em 2012 para expandir a plataforma na América Latina. Foi um grande desafio para mim, na época com meus 25 anos, recém-formada em filosofia e fazendo acontecer do meu quarto de infância. Tive a oportunidade de trabalhar para uma verdadeira ‘fast company’ – uma startup. Zero burocracias, poucos sistemas e muito caos, mas no caos ganhamos tração.

Apesar das adversidades, sem nenhuma orientação em um país em que deadlines eram meras sugestões, encontrei o papel no qual mais me encaixo: desvendar as coisas sem manual num ambiente em que a agilidade extrema é recompensada. Nas startups de tecnologia, existem três características cobiçadas pelos fundadores: resiliência, habilidade de se adaptar rapidamente, e capacidade de fazer muito com pouco. No Brasil, chamamos isso de cara de pau, jogo de cintura e tirar leite de pedra. Foi um prazer ter a ginga necessária para ajudar empresas gringas a crescer na região, mas uma tristeza tentar gerar mudanças através das “autoridades,” como quando conversei com uma representante do Ministério da Educação sobre a implementação do Duolingo nas escolas públicas. Conseguimos parceria com ministérios na Colômbia, no México e até com o New York Department of Education, mas no Brasil fui direcionada a um documento em PDF com centenas de “sites de educação”, considerados por eles como recursos suficientes para os professores do nosso país.

Para fundadores de empresas, um dos recursos mais desejados é uma grande dor. No Brasil, temos problemas invisíveis aos olhos dos desenvolvedores bem pagos em Palo Alto; problemas que centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo vivenciam, como pobreza, violência, corrupção e acesso a recursos considerados “básicos” no primeiro mundo.

Nunca tivemos tanto apetite para resolver os problemas enfrentados pelo nosso país e por outras nações em desenvolvimento, o talento certo para executar, a tecnologia para potencializar e o venture capital em expansão para dar suporte.

Então, por que o Brasil não é um hub de startups de tecnologia por natureza?  Por difícil que seja perceber em meio à recessão e aos escândalos de corrupção, 2020 foi um ano histórico para o país em termos de IPOs, com 28 empresas debutantes. Temos hoje um dos maiores bancos digitais do mundo, estamos em terceiro lugar no ranking de unicórnios (atrás dos EUA e da China, e ao lado da Alemanha) e hospedamos mais de 150 milhões de usuários de internet (duas vezes a população da Alemanha). O interesse de investidores internacionais cresce de forma consistente com a combinação entre sucessos recentes, moeda local enfraquecida e a nova tendência de escolher investimentos pelo Zoom em vez de reuniões presenciais. O Softbank foi pioneiro ao alocar US$ 5 bilhões na América Latina, mas podemos esperar muitos outros na sequência, mesmo que em escalas menores. O ecossistema local também está se tornando mais próspero à medida que funcionários de empresas que fizeram IPO investem na próxima leva de startups, e novos fundos emergem.

E, por fim, grandes talentos estão voltando depois de temporadas de estudos nas melhores universidades americanas e de trabalho nas principais empresas de tecnologia – agora, a montanha parece muito mais alta aqui. Considerando que a imigração para os EUA se torna cada vez mais desafiadora, talvez consigamos reter ainda mais dos nossos jovens ambiciosos.

Talvez já esteja na hora de rotular com orgulho produtos como “fabricados no Brasil”, como escreveu Neil DeGrasse Tyson na carta que endereçou ao Brasil no ano passado, fazendo uma referência ao poderio aeroespacial, agrícola e de biocombustível do país.

Nunca tivemos tanto apetite para resolver os problemas enfrentados pelo nosso país e por outras nações em desenvolvimento, o talento certo para executar, a tecnologia para potencializar e o venture capital em expansão para dar suporte.

David Vélez, fundador do Nubank, disse, em palestra recente na minha empresa, a Latitud, que “tudo é mais difícil em lugares como o Brasil. Você pode reclamar disso ou construir empresas de um bilhão de dólares para resolver esses problemas”. No caso dele, uma empresa de US$ 25 bilhões.

Adoraria que o governo provasse sua competência em resolver muitos desses problemas, já que pagamos impostos, mas minha aposta está na próxima geração de empreendedores de tecnologia.

Vamo que vamo, fast companies.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Gina Gotthilf é empreendedora e cofundadora da Latitud.com