O pênalti perdido e a oportunidade de escolher o futuro

Talvez um futuro desejável seja não a fantasia de controlar tudo, mas a capacidade de melhorar a qualidade das nossas decisões

Créditos: Bryan Berlin/ Wikimedia Commons/ Fauzan Saari/ Zoha Gohar/ Unsplash

Fred Gelli 6 minutos de leitura

Nos anos 90, a TV Globo tinha um programa chamado "Você Decide".

A ideia era simples e meio mágica: a história chegava a um ponto crítico, parava no meio da encruzilhada e o público escolhia o final. A vida suspensa por alguns minutos, esperando a votação decidir se o personagem seria salvo ou condenado, se o casal ficaria junto ou separado, se a verdade apareceria ou seria enterrada.

Lembro que achava aquilo incrível! Tínhamos um poder sobre o futuro!

No fundo, talvez a graça do programa estivesse numa pergunta muito maior:  quanto a gente decide, de fato, o final das coisas?

Antes de começar o jogo entre Brasil e Noruega, o mundo – ou pelo menos esse pedaço emocional do mundo que é o Brasil – estava dentro de um Você Decide coletivo. Havia um futuro em que o Brasil passava. Havia outro em que a Noruega seguia.

Havia um futuro em que Neymar entrava e resolvia. Havia outro em que Haaland virava personagem principal. Havia uma bola na trave, uma substituição, uma hesitação, um erro de marcação, um segundo de distração. Tudo ainda era possibilidade.

E foi sobre esses instantes estranhos em que o futuro ainda está aberto, mas começa a dar sinais do que pode se tornar, que me pareceram ser uma boa inspiração para esse artigo.

A gente vive como se a história fosse uma linha, mas talvez ela seja mais parecida com uma sequência de bifurcações. Algumas enormes, explícitas, televisionadas. Outras microscópicas, quase invisíveis.

Jogo Brasil x Noruega pela Copa do Mundo 2026 (Crédito: Reprodução)

Se o tiro que matou Kennedy tivesse errado por alguns centímetros, o século 20 teria sido outro? Se Trump não tivesse vencido a última eleição, onde estaríamos hoje? Se uma conversa tivesse acontecido, se uma carta tivesse chegado, se alguém tivesse dito sim em vez de não, quantos futuros teriam se desviado?

A história parece sólida quando olhamos para trás. Mas, enquanto está acontecendo, ela é instável, vulnerável, cheia de frestas.

O ponto é: quanto disso é acidente e quanto já estava sendo preparado antes?

No caso do futebol, eu entendo muito pouco. Mas talvez não seja preciso entender tanto para perceber que o jogo não começa no apito inicial. Começa antes. Na convocação. Na preparação. Na cultura do time.

Na coragem, ou na falta dela, de sustentar uma estratégia. Na pressão simbólica de colocar ou não colocar um jogador. Na dificuldade de renovar uma geração. Na energia que se coloca, ou não, em direção a um futuro possível.

A distopia sequestrou nossa capacidade de imaginar futuros desejáveis. Todo futuro desejável precisa, antes, ser autorizado pela imaginação.

Às vezes, o gol parece acaso. Mas o acaso costuma encontrar uma fresta que já estava aberta.

Isso vale para um jogo, para uma eleição, para uma empresa, para um país, para uma vida. O futuro nunca é totalmente controlável, mas também não é uma entidade neutra que simplesmente cai do céu.

Ele responde, em alguma medida, às condições que a gente cria no presente. Às escolhas que fazemos. Às conversas que evitamos. Às competências que desenvolvemos. Às negligências que vamos normalizando.

Talvez seja aí que a ficção científica e especulativa, tema dos meus dois últimos artigos e que tanto tem me interessado, entre como uma espécie de ferramenta de antecipação de futuros.

Não como previsão. Ficção científica boa não é bola de cristal. É campo de treino. É ensaio de consequência. É a chance de perguntar “e se?” antes que o “e se” vire realidade.

E se organizássemos a cidade de outro jeito? E se a tecnologia fosse colocada a serviço da natureza e não contra ela? E se a inteligência artificial nos ajudasse a enxergar interdependências que sozinhos não conseguimos compreender? E se a política fosse menos uma máquina de ressentimento e mais uma prática de imaginação coletiva?

Leia mais: Em 2046, a humanidade chegou a Marte numa sexta-feira

Imaginar futuros não é fugir do presente. É carregar o presente de intenção.

Talvez uma das maiores ameaças ao nosso futuro esteja na crise da nossa imaginação. A distopia sequestrou nossa capacidade de imaginar futuros desejáveis. Imaginar sempre foi o começo do que queremos construir. Todo futuro desejável precisa, antes, ser autorizado pela imaginação.

O que não conseguimos imaginar dificilmente conseguimos projetar. O que não conseguimos projetar acaba sendo decidido por forças mais brutas: o mercado, o medo, o algoritmo, a inércia, o oportunismo, o acidente.

Claro que existe o imprevisível. Sempre vai existir. A bola que desvia. O corpo que falha. A chuva que cai na hora errada. O vírus que aparece. O líder que morre. O tiro que acerta. A frase que escapa. A pequena casualidade que muda uma vida inteira.

futurismo
Créditos: NeoLeo/ Frances Coch/ Getty Images

O futuro nunca será uma planilha obediente.

Mas reconhecer o acaso não deveria nos absolver da responsabilidade. Ao contrário. Justamente porque não controlamos tudo, precisamos cuidar melhor daquilo que podemos influenciar.

A natureza parece saber disso há muito tempo. Uma floresta não controla cada raio, cada seca, cada incêndio. Mas trabalha o tempo todo para criar condições de continuidade: diversidade, redundância, cooperação, regeneração pelas bordas, inteligência distribuída. Um sistema vivo não elimina o imprevisível. Ele aprende a não depender de uma única aposta.

Talvez um futuro desejável seja isso: não a fantasia de controlar tudo, mas a capacidade de melhorar a qualidade das nossas apostas.

O futuro nunca é totalmente controlável, mas também não é uma entidade neutra que simplesmente cai do céu.

No "Você Decide", a ilusão era linda: bastava votar e o final mudava. Na vida, é mais complicado. A gente não decide o final sozinho. Decide algumas condições. Algumas cenas. Alguns gestos. Algumas convocações. Algumas prioridades. Algumas omissões também. E depois o mundo mistura tudo isso com forças que escapam completamente ao nosso controle.

Talvez a pergunta não seja “você decide?”. Talvez seja: você participa da decisão?

Porque entre a onipotência e a impotência existe um território imenso. O território da intenção. Da preparação. Da imaginação. Do cuidado com os sinais fracos. Da coragem de agir antes que o futuro se feche.

Na segunda-feira, por duas horas, o Brasil ficou suspenso diante de uma bifurcação. Quando o jogo acabou, um futuro tinha se realizado e todos os outros desapareceram. Aí começaram as explicações: azar, erro, destino, consequência, falta de coragem, falta de imaginação.

Talvez tenha sido tudo isso junto.

Leia mais: E se as baleias tiverem razão?

A história raramente é decidida por uma causa só. Ela se parece mais com um jogo: um campo de forças onde estratégia, corpo, desejo, preparo, acidente e medo se misturam até que alguma coisa aconteça. Depois, chamamos de realidade.

Chegou a hora de acordar para os riscos não assumindo o poder da nossa imaginação.


SOBRE O AUTOR

Fred Gelli é co-fundador e CEO da Tátil Design, consultoria de branding, design e inovação que desenha estratégias e experiências de m... saiba mais