O céu da língua e outras palavras, com Gregório Duvivier
Nesta entrevista, refletimos juntos sobre o mundo a partir da poesia, da palavra, e sobre como nos transformamos à medida que nos tornamos adultos

Completados um ano desde que esta coluna foi ao ar, decidi que era a hora de ampliar a conversa. Convidar pessoas que pudessem trazer suas ideias para complementar e refletir sobre o que já venho escrevendo e pensando nesse último ano por aqui.
O convidado da vez é Gregório Duvivier, ator, humorista, roteirista e escritor. Um convite que surgiu após a minha ida ao teatro para assistir o “O Céu da Língua”, com direção de Luciana Paes e que já ultrapassou mais de 250 mil espectadores.
A peça convergiu em muitos aspectos com um tema que trabalho há pouco mais de um ano e que tem como premissa provocar reflexões a partir da pergunta “o que você deixou de ser quando cresceu?”. Saí da peça em êxtase, maravilhado, feliz e cheio de boas ideias. Então, fui atrás do Gregório.
Nesta entrevista, refletimos juntos sobre o mundo a partir da poesia, da palavra, e sobre como nos transformamos à medida que crescemos e somos impactados por tudo que nos cerca.
Desde já quero agradecer ao Gregório pela entrevista, e dedico a ele a palavra cuidadoso, pois foi assim que ele me recebeu para esse papo.
Vem papear com a gente!
Genesson Honorato – A gente vive um tempo em que novas palavras surgem o tempo todo, muitas vindas da tecnologia. Você sente que isso expande o mundo ou empobrece a forma como nos relacionamos com ele?
Gregório Duvivier – Acho que a língua se beneficia muito das novidades, de modo geral. A língua é viva. E uma língua, para não morrer, precisa caminhar, precisa mudar. Acho que essa é a beleza da língua, de modo geral, são suas contaminações.
A nossa língua teve todo tipo de “contaminação”. O português nasce dessa contaminação do latim com línguas bárbaras e também com a língua árabe, que era muito falada na Península Ibérica. Daí nasce o galego, que vai se transformando no português. Então já nasce como um amálgama de línguas.
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Depois ele vira uma grande salada junto com o quimbundo, as línguas do ramo bantu, o tupi-guarani. Na verdade, nem é salada, é uma sopa mesmo. Às vezes é até difícil saber o que veio de qual lugar.
Dito isso, acho bonito que as palavras novas da tecnologia venham do inglês. Isso só engrandece a nossa língua.
Claro que de vez em quando tem um exagero, porque a pessoa, às vezes, está usando uma palavra estrangeira que não precisa, sabendo que a gente tem uma palavra muito boa na nossa língua. Mas, de modo geral, vejo com bons olhos os acréscimos da língua.
Genesson Honorato – Quando você fala sobre a sua filha falar “papato”, para se referir ao “sapato", você fala do desejo de proteger aquele modo tão bonito, mas que se vê como um erro. Você acha que crescer, em alguma medida, é aprender a abrir mão das sutilezas e das belezas espontâneas? Aproveitando que isso conversa diretamente com a minha pesquisa, te pergunto, “o que você deixou de ser quando cresceu?” Olhando para o que pode ter ficado para trás e que hoje resgatar seria importante para você.
Gregório Duvivier – Adorei essa formulação – o que você deixou de ser quando cresceu. Acho que esse é o objetivo final da peça, e o objetivo primeiro dela também, é lembrar que a poesia é natural para uma criança.
Toda criança é poeta, porque ela tem uma relação com a língua que é sempre criativa. É uma relação que inventa palavras. Toda criança inventa palavras querendo ou sem querer, e toda criança conjuga verbos de uma maneira inédita, brinca com o som das palavras, muda a morfologia delas, a sintaxe.
As crianças têm uma relação com a palavra que é poética e a gente vai perdendo isso por vergonha, porque a sociedade nos diz que é errado.A gente vai deixando de ser poeta e tendo uma relação com as palavras que é mais utilitária. Passamos a usá-las de uma maneira só e brigar com quem as usa de outra maneira.

