Passei todos os meus 25 anos de carreira aprendendo sobre discursos. Primeiro a ouvi-los (como jornalista) e, depois, a construí-los (como dono de agência de comunicação). Portanto, posso afirmar: ninguém aguenta mais a manipulação dos fatos, das falas, das opiniões alheias e das narrativas.

Essa é a regra hoje em dia, você já reparou. Distorcer discursos virou moda. Não importa a falta de lógica, os interesses (escondidos ou explícitos), ou o fato de que parecemos não conseguir acordar de um pesadelo sanitário com impactos socioeconômicos catastróficos. Somos vítimas de discursos manipulados o tempo todo e, muitas vezes, aceitamos jogar o jogo dos manipuladores.

Não dá mais para assistir a nós, como sociedade esclarecida, nos submetermos a isso.

A primeira manipulação é óbvia: nenhuma pessoa de bom senso deveria dar corda a nenhum tipo de extremismo – seja político, econômico, científico, social, de gênero, raça, etnia, classe, migração, orientação sexual, futebolístico, religioso etc.

Opiniões extremas são, frequentemente, repletas de paixão e isentas de lógica. Elas sempre existiram e sempre existirão, mas você aprende desde cedo a não as levar muito a sério. Você não dá ouvidos à sua filha adolescente, por exemplo, quando ela diz que quer passar o resto da vida se alimentando somente de chocolate. Ou quando seu filho diz que não vai estudar nunca mais e passará sua existência jogando futebol. Por que, então, passamos a valorizar opiniões extremas de naturezas – e conseqüências – muito mais sérias?

O mesmo vale para a famigerada polarização. Hoje toda conversa é polarizada, ou torna-se polarizada, levando a situações que não fazem sentido algum – a não ser para quem lucra, de alguma forma, com isso. Convenhamos: o fato de eu gostar da cor verde não me torna, automaticamente, um detrator da cor amarela. Ou da roxa. Ou da azul, da rosa ou da laranja, coitadas.

Se chegamos ao ponto de ter que explicar a falta de coerência de uma polarização política, por exemplo, usando um modelo infantil comparativo de cores, veja a gravidade da situação. Sendo que corremos o risco de, ao escolher a cor branca, sermos classificados de “isentões”.

Sério? Quando nos tornamos tão pueris?

Não adianta culpar as redes sociais. Elas simplesmente ampliam a voz e o alcance da caneta e do palco para pessoas que, antes, não tinham isso. Daí a achar que qualquer pessoa com uma opinião é autoridade num determinado assunto, vai uma estrada longa – parecida com a jornada de estudo/trabalho/experiência que as pessoas realmente conhecedoras dos assuntos trilharam ao construir suas reputações.

Outra manipulação de discurso que não tem o menor cabimento é justificar uma falha por um mérito. Exemplo clássico: “Ah, o fulano pode ser incompetente, mas pelo menos não é corrupto”.

Really? É o equivalente a dizer “Ah, essa banana pode estar podre, mas pelo menos ela não tem caroço”.

Se chegamos ao ponto de ter que explicar a falta de coerência de uma mera argumentação, por exemplo, usando o modelo infantil de comparativo das frutas… veja a gravidade da situação.

Será que, além de pueris, estamos agindo propositalmente de má-fé? Inevitável pensar nisso quando lemos e ouvimos pessoas falando “não pode queimar a Amazônia” e recebendo como resposta “ah, você é de esquerda”. Ou quando alguém diz “não pode roubar a Petrobras” e ouve de volta “então você é genocida”.

Também não dá mais para colocar em oposição coisas que não são opostas – como, por exemplo, uso de máscara vs. vacina, lockdown vs. paralisação da atividade econômica… Algo parecido com uma disputa Corinthians vs. McLaren.

A lógica não compareceu. Nem a interpretação de texto.

Não dá mais para tolerar esse tipo de coisa.

“Não adianta culpar as redes sociais. Elas simplesmente ampliam a voz e o alcance da caneta e do palco para pessoas que, antes, não tinham isso. Daí a achar que qualquer pessoa com uma opinião é autoridade num determinado assunto, vai uma estrada longa.”

E ter que discutir, toda hora, o que é esquerda ou direita? Se há dúvidas, abra um livro e estude. Mas, se você é um cidadão comum, não recomendo que se importe muito com isso. Ou em saber se a democracia é liberal, republicana ou social. Se a esquerda é comunista, revolucionária ou caviar. Ou ainda se a direita é retrógrada, fascista ou “pra botar ordem nisso aí”. Recomendo deixar esse debate para os intelectuais, e não usá-lo como gambiarra argumentativa para justificar a ausência de hospital, comida na mesa ou emprego. Nem para saber se a “razão” está com o Keynes, o Smith, o Marx, o Gramsci, o Tiririca ou no Posto Ipiranga.

Também não dá mais para perder tempo botando azeite na empada de coadjuvantes, como por exemplo toda a discussão da “semiótica” do gesto que aquele cidadão fez na lapela do seu terno – quando o bom-senso nos dá uma pista bem clara do que ele realmente quis dizer, sem precisar escrever uma teoria de 110 páginas sobre o assunto.

No ambiente das empresas, a mesma coisa. Não dá mais para discutir “se” diversidade, equidade e inclusão deveriam estar na pauta das empresas. Ou ESG. Ou inovação. Ou respeito.

A lista, infelizmente, é longa. Mas esta coluna não deve ser. Meu ponto, para concluir, é um só: enquanto todos perdemos nosso tempo discutindo todas essas coisas, perdidos entre discursos, versões, fatos e manipulações, existe uma realidade cruel em que o Brasil vai ficando para trás.

Estamos entrando em (mais) uma década perdida. A segunda, consecutiva. Ao longo dos anos, despencamos nos principais rankings socioeconômicos globais – assim como nos de ciência, tecnologia, desenvolvimento humano… Escolha um ranking e, bum!, estamos indo consistentemente rumo à lanterna. O brasileiro que ganha em reais está, a cada dia, mais pobre. A riqueza geral do país, neste ano, vai cair novamente – especialistas conservadores apontam queda no PIB ao redor de 2%. A imagem e a reputação do Brasil no exterior estão no fundo da lixeira. Estamos fora da mesa que toma as decisões da agenda global de inovação, biodiversidade, mudanças climáticas. E não somos protagonistas das transformações mais significativas do mundo contemporâneo.

Enquanto isso, perdemos nosso tempo em discussões que não vão levar a lugar algum.

E, enquanto China e Estados Unidos travam uma guerra fria pela hegemonia global em inovação, discutindo temas como 5G, inteligência artificial, nano e biotecnologia, veículos autônomos, criptomoedas, Internet das Coisas, energias limpas e renováveis, computação quântica etc., nós aqui, como Nação, estamos debatendo (a sério) o retorno do voto em papel.

Do jeito que a coisa vai, o próximo tópico vai ser a volta do escambo.

Até quando?

Não dá mais para embarcarmos no populismo, na ingenuidade ou na ignorância alheias. Temos que ser melhores do que isso.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Eduardo Vieira é membro do Conselho Editorial da Fast Company Brasil.