Fazer perguntas é uma das habilidades mais importantes que possuímos, afetando não só nossa vida pessoal como também profissional. Mas por que então subestimamos o superpoder do porquê? Questionar não é fácil e exige reflexão e uma boa dose de humildade. O questionamento torna o conhecido misterioso novamente e nos coloca em uma posição vulnerável de ignorância.

Crianças naturalmente questionam tudo o que vêem, mas à medida que crescem entendem que ter as respostas é mais importante do que fazer perguntas. De acordo com a Harvard Business Review, estima-se que cerca de 70-80% dos diálogos entre crianças são feitos de perguntas. Entre os adultos, a estimativa foi de 15-25%.

“O questionamento é uma ferramenta excepcionalmente poderosa para liberar valor nas organizações: estimula o aprendizado e a troca de ideias, encoraja a inovação e a melhoria do desempenho e cria harmonia e confiança entre os membros de uma equipe”

Com uma queda tão drástica na frequência com que fazemos perguntas quando adultos, fica fácil entender o crescente interesse por este tema nos últimos tempos. Em um estudo de Harvard, pesquisadores pediram a um grupo de participantes que fizessem pelo menos nove perguntas em quinze minutos e a outro grupo de participantes que não fizesse mais do que quatro. Os participantes foram agrupados aleatoriamente na forma de encontros rápidos e bate-papos online.

Os resultados