O conhecimento ancestral como motor da inovação


Claudia Penteado 5 minutos de leitura

Quando os primeiros portugueses chegaram a São Paulo, no século 16 (os jesuítas oficialmente em 1554, mas sabemos que já havia europeus aqui antes disso, como João Ramalho), encontraram assentamentos indígenas num local que hoje é conhecido como colina histórica. Sim, colina, porque os antigos ocupantes do território, baseados em seus conhecimentos ancestrais, sabiam que as áreas mais altas eram as mais seguras para viver, já que os cursos d’água (centenas de rios, riachos, córregos e outros fios d’água), muito importantes para o abastecimento, a irrigação e a navegação, também representavam um risco, pois se expandiam na época das chuvas e alagavam extensas áreas de várzeas.

Por isso, os indígenas construíam suas acomodações nas áreas altas. Os primeiros europeus seguiram o mesmo caminho e os documentos históricos trazem registros de grande fertilidade agrícola na região, servindo como abastecimento para as entradas dentro do território, mas não há relatos de destruição por alagamentos.

“Hoje, estima-se que existam entre 300 e 500 rios debaixo do asfalto em São Paulo, que na época da chuva invadem ruas, lojas, garagens de prédios e às vezes paralisam a cidade.”

Quase quatro séculos depois, quando São Paulo ostentava orgulhosa o título de cidade que mais crescia no mundo, o engenheiro Prestes Maia, diretor de obras públicas e depois prefeito, achou que podia desafiar a natureza. O plano de Prestes Maia, que ganhou prêmios e até hoje é defendido por alguns urbanistas, também aproveitava a geografia, mas invertendo a lógica: enquanto os indígenas usavam a natureza a seu favor, respeitando o ciclo das águas, Maia usou a topografia da cidade para abrir avenidas justamente no fundos dos vales, cimentando o local natural dos leitos dos rios. Assim nasceu, na década de 1930, o conhecido Plano de Avenidas. E desta forma morreram vários rios que cortavam a capital, substituídos por alagamentos nas épocas chuvosas. Hoje, estima-se que existam entre 300 e 500 rios debaixo do asfalto em São Paulo, que na época da chuva invadem ruas, lojas, garagens de prédios e às vezes paralisam a cidade.

No auge do rodoviarismo, quando a indústria automobilística era vista como um grande avanço à industrialização do país, essa era a visão dominante. Mas não a única. Já nos anos 1930, outro engenheiro, Francisco Saturnino de Brito, defendia uma convivência mais harmoniosa com a natureza, como está contado no excelente documentário Entre Rios. O plano de urbanização de Saturnino de Brito previa um parque ao redor do Rio Tietê, para contenção das águas. Foi vencido.

INOVAÇÃO E ANCESTRALIDADE 

O que surpreende é que, quase um século depois, os mesmos erros continuam sendo cometidos. O urbanismo não pode ignorar o meio ambiente. O conhecimento adquirido nas últimas décadas já não nos permite olhar com inocência para os desastres ambientais que estamos provocando.

“O urbanismo não pode ignorar o meio ambiente. O conhecimento adquirido nas últimas décadas já não nos permite olhar com inocência para os desastres ambientais que estamos provocando.”

Já temos, em algumas cidades brasileiras, sistemas de detecção de chuvas intensas e riscos de deslizamentos e alertas para avisar a população a deixar determinadas localidades. Mas é pouco. Remoções temporárias não evitam que as pessoas percam tudo o que têm. O que precisamos é evitar que novos moradores se instalem em áreas de risco.

Nos últimos anos, as áreas de risco vêm se ampliando. O clima do planeta está mudando e nem os negacionistas podem ignorar esse fato. Basta olhar as estatísticas. Os eventos extremos vêm se tornando mais frequentes e provocando estragos cada vez maiores, como se viu nas enchentes recentes que deixaram milhares de desabrigados na Bahia, Minas Gerais, Tocantins e outros estados.

Além de mudar o regime de chuvas, o aquecimento global vem provocando a elevação do nível do mar, um fato particularmente preocupante num país com um litoral do tamanho do nosso, onde boa parte da população vive nas áreas costeiras. Um estudo do Climate Central, organização que estuda as consequências das mudanças climáticas, mostra que, se a temperatura da Terra aumentar 1,5 grau Celsius em relação ao nível pré-industrial, parte do centro de Salvador ficaria sob as águas. Se o aumento for de 3 graus, toda a área do Mercado Modelo seria alagada. No Rio de Janeiro, o aumento de 3 graus deixaria todo o bairro de Botafogo debaixo d ‘água. Não é um cenário muito distante, considerando que em 2020 o aumento já era de 1,2 grau.

“Inovação, no século 21, é criar cidades sustentáveis e mais amigáveis para as pessoas. Espaços agradáveis, seguros, potencializando e não destruindo os recursos naturais. Mais ou menos como faziam os habitantes originários do nosso país.” 

Apesar disso, projetos habitacionais e comerciais continuam sendo construídos em áreas costeiras sem considerar essas projeções para o nível do mar nas próximas décadas. Em São Paulo, conjuntos habitacionais são construídos às margens de represas, facilitando a poluição das águas.

Tecnologias verdes que permitem mitigar estragos já existentes ou criam modos diferentes de pensar a vida nas cidades já existem. Em larga escala, como mudança da matriz energética para fontes renováveis e não poluentes, ou em pequena escala, como ampliação de áreas verdes para absorção local da água de chuva ou hortas urbanas. O centro de São Paulo tem um programa de jardins de chuva que é um exemplo de tecnologia verde: além de embelezar a cidade, com vegetação em áreas onde predominava o cimento, ajuda a evitar alagamentos em áreas de declive.

Se no século 20 o que parecia inovação era asfaltar o chão, canalizar os rios e levar o esgoto para longe da vista das pessoas, hoje esta é uma visão ultrapassada. Inovação, no século 21, é criar cidades sustentáveis e mais amigáveis para as pessoas. Espaços agradáveis, seguros, potencializando e não destruindo os recursos naturais. Mais ou menos como faziam os habitantes originários do nosso país. Só que, agora, temos conhecimento e tecnologia para saber que não é uma questão de escolha, mas de sobrevivência.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil


SOBRE A AUTORA

Claudia Penteado é editora chefe da Fast Company Brasil. saiba mais