Vocês já repararam como existe no mundo um número incalculável de saídas para as nossas diversas dificuldades humanas? Gosto de pensar que o mundo é uma grande escola, com inúmeras salas de aulas, onde cada uma delas nos apresenta outras  possibilidades de expandir nossos olhares sobre o mundo.

As ciências, as relações humanas, a política, as relações amorosas e/ou familiares, as dificuldades, as desigualdades, o sistema econômico, entre tantos elementos que circulam nossas vidas, são salas de aulas que nos “instrumentalizam” para compreender e expandir.

A arte, por exemplo, é uma sala de aula imensa, que se desdobra em diversas outras salas cujo principal função é a de ensinar pela sensibilidade. Um dos desdobramentos dessa sala é a música.

A música atrai pelo entretenimento, fisga nosso interesse mexendo com nossas emoções, mas, quando vamos além desses elementos, nossa percepção descortina outros caminhos de compreensão da vida.

“A música tem a capacidade de fazer sentir e por isso é transformadora, sendo coadjuvante de diversos movimentos por mudanças sociais ao longo da história.”

A primeira lição que podemos aprender na “sala de aula” chamada música, é sobre diversidade, já que temos música para todos os gostos. Tanto que é tarefa quase impossível achar alguém que não goste de música.

Há pessoas tão apaixonadas por música que são chamadas de melômanas, pois, melomania é a paixão por música. Inclusive, perdão por desviar o foco dessa narrativa para mim, mas devo confessar que sou uma melômana, já que herdei dos meus ancestrais (pai, avó e bisavô), a mania de trazer a música para qualquer momento da minha vida.

Inclusive devo aqui confessar que a música é minha maior fonte de inspiração intelectual.

A música atinge nossos corações, esse órgão vital que é a válvula motriz de toda transformação social. O sentir carrega um potencial de compreensão muito poderoso.

A grande escritora Maya Angelou disse certa vez que:

“as pessoas podem esquecer o que você disse ou o que você fez, mas jamais esquecerão como você as fez sentir.”

A música tem a capacidade de fazer sentir e por isso é transformadora, sendo coadjuvante de diversos movimentos por mudanças sociais ao longo da história.

Poderíamos destacar de vários exemplos, mas evidencio o samba que, mesmo com um tom de crítica social sempre presente e inúmeras tentativas de apagamento da sua origem negra, é considerado a cara do Brasil. O samba é resistência política e histórica que ensina a lutar com alegria.

Mas quero chamar a atenção para um outro estilo musical que também é símbolo de resistência: o jazz, que muitos carinhosamente chamam de primo gringo do samba. O jazz nos traz preciosos ensinamentos sobre comunicação.

Segundo o músico Winton Marsalis, um dos maiores expoentes do jazz na atualidade,  esse ritmo começou com o músico Buddy Bolden em New Orleans, por volta de 1890. Bolden desenvolveu um jeito único e inédito de tocar trompete que misturava o ragtime (primeiro ritmo oficialmente norte-americano que teve como principal expoente o pianista Scott Joplin), o blues (música de lamento cantada nas plantations pelos escravizados) e a percussão (herança genuinamente africana). Em pouquíssimo tempo inspirou outros músicos a seguir esse estilo de produzir música e… voilá!

Nascia o ritmo que marcou a história da música norte-americana, assim como o samba fez em terras brasileiras.

Se o samba nos ensina resistir com alegria, o jazz nos ensina a dialogar com eficiência.

Em 30 de abril de 2011, ano que a ONU proclamou como Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, a UNESCO instituiu o Dia Mundial do Jazz, considerando esse ritmo como força propulsora da paz, do diálogo e da compreensão entre os povos. O jazz nasceu em um contexto de extrema desigualdade racial, como resposta a violência que eliminava corpos negros e para reafirmar as origens, o talento, a voz e a existência de pessoas negras do norte da América. Um estilo musical que se constitui como diálogo entre músicos através de seus instrumentos.

“Dizer e escutar é comunicar com equilíbrio entre o racional e o emocional. Diferente de falar e ouvir”

O jazz é considerado uma música de resistência, porque surge e se desenvolve em um contexto de extrema segregação racial das leis Jim Crow, que silenciava vozes negras de todas as formas e caracterizou o racismo praticado no norte da América. Infelizmente, no Brasil não foi tão diferente, pois, apesar de não termos uma segregação oficial, a caracterização do racismo por aqui, deu um resultado perigoso: o mito da democracia racial.

Esse mito nos fez acreditar que os diálogos são lineares, democráticos e empáticos. Na verdade, não só no âmbito da discussão racial, mas também de classes, de gênero e, até, dentro desses grupos sociais a quem chamamos de minorias (não pela quantidade e sim pela dificuldade em acessar direitos sociais), acreditamos que a comunicação tem sido eficiente. Mas não.

