O fim da vergonha

Ao mesmo tempo em que a cultura do cancelamento usa a vergonha como arma, a falta de vergonha, se torna uma estratégia de poder

bocas saindo de celulares
Crédito: Logvinart/ Getty Images

Guido Sarti 4 minutos de leitura

Quando eu era criança, costumava falar absolutamente qualquer coisa que vinha à minha cabeça. Tenho dois irmãos mais velhos e, em uma das vezes que falei um absurdo qualquer, meu irmão me chamou de canto. Ele disse para, antes de falar, eu parar e pensar se aquilo realmente fazia sentido. Se não ia passar vergonha.

Aquela conversa foi meu primeiro algoritmo de calibração social, muito antes de qualquer plataforma digital existir. A vergonha, naquele momento, não era punição. Era um presente. Um mecanismo que me ensinava a pensar antes de agir, a considerar o outro antes de falar. Uma estrutura de governança das relações humanas, invisível mas funcional.

Esse mecanismo parece ter sido desativado. Não por um plano maligno, mas pela otimização contínua de um modelo de negócio. O resultado é um ambiente onde a ausência de filtro é confundida com autenticidade e a impulsividade, com coragem. O problema não é a liberdade de expressão. É a ausência de fricção entre o impulso e a publicação.

A ARQUITETURA DA EXPOSIÇÃO

As plataformas digitais não são espaços neutros. Elas são desenhadas para maximizar o engajamento, e o algoritmo aprendeu rápido: a indignação vende. Conflito gera cliques. A exposição sem pudor é recompensada com alcance. Nesse ecossistema, a autocrítica não tem valor de mercado. Pelo contrário, ela atrasa a produção de conteúdo.

Em 2004, o psicólogo John Suler cunhou o termo “efeito da desinibição online” para descrever exatamente isso. Fatores como o anonimato, a invisibilidade e a comunicação assíncrona criam um ambiente onde as pessoas dizem e fazem coisas que jamais fariam cara a cara.

O outro deixa de ser uma pessoa e vira um avatar, um alvo. O déficit de empatia é um resultado direto do design do sistema.

Vivemos um paradoxo. Ao mesmo tempo em que a cultura do cancelamento usa a vergonha como arma de destruição em massa, a shamelessness, a falta de vergonha, se torna uma estratégia de poder.

Figuras públicas constroem carreiras inteiras na capacidade de dizer o ultrajante sem demonstrar um pingo de remorso. A vergonha foi privatizada como ferramenta de ataque, mas socializada como fraqueza a ser evitada.

O NARCISISMO COMO MODELO DE NEGÓCIO

Se a vergonha é o freio, o narcisismo é o acelerador. E as redes sociais construíram um modelo de negócio em cima da aceleração. A "Harvard Business Review" publicou em 2023 um artigo sugestivo: “Are You a Digital Narcissist?” (Você é um narcisista digital?).

A tese é que plataformas que recompensam comportamentos autocentrados e exibicionistas podem ser o motor do narcisismo digital. A cultura do oversharing, do compartilhamento excessivo, normalizou a autopromoção constante como forma de existência.

pessoa narcisista se olha em um espelho quebrado
Créditos: JNemchinova/ iStock/ Ismael Sánchez/ Pexels

Isso deteriora as relações humanas. A comunicação deixa de ser uma troca e vira uma performance. As conversas se tornam transmissões. O outro vira audiência.

O resultado, como apontam diversos estudos, é um aumento da ansiedade, da depressão e uma corrosão da autoestima. Comparamos nossos bastidores com o palco editado dos outros, uma batalha perdida desde o início.

A DESISTÊNCIA DO DEBATE PÚBLICO

O impacto mais profundo, talvez, seja na qualidade do debate público. Uma pesquisa da American Bar Association de 2023 revelou que a maioria dos norte-americanos culpa as redes sociais pelo declínio da civilidade. O discurso se polariza não por divergência de ideias, mas pela recompensa algorítmica do conflito.

O objetivo não é mais convencer, é vencer. E vencer, no universo digital, significa ter a última palavra, o comentário mais curtido, o meme mais viral. A verdade se torna secundária. A complexidade é punida. A nuance não tem espaço em 280 caracteres.

A vergonha foi privatizada como ferramenta de ataque, mas socializada como fraqueza a ser evitada.

Como o burro Benjamin em “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, o observador lúcido percebe que a fazenda mudou de dono, mas o trabalho continua o mesmo. Só que agora, todos têm um megafone.

Estamos criando uma sociedade de monólogos, onde cada um grita para sua própria bolha, convencido de sua retidão moral. A vergonha, que antes nos forçava a considerar a perspectiva do outro para evitar o isolamento, foi substituída pela validação do grupo. Se todos no meu feed concordam comigo, eu devo estar certo.

PELO DIREITO À AUTOCRÍTICA

Resgatar a vergonha não é um chamado ao moralismo ou à repressão. É um convite a reinstalar um sistema operacional mais sofisticado. É reconhecer que a autocrítica não é fraqueza, é um sinal de inteligência. É entender que a pausa entre o sentir e o falar é onde a civilização acontece.

Leia mais: Pesquisa aponta que toxicidade em redes sociais é uma forma de pertencimento

Talvez a maior forma de rebeldia, hoje, não seja falar tudo o que se pensa. Seja escolher não falar. Seja cultivar o silêncio. Seja ter a coragem de, em um mundo que exige certezas, admitir: “eu não sei”. Ou, quem sabe, ter a audácia de sentir vergonha e, a partir dela, se tornar um pouco melhor.

A alternativa é o que já estamos vivendo: um barulho ensurdecedor onde ninguém escuta e a única coisa que cresce é a distância entre nós.


SOBRE O AUTOR

Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e atua como professor coordenador na Miami AdSchool. Foi Head de Novos Negócios e Convergência na Gl... saiba mais