Talvez você não tenha se dado conta, mas estamos vivendo duas guerras.

A primeira, obviamente, é a pandemia da COVID-19. Numa comparação simples, o número de mortos pela doença (3,2 milhões de pessoas até ontem) já superou o número de baixas militares americanas contabilizadas em toda a Segunda Guerra Mundial (cerca de 400 mil). Mais de 158 milhões de pessoas foram infectadas pela doença, sem contar os casos não registrados, atingindo o dobro de vidas totais afetadas no conflito bélico de 1939 a 1945 (entre 60 e 80 milhões de pessoas). Basta observar a rotina dos hospitais nas áreas mais críticas de contágio e traçar um assustador paralelo com as enfermarias dos fronts de combate.

“A hegemonia tecnológica pode significar o domínio de setores estratégicos, como o econômico, o militar, o energético, o de saúde e o espacial”

Já a segunda guerra é fria. Mais imperceptível e, mais precisamente, tecnológica. A China e os Estados Unidos, as duas maiores economias do mundo e responsáveis por um terço do comércio mundial, travam uma disputa que pode dar, ao vencedor, a possibilidade de redesenhar a geopolítica e a economia. Em jogo, a hegemonia global em inovação.

A disputa é pela liderança em áreas como telecomunicações, inteligência artificial, nanotecnologia, biotecnologia, veículos autônomos, serviços financeiros digitais, criptomoedas, Internet das Coisas, novos tipos de energia, computação quântica e tudo aquilo que forma o que se convencionou chamar de Quarta Revolução Industrial.

Escrevendo assim, parece coisa de nerd. Mas está longe disso. A hegemonia tecnológica pode significar o domínio de setores estratégicos, como o econômico, o militar, o energético, o de saúde e o espacial. Basicamente tudo o que garante a vida aos seres humanos.

Essa guerra não envolve, até o momento, derramamento de sangue. É travada na superfície da Internet e em seus porões, como a Deepweb e a Darkweb. Envolve manipulação de informações, guerra de narrativas e a tão famigerada polarização política – que, de uma hora para outra, dominou o mundo, reparou?

Não sejamos ingênuos. A Nova Ordem Mundial está sendo escrita neste exato momento, e seu elemento mais devastador é justamente a sensação de desordem permanente que temos vivido.

O placar da guerra fria anda apertado. Os Estados Unidos contam com as melhores universidades e são a maior economia do mundo. São líderes no desenvolvimento de carros autônomos, semicondutores e computação quântica. Já a China é líder em 5G, sistemas de pagamentos e finanças digitais, além de reconhecimento facial, veículos elétricos e energias limpas. Em duas áreas há “empate técnico”: biotecnologia e poder computacional/mineração de dados. Os EUA lideram esses segmentos em termos de inovações já aplicadas, em funcionamento. Mas em termos de futuro, a China parece ter vantagem: possui o maior banco de dados do mundo de engenharia genética e é responsável por 40% das patentes na área de tecnologia – o dobro dos EUA. Numa área essencial, a disputa é a mais acirrada: Inteligência Artificial. Os EUA são líderes, mas a China está correndo atrás: tem como meta pública se tornar uma potência no setor até 2030.

No início dos anos 2000, quando eu cursava uma bolsa de estudos na Coréia do Sul, ouvi de um professor da Universidade Nacional de Seul: “o eixo do poder está mudando para o lado de cá. Fiquem atentos”. As palavras foram premonitórias, mas ele chamou a atenção para um ponto: costumamos nos esquecer que, no passado, o eixo era do lado “de lá”. Basta observar o gráfico abaixo, do Visual Capitalist, que desenha o movimento ao longo da História.

Você se lembra de um cenário bilateral como esse. Foi a Guerra Fria “original”, com letras maiúsculas, na qual EUA e Rússia começaram uma disputa velada sobre a dominação mundial assim que a Segunda Guerra Mundial terminou. A primeira Guerra Fria durou de 1945 até 1989, com a queda do Muro de Berlim. Naquele momento, os Estados Unidos despontaram como principal produtor e exportador de tecnologia do mundo, com vantagens estratégicas óbvias na economia e na política. Reinaram sozinhos até 2015, quando a China lançou o programa de governo “Made in China 2025”, com o objetivo de afirmar sua influência tecnológica globalmente.

“É o maior problema da América hoje. É o maior problema do mundo”, disse recentemente Henry Kissinger, a lenda-vida da diplomacia americana, num evento em abril.

Enquanto isso, no Brasil, a única empresa nacional de fabricação de chips – a Ceitec – foi extinta em dezembro de 2020.

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SOBRE O AUTOR

Eduardo Vieira é membro do Conselho Editorial da Fast Company Brasil.