Tanto que muitos afirmam não existir racismo ou demonstram total alienação para com as vivências e existências vitimadas pelas desigualdades sociais, apesar das pesquisas que indicam que esses grupos estão em gritante desvantagem no acesso a direitos e mobilidade social. A negritude, por exemplo, está majoritariamente ocupando o lugar dos piores indicadores de desenvolvimento humano.

Se quisermos erradicar as desigualdades, precisamos entender como elas se formaram e como atuaram ao longo da história. E a comunicação, o diálogo, é o único caminho possível pra isso. Diálogo é a articulação consciente entre o dizer e escutar, que é bem diferente de ouvir e falar. Dizer e escutar é comunicar com equilíbrio entre o racional e o emocional. Diferente de falar e ouvir, que são manifestações naturais das nossas funções orgânicas.

Ou seja, dizer e ouvir são resultantes da junção entre pensar e sentir.

Seguindo essa lógica concluímos que: o jazz pode nos inspirar a seguir caminhos para que nossas comunicações sejam afetivas (nos afete) e efetivas (que causem efeito). Passei a enxergar o jazz sob o viés da comunicação quando me deparei com o extinto programa da Radio Eldorado FM, o Sala dos Professores, apresentado pelo músico e radialista Daniel Daibem. Ele sempre afirmava que o jazz é um diálogo.

Se observarmos atentamente as mais variadas performances dos músicos de todos os “idiomas”, entendemos que o jazz é um diálogo, que tem como uma de suas principais características, a improvisação.

Um instrumento chama, o outro responde. Há momentos onde cada instrumento se destaca sozinho, mostrando talentos individuais, e há momentos em que todos os músicos tocam juntos, mostrando a força da coletividade. A coletividade é sempre formada pela soma de talentos diferentes em comunhão e não em competição.

Em nossa sociedade, nos ensinam desde cedo que o diferente é um ponto de desequilíbrio a ser eliminado pela padronização. Um erro, pois aprender com as diferenças é que nos enriquece enquanto humanos.

“Através da multiplicidade de pessoas (instrumentos) diferentes entre si, alcançamos a consciência de que a dinâmica social e seus conflitos, possuem vários caminhos”

Através da multiplicidade de pessoas (instrumentos) diferentes entre si, alcançamos a consciência de que a dinâmica social e seus conflitos, possuem vários caminhos e entendimentos para a resolução, onde cada um pode contribuir de alguma forma, de acordo com seu conteúdo individual.

Nas performances das Big Bands tão populares entre 1920 e 1950, que incendiavam grandes plateias, como Glenn Miller, Dizzy Gillespie, Count Basie, Duke Ellington, por exemplo, grandes expoentes da chamada “era do swing” e que trouxeram o valor do improviso, nos ensinando que há espaço para todos os músicos mostrarem suas particularidades e, apesar de sempre haver uma liderança, não existe uma verticalização nas relações, pois há uma compreensão intuitiva a cerca da igualdade como potência, ainda que composta por diferenças.

Nas nossas relações humanas é onipresente a crença de que o mundo é dividido entre superiores e inferiores. Isso ergue um muro, já que olhar nos olhos e falar de igual pra igual é condição primeira para a comunicação afetiva. Diálogos eficientes são lineares, de igual para igual, ainda que sejamos diferentes.

Em sessões de improviso, músicos que nem sempre se conhecem, são capazes de tocar juntos e criar excelentes performances. Eles conseguem essa façanha, trabalhando a observação intuitiva, que tenta prever ou desvendar os sentimentos que vêm do outro músico, sem dizer uma só palavra.

Observar o outro com atenção e sem julgamentos apressados, abertos a descoberta de um possível mundo novo, ativa nosso potencial de compreensão sobre o outro. Enquanto compreendemos o outro, nos compreendemos.  Cabe lembrar de uma frase do escritor José Saramago “é preciso sair da ilha para enxergar a ilha.”

No jazz é possível perceber que não há espaço para egocentrismos, já que todos os músicos são importantes, assim como todas as pessoas também o são.

Podemos usar o exemplo do jazz, em nosso contexto tão violento e opressor quanto o dos EUA, para diminuir as distâncias sociais que inviabilizam diálogos e fecham as portas para as trocas saudáveis.

O diálogo consciente pode fazer isso. É esse entendimento simples do diálogo das performances, que o jazz pode nos ensinar. As performances do jazz são diálogos afetivos.  Só o diálogo afetivo pode ser efetivo.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Joice Berth é arquiteta, escritora e ativista urbana