O desaparecimento do outro

Sem um tempo para nós mesmos, e a salvo da alteridade do outro, nos reconfiguramos para a não tolerância ao contraditório

Créditos: Charlie Fair/ Deepak Choudharye/ De Andre Bush/ Unsplash

Genesson Honorato 6 minutos de leitura
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Já faz um tempo que falo sobre a epidemia de solidão. Uma epidemia que traduz o tempo onde estamos online na tela e offline na vida. Nunca foi tão difícil fazer uma nova amizade, ou até se abrir para alguém, inclusive o terapeuta.

Recentemente, fui convidado para um evento onde a ideia era falar sobre as nossas relações no contexto do excesso de informação e hackeamento da atenção, já que economia da atenção é um dos meus principais campos de estudo.

Durante a minha preparação, revisitei alguns livros que me dessem algumas pistas sobre as nossas relações em uma sociedade cada vez mais digitalizada.

Então levei Kafka, Chul Han, Sêneca, Freud, Jung, Lacan etc., com a ideia de tentar decifrar alguns signos do nosso tempo sem recorrer àquilo que emerge do próprio algoritmo.

Aliás, de maneira bastante paradoxal, temos baixado aplicativos para resolver problemas criados por aplicativos. Um exemplo claro disso é a quantidade de pessoas que estão fazendo “terapia” com a IA.

Então, voltando ao evento, ao final de uma das vivências que realizei, uma pessoa pediu a palavra para fazer um comentário. Ela disse que estava fazendo terapia junguiana com a IA, e que se alguém se interessasse, ela “compartilharia o prompt’.

Fez-se um grande silêncio, pois a fala ia diretamente de encontro ao que eu havia acabado de propor na vivência. Havia acabado de falar sobre presença, conexão com o outro, consciência de si, serendipidade, sonhos, maravilhamento...

Antes de começar, havia posto para tocar as Árias das Variações Goldberg de Bach. Ao centro pus uma orquídea com a ideia de nos remeter ao belo da natureza. Quando a pessoa falou sobre fazer terapia com IA como algo absolutamente comum, fiquei pensativo. 

Crédito: Vladimir Soldatov/ iStock

Eu, como pesquisador e pensador, não apontei e jamais vou apontar o dedo para essa pessoa ou qualquer outra. Como já disse o poeta, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Ela apenas está vivendo aquilo que representa o signo do nosso tempo e que faz parte desse espírito do tempo (zeitgeist), onde estamos todos imersos.

O que mais me interessou nessa história foi buscar entender mais de perto os motivos que estão levando as pessoas a fazer terapia com a inteligência artificial, por mais que eu já tivesse algumas pistas a respeito – e dentre elas, o desaparecimento do outro.

Existem alguns fatores que nos levam ao desaparecimento do outro. Primeiro porque os “sistemas mundo” como postulado por Balibar e Wallerstein (1974), nos levam a uma sociedade da competição extrema. A ideia de que o outro é o nosso inimigo, que precisamos vencê-los, destruí-los.

ter milhares de “seguidores” nas redes não garante que teremos um ombro amigo para chorar em tempos de necessidade.

O outro que compete com a gente é um “ele” não um “tu” e, portanto, não se estabeleceriam meios de encontrar o outro em sua singularidade, subjetividade, identidade e humanidade, mas como um objeto de uma dinâmica utilitária, narcisista.

Uma reedição da sociedade imunológica, (Byung-Chul Han, 2019), que se estabelece na dicotomia amigo/ inimigo, dentro/ fora, eu/ ele. Um inimigo que precisa ser excluído, eliminado, afastado.

Esse cenário começa a ganhar novas facetas a partir da internet e, mais recentemente, dos aparelhos celulares, smartphones – aparelhos que costumo nominar como armas de desatenção em massa. 

Em 2023, li uma frase dita por Marshall MacLuhan, um destacado educador, intelectual, filósofo e teórico da comunicação canadense, conhecido por vislumbrar a internet quase 30 anos antes de ser inventada.

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Dentre outras coisas ele disse: “First we build the tools, then they build us” (primeiro fazemos as ferramentas, depois as ferramentas nos fazem).

Foi a partir desse fragmento que comecei uma grande jornada para entender como isso se configura na era onde, ao invés de interação, estamos fazendo uma constante e ininterrupta “intelação”. 

O desaparecimento do outro decorre, também e principalmente, da sensação de proximidade gerada pelas redes digitais, que deixa tudo a apenas um clique de distância sem diminuir efetivamente a distância. O óbvio precisasse ser dito: estar conectado não é o mesmo que estar presente.

 “A ideia paradoxal de proximidade criada pela ilusão gerada

pela hiperdisponibilidade. Comunicação sem presença, sem

abraço, fragmentada. 

…somente a presença nos faz felizes.”

Chul Han, 2023

Ou seja, descobrimos que ter milhares de “seguidores” nas redes não garante que teremos um ombro amigo para chorar ou alguém para abraçar em tempos de necessidade. Seja para compartilhar uma alegria ou chorar uma decepção, seus milhares de seguidores não estarão presentes.

Por outro lado, parece haver um ganho do afastamento do outro, ganho que já se mostra irrelevante frente às perdas do afastamento, mas que lança luz sobre a ideia de fazer terapia com a IA, por exemplo. Eu chamo isso de fuga da inconformidade do outro. 

Os vínculos com a IA remontam a uma “zona segura” onde a bajulação excessiva, a ausência de contraditório e a afirmação do ego produzem um narcisismo que nos leva a uma distorção da realidade percebida, de si e do mundo.

O outro real, discorda, questiona, fala sem parar, bloqueia o caminho, comete equívocos. O outro real é passível à desconfiança, portanto, a uma inconformidade. 

ilustração alusiva a relações humanas
Créditos: Mikuláš Galanda/Europeana/ Darkhan Basshybayev/ Unsplash

O problema é que, nessa lógica, como disse Sherry Turkle, (2011), “nós não mantemos os computadores ocupados, nós nos mantemos ocupados.”

Se estamos ocupados, falta exatamente o tempo para mais consciência de si, mais maravilhamento, mais sonhos, serendipidade e futuros. Sem um tempo para nós mesmos, e a salvo da alteridade do outro, nos reconfiguramos para a não tolerância ao contraditório.

Por isso vejo como um sintoma do nosso tempo o excesso de curso de oratória e a falta de "escutatória". Uma vida auto referenciada, perfeita sem objeções e relação com o outro. Paradoxalmente, o desaparecimento do outro pode ser, também, o desaparecimento de nós mesmos. 

Mas sempre há esperança, como uma dimensão da alma que nos faz acreditar em um futuro. Onde o ser humano possa definitivamente ‘ser’ humano. Coletivo, social, sensível ao outro. Porque isso, como na celebre música de Gilberto Gil, o “Cérebro Eletrônico” não poderá fazer.

“Porque sou vivo, sou muito vivo e sei,

que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro.

Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro”

Gilberto Gil, “Cérebro Eletrônico", 1969

Não será fácil, mas será necessário olhar com menos apaixonamento e mais senso crítico os “encantos” quase que hipnóticos da tecnologia. Olhe para o lado, dê um sorriso, abrace alguém, faça uma gentileza. Sorrir é uma das nossas mais avançadas tecnologias.

Olhos nos olhos.

Para refletir: quando foi a última vez que alguém conversou com você sem olhar para uma tela?

Até a próxima.


SOBRE O AUTOR

Genesson Honorato é psicólogo com olhar para a psicanálise, tem formação em Marketing e Design Digital pela ESPM e MBA em inovação pel... saiba mais