Essa peça tem como objetivo fazer com que as pessoas lembrem que elas já foram poetas antes de crescerem. Mas elas podem voltar a ser. A poesia está ao alcance da nossa língua. Podemos voltar a ser poetas, é de graça. Experimentar com as palavras é de graça, então a poesia é o hobby mais barato que tem.
A poesia está ao alcance da nossa língua e a gente esquece disso. O mundo e a sua pressa nos obrigam a ter uma relação mais prática com as palavras, e a poesia precisa de um certo tempo, de contemplação. Ela é supérflua.
O mundo atual não tem muito tempo para ela, o que é uma pena, porque é uma das coisas mais divertidas que tem. As crianças sabem disso, a gente só esqueceu. Então a peça também é esse convite à infância, à relação inaugural que a gente teve com a língua, que é uma relação experimental e lúdica.
Genesson Honorato – Você diz na peça que as palavras lançam coisas no mundo, e aí você traz a música “Livros”, onde Caetano diz: “a frase, o conceito, o enredo, o verso, é o que pode lançar mundos no mundo”. No mundo da distração, onde estamos tão "infotoxicados", o que você entende que estamos "lançando no mundo"? É a renovação da torre de babel?
Gregório Duvivier – Hoje em dia estamos lançando coisas demais no mundo. Tenho saudades de um tempo em que a gente consumia menos – não só produtos, mas também informação. E esse é o problema da poesia hoje. A poesia tem que competir com uma quantidade gigantesca de imagens, de sons, de tudo.
A poesia precisa de um certo silêncio, sabe? Ao contrário de outras artes que convivem um pouco melhor com o barulho, com a música, com o tempo, a poesia precisa de um certo silêncio. Acho que é por isso que ela se perde, às vezes, nesse mundo "infotoxicado".
A poesia está ao alcance da nossa língua. Podemos voltar a ser poetas, é de graça. É o hobby mais barato que tem.
Estamos muito afogados em informações de todo tipo e a poesia não sobrevive nesse ecossistema. Por isso que a peça começa como uma brincadeira, que é a poesia chata. Depois ela vai, aos poucos, enfiando poesia na peça e termina com um grande elogio à música do Caetano, que você citou. Enfim, ela começa mais cômica e termina mais poética.
É um pouco por causa disso, porque o humor é uma boa porta de entrada para ir amaciando o espectador e fazendo com que a poesia encontre o seu espaço.
E o que estamos lançando no mundo? É isso que eu me pergunto. Tento lançar um pouco de poesia, senão a gente só lança lixo. Lixo literal mesmo, de plástico, mas também lixo verbal. Que são aquelas palavras que a gente nem precisava dizer, mas diz.
É a função fática da linguagem, que é o que a gente mais faz. Falar, falar, falar, falar o que dá na telha, sem pensar muito sobre isso.
Genesson Honorato – Um dos insights da minha pesquisa é que deixamos de estar inteirados e passamos a estar “intelados”, perdidos em um labirinto de reflexos pensando saber muito, mas empilhando saberes vagos e sem profundidade. Você acha que isso está reduzindo o nosso imaginário e intuição, tornando as relações frágeis, efêmeras e disformes?
Gregório Duvivier – Sim, acho que a tela é um grande inimigo da introspecção, mas também da conexão. Nossa relação primordial com o mundo hoje passa por uma tela, seja o consumo da informação, seja nas relações afetivas, a gente se comunica com as pessoas através de uma tela.
A tela é uma mediação muito ruim para a conexão. Ela atrapalha a conexão, porque é dispersiva. Você vai entrar para escrever uma mensagem para a pessoa de quem você gosta, de repente viu que tem outra pessoa que mandou uma mensagem, vai ler e já não caprichou naquilo que ia dizer, já esqueceu o que ia dizer.

A tela te obriga a manter relações supérfluas, porque ela não te dá o tempo de se aprofundar. Isso é muito grave para as relações afetivas, mas também para as relações políticas. Temos um universo político da tela que é muito "despolitizante".
O sujeito político passou a ser um perfil. Isso é muito ruim, porque o perfil é mais narcisista, ele é mais auto-importante, é menos conectado. É uma pena e a estamos vendo consequências disso na nossa vida social.
Genesson Honorato – Tem alguma palavra que fala diretamente com o Gregório criança e que, se você pudesse, resgataria?
Gregório Duvivier – Uma palavra que eu gosto muito é capricho. Coisa bem brasileira, né? Essa ideia de que caprichar é fazer uma coisa com carinho, com esmero. Não tem muita tradução em outras línguas o nosso capricho. Como verbo – caprichar. Acho lindo e define muito o brasileiro. Falamos que o Brasil é a cultura do jeitinho, mas é também a cultura do capricho.
Tem também, claro, o cafuné. Não à toa a maioria das nossas palavras para expressar carinho vêm do quimbundo. São palavras africanas: dengo, xodó, cafuné. Palavras que não tinha no português lusitano, foram acrescentadas.
Gosto também da palavra cochilo, que me lembra um pouco a infância: "cochilei". Tem ainda uma que a gente perdeu e que eu gosto, que são as malandragens, uma coisa bem brasileira. Inclusive a dicotomia da malandragem, porque ela é boa, mas é ruim também.
Nossa relação primordial com o mundo hoje passa por uma tela. E a tela é uma mediação muito ruim para a conexão.
O malandro pode ser bom, mas pode ser ruim. Ele é um pilantra, por um lado; por outro lado, não. O malandro, pra valer, como diz Chico Buarque, aposentou a navalha.
"Mas o malandro pra valer, não espalha, aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal” ["Homenagem ao Malandro", de Chico Buarque de Holanda]. Tem uma malandragem do afeto, de entender o que é bom na vida, que é bem brasileira.
Estava lembrando aqui de umas palavras que a gente usava em brincadeiras. Algumas são só cariocas, como “tô de autos”. Em Portugal, autos é coito – olha que estranho, as crianças gritam isso na praça. Coito, coito! E autos é "não pode me pegar".
Zé Pereira eu amo também, que só a gente tem. “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar." Em São Paulo não cantam essa parte do Zé Pereira, que é central na cultura brasileira. Você que é do carnaval sabe, né? Então Zé Pereira é outra palavra que me faz sorrir. É uma folia, a farra.
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Farra também é uma palavra preferida. Sabe que farra vem do árabe? Farra é alegria, em árabe. E também é nome de mulher, Farah. É um nome muito comum, como Maria aqui no Brasil. Amo a farra, palavra que só traz coisas boas, só traz lembranças boas.
Genesson Honorato – E o que o Gregório deixou de ser quando cresceu?
Gregório Duvivier – Deixei de ser poeta, mas depois voltei a ser. Deixei também de ser o “Guególio” porque não sabia falar o meu nome. Deixei de ser tímido também, e graças à palhaçaria, virei palhaço para deixar de ser tímido.
É isso meu amigo. Meu companheiro de farra!
Bom, espero que esse papo tenha inspirado você a pensar sobre si e sobre as coisas do mundo.
Que a gente possa ir em busca, também, de outras palavras.
Até a próxima.
