No início da quarentena, tive o grande privilégio de passar três meses confinada em uma praia muito bonita lá em Pernambuco. Durante esses 90 dias, aproveitei pra suspender quase todos os meus anúncios (os famosos #publi) e mergulhei em uma agenda de Lives que falava sobre tudo e parava sempre no mesmo ponto: como vai ser esse mundo “pós-pandemia?”.

Uma grande incógnita, cheia de “serás” e que considerou (diria até, fantasiou) muitas possibilidades: “O consumidor vai mudar totalmente, só vai comprar marcas sustentáveis”; “Iremos usar moletom pra sempre, adeus salto”; “Pugliesi nunca mais fará um publi na vida” e, mais recentemente, “O fim dos influencers está chegando”.

Vejam bem: claro que nós estamos muito mais espertos sobre as marcas que consumimos, óbvio que eu amei passar meses fazendo reunião/live e festa de zoom com o mesmo look e ninguém pode negar que Pugli viveu maus bocados em 2020. Mas, assim, vamos todo mundo combinar que, mesmo depois da primeira temporada dessa distopia eterna (que ainda parece estar bem longe da season finale), o mundo tá bem parecidinho com como deixamos antes do Covid-19 baixar por aqui.

A internet tem um enorme poder transformador, sim, mas também funciona como um grande espelho refletindo o que o ser humano já é, e servindo como ferramenta para traduzir o nosso comportamento em dados.

E quando começo a escutar esse papo que anda rondando tanto o mercado de marketing sobre “o fim da influência”, lembro muito de quando comecei há quase 15 anos e TODO MUNDO me perguntava com uma pitada de deboche: “Garotas estúpidas, por que, hein? Você só fala de coisas fúteis?”. Eu era realmente bem ácida e, provavelmente, seria cancelada por muita coisa já publicada lá (por essas e outras apaguei 100% do meu Twitter, porque não sou a mesma pessoa que começou a digitar 140 caracteres em 2007). Mas sempre encarei a expressão “futilidade” como um conceito completamente relativo e que só poderia ser definido em primeira pessoa. Afinal, o que é fútil para você, pode ter muita utilidade pra mim, mesmo que com a conotação de puro lazer.

A meu ver, é um pouco delicado se colocar como juiz do interesse alheio. Tenho escutado especialistas, e até amigos bem próximos, definindo como “conteúdo” apenas os posts que lhe agradam, quando, na verdade, estão simplesmente reforçando em voz alta seus gostos pessoais nesse oceano de preferências e realidades completamente diferentes e espantosamente coexistentes que é a internet. Quando fazemos esse tipo de comentário, estamos criticando a realidade ou apenas reforçando as camadas da nossa própria bolha social?

Não estou aqui dizendo que concordo com 100% das publicações que recebo, até porque faço questão de seguir perfis com pontos de vista diferentes dos meus pela grande vantagem que é ter acesso diversidade de opiniões e não apenas seguir o fluxo do algoritmo — que perigo, hein?! Por outro lado, certos tipos de comportamento por mim considerados inadmissíveis (digo “por mim”, porque até os absurdos são relativos em um mundo polarizado), somem da minha vida através de um simples UNFOLLOW em segundos.

A tal “nova influência” é sobre coexistir e respeitar as preferências do outro, mesmo que não sejam nem de perto as suas.

Não é sobre o que as pessoas postam, é sobre o que VOCÊ segue. A internet tem um enorme poder transformador, sim, mas também funciona como um grande espelho refletindo o que o ser humano já é, e servindo como ferramenta para traduzir o nosso comportamento em dados, que reunidos e cruzados, se transformam no tal algoritmo… Basicamente, quem manda no seu feed — um grande robô invisível, treinado com precisão por alguém bem familiar: nós e nossas próprias preferências. Não podemos cair na tentação de confundir a realidade do mundo com a nossa realidade particular. São perspectivas bem diferentes…

Não façamos uma análise rasa dos valores e inteligência de alguém pelo nível de intelectualidade do conteúdo que ela posta em suas redes sociais. O primeiro passo para essa evolução social, através do acesso à informação que tanto buscamos, é justamente o entendimento de que esse ambiente reflete pluralidade de opiniões e circunstâncias em que nascemos e vivemos – principalmente em um país com proporção continental como o Brasil, em que as pessoas se encontram em níveis tão diferentes de conhecimento sobre certos conceitos que para alguns, poucos, já parecem tão óbvios.

E, mais do que isso, é preciso considerar a própria pluralidade individual de cada um. Eu, por exemplo, sou uma pessoa de interesses diversos, sigo de Ronaldo Lemos a Rainha Matos e posto de papo cabeça a foto de biquíni fio dental, passando por “como fazer uma panqueca de banana fit”, tudo isso sem medo de ser feliz. Isso deveria me excluir da conversa?

Marcas e seguidores devem, SIM, prestar atenção no nível de credibilidade de seus embaixadores e ídolos e fazer escolhas sobre onde gastar seu tempo e dinheiro baseados em seu histórico e reputação, construída a partir da responsabilidade ética das suas ações e não no teor de seu conteúdo. Isso se chama gosto pessoal.

Certos tipos de comportamento por mim considerados inadmissíveis somem da minha vida através de um simples UNFOLLOW.

Na minha opinião, a tal “nova influência” é sobre coexistir e respeitar as preferências do outro, mesmo que não sejam nem de perto as suas. Sobre ter interesse em universos diferentes do seu, se manter curioso e sensível ao seu redor, sempre. Construir pontes para diminuir o abismo da polarização, não derrubá-las. Já que, no final do dia, quando voltamos ao marco zero de tudo isso em 2011, o objetivo do primeiro login não era “conectar pessoas”? Pois quando um canal tão potente como Instagram ganha tamanha abrangência, é quase ingênuo imaginar que vamos apenas falar e não ouvir.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Camila Coutinho é produtora de conteúdo, fundadora da plataforma Garotas Estúpidas e da Ge Beauty