O Brasil mandou um recado para o mundo

E para as empresas também #DoFeedPraVida

Créditos: Orhan Turan/ Getty Images/ Magnific

Hóttmar Loch 4 minutos de leitura
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A vitória de Lula neste domingo (25de outubro) interrompeu uma sequência de sete vitórias presidenciais conservadoras na América Latina e manteve o Brasil numa posição de maior autonomia em um mundo disputado por diferentes polos de poder.

A Associated Press leu o resultado como um freio à guinada regional à direita e à ampliação da influência de Donald Trump sobre a maior economia latino-americana.

Isso não significa que uma tendência global tenha sido revertida. A direita continua social e institucionalmente forte. O que me interessa é outro sinal: o Brasil reafirma que não quer aceitar naturalmente o papel de coadjuvante nem viver à sombra de outra potência.

Em um mundo reorganizado pela disputa entre Estados Unidos e China, pela emergência climática e pelo fortalecimento do Sul Global, existe uma diferença enorme entre reagir às agendas dos outros e participar da construção delas.

Há ainda outro recado brasileiro para o mundo, menos geopolítico e mais conectado à forma como as pessoas se organizam hoje: a potência da capacidade coletiva.

DA ATENÇÃO À MOBILIZAÇÃO

Passamos os últimos anos obcecados pela economia da atenção. Alcance, seguidores, engajamento, algoritmo. Só que atenção, sozinha, não faz muita coisa. É possível acumular milhões de visualizações sem conseguir fazer alguém participar, se comprometer ou mudar um comportamento.

O segundo turno da eleição é interessante porque as redes deixaram de funcionar apenas como canais de comunicação e passaram a operar também como infraestrutura de mobilização. O canal “Exército do Lula”, criado por André Janones no WhatsApp, chegou a cerca de 10,8 milhões de seguidores.

Mais interessante do que o tamanho era a dinâmica: havia conteúdo, mas também missões, convites para trazer novas pessoas e tarefas para fazer mensagens circularem. O digital se conectava ao que acontecia fora das telas.

O canal não explica sozinho uma eleição. O que vale observar é a lógica. Audiência é um conjunto de pessoas olhando para alguma coisa. Comunidade começa quando essas pessoas percebem que também têm um papel no que está acontecendo.

Ela cria linguagem comum, pertencimento e confiança. A mensagem deixa de depender exclusivamente de quem a criou e passa a circular por relações que já existiam.

DO FEED PARA A VIDA

É esse movimento que tenho chamado de levar o feed para a vida. Penso muito numa frase da Mafoane Odara: “ter esperança significa acreditar na nossa capacidade coletiva de enfrentar os problemas e agir para transformar a realidade.” Gosto dela porque esperança, nesse sentido, deixa de ser espera e passa a ser ação coletiva.

Isso conversa diretamente com algo que atravessa meu trabalho: cultura precisa virar experiência, e experiência precisa virar comportamento. Uma narrativa ganha força quando as pessoas encontram um lugar dentro dela, interpretam a partir da própria realidade e fazem alguma coisa com aquilo.

QUANDO COLABORADORES VIRAM CREATORS

É aí que essa história deixa de interessar apenas à política e passa a dizer bastante sobre as empresas.

Durante muito tempo, marcas pensaram influência olhando para fora: quais creators contratar, quais canais usar, quais públicos alcançar. Agora existe uma frente relevante olhando para dentro.

Employee advocacy é o nome dado às estratégias em que colaboradores se tornam embaixadores da marca em suas próprias redes. Quando eles mesmos produzem esses conteúdos, entra outra expressão: employee-generated content, ou EGC.

Essa frente cresce no Brasil, mas ainda tem espaço. Carolina Terra, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/ USP), vem estudando os “funcionários influencers” e seu papel na credibilidade das organizações.

Em um benchmark da DSMN8 com empresas brasileiras, a média de profissionais ativos compartilhando conteúdo nas redes era de 9,76% em abril de 2025 – acima do levantamento anterior, mas ainda pequena diante da quantidade de relações existentes dentro de uma organização.

Existe, porém, uma armadilha. Employee advocacy não pode virar mais uma maneira de usar colaboradores como mídia gratuita. Quando uma empresa entrega a mesma legenda para 100 pessoas publicarem, não construiu uma rede. Criou 100 outdoors.

Creators precisam de protagonismo para interpretar e traduzir uma mensagem no formato, na linguagem e no repertório que suas próprias redes já reconhecem.

Um engenheiro consegue explicar tecnologia de um lugar que uma campanha institucional dificilmente alcança. Quem vive a cultura todos os dias consegue descrevê-la de um jeito que nenhum manifesto corporativo reproduz.

QUANDO A EXPERIÊNCIA VIRA COMPORTAMENTO

As empresas também precisam olhar para além do organograma. Sobre a estrutura oficial existe outra organização, menos visível: quem escuta quem, quem confia em quem e quem consegue mobilizar quem.

O Edelman Trust Barometer 2026 mostra que 72% dos brasileiros hesitam ou estão pouco dispostos a confiar em pessoas diferentes deles. Ao mesmo tempo, os empregadores aparecem como a instituição mais bem posicionada no país para ajudar a construir pontes de confiança.

Diante disso, faz menos sentido perseguir uma voz corporativa única e mais sentido criar condições para que muitas pessoas reais possam participar.

Alcance espalha uma mensagem. Comunidade transforma atenção em ação coletiva. Experiência dá forma à participação. E é na participação que cultura começa a virar comportamento.

Talvez a pergunta agora seja menos sobre como ocupar o feed e mais sobre como fazer o que nasce nele ocupar espaço na vida.


SOBRE O AUTOR

Hótt é cofundador e diretor da Nohs Somos, consultoria especializada em cultura organizacional, diversidade e inovação. Reconhecido pe... saiba mais