O Brasil é um arquipélago. A Copa é uma das pontes

A camisa amarela está sendo retomada por gente de todo lado, como quem desbloqueia uma palavra que não era de mais ninguém

futebol é componente essencial do soft power brasileiro
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M.M. Izidoro 3 minutos de leitura

Eu não gosto de futebol. Confesso quase como quem confessa uma alergia inconveniente. Explico, peço desculpa, sigo a vida.

Mas adoro ir para estádio em Copa do Mundo. Já fui a três. E posso dizer o que me leva: ali, ao vivo, acontece uma tecnologia que nenhuma outra coisa neste país sabe operar com a mesma precisão. Uma tecnologia de conexão.

Os 4Fs chegam todos juntos. Festa, família, fofoca e fé, no mesmo lugar, dentro da mesma camisa. É raro.

Pergunto: que outro país do mundo para pra ver Copa do jeito que o Brasil para? Que outro país tem prefeito decretando ponto facultativo, escola adiando prova, banco mudando horário, tudo por causa de 90 minutos? São Paulo e Fortaleza decretam feriado oficial. 

O Brasil é uma nação que dá folga pra torcer.

Não é acaso. É construção, do jeito que Coreia, China e Estados Unidos construíram soft power: porque alguém decidiu construir.

Em 1930, Getúlio Vargas chega ao poder e encontra um país rachado. Pensa pão e circo, profissionaliza o futebol em 1933 e, na Copa de 38, decreta feriado nacional e manda instalar alto-falantes em praças públicas Brasil afora pra que estranhos pudessem ouvir, juntos, a transmissão de rádio da seleção lá da França.

Foi possivelmente a primeira vez que o Brasil torceu como Brasil. Na esteira de intelectuais como Mário Filho e Gilberto Freyre, Vargas embalou aquilo na ideia de que somos o país do futebol e do carnaval. Não porque éramos, mas porque precisávamos ser.

A seleção é uma das poucas marcas que o Brasil exportou sem precisar traduzir.

A ditadura militar fez o segundo movimento. "Pra Frente Brasil", canção vencedora de um concurso patrocinado por Esso, Souza Cruz e Gillette, foi adotada pelo regime como hino do tricampeonato.

O presidente Médici levantou a taça em 70 enquanto se torturava nos porões. "Ninguém segura este país" virou slogan oficial. Foi quando aprendemos, dolorosamente, que a Copa também pode ser usada.

Talvez por isso a gente foi perdendo o jeito. A camisa virou disputa política. O verde-amarelo foi cooptado e, por anos, quem amava a seleção teve vergonha de vestir. O fio se afrouxou.

Mas isso é um movimento que está acontecendo aqui dentro. Porque lá fora, ele segue intenso.

soft power brasileiro no mundo
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Em Tóquio, em Lagos, no interior do Marrocos, gente que nunca pisou aqui veste a camisa amarela como quem se filia a uma ideia. A seleção é uma das poucas marcas que o Brasil exportou sem precisar traduzir. Soft power que não custou propaganda, custou bola na rede.

Construímos uma das marcas mais fortes do planeta sem saber que estávamos fazendo isso. Mexemos no coração de milhões de pessoas a cada drible e movimentamos afetos a cada levantada de taça.

Ouso dizer que a camisa amarela da seleção é uma das grandes marcas do planeta, ao lado da garrafa da Coca-Cola e dos arcos dourados do McDonald's. Em todo lugar, menos aqui. Estrangeiros torcem por nós com a leveza que a gente perdeu. Lá, segue afeto. Aqui, virou farpa.

Em 2026, depois de 24 anos sem Copa – os mesmos 24 anos que separaram o tri do tetra em 94 –, esse fio quer voltar.

Leia mais: Brasil é maior potência de soft power do mundo. Por que não nos vemos assim?

Marqueteiros notaram. Bairro voltou a pintar rua. A camisa amarela está sendo retomada por gente de todo lado, como quem desbloqueia uma palavra que não era de mais ninguém. A história não se repete, mas rima. E tem rimas demais empilhadas pra 2026 ser só mais uma Copa.

Porque o Brasil é, culturalmente, um arquipélago. Há mais distância entre uma cidade do interior do Maranhão e um bairro paulistano do que entre Portugal e a Suécia. A gente não se vê como uma coisa só. Só raramente. E a Copa é uma dessas raridades.

Vargas chegou num país rachado e escolheu nos juntar com uma bola. Quase um século depois, voltamos a um país rachado.

Talvez não nessa Copa, talvez na próxima, mas em algum momento a gente vai ter que escolher de novo: ou seguimos sendo o país do futebol ou viramos o país de qualquer outra coisa. Eu não gosto de futebol. Mas confesso: torço pelo primeiro.


SOBRE O AUTOR

M.M. Izidoro é apresentador, roteirista, diretor e estrategista criativo. Um contador de histórias obcecado por representar os muitos ... saiba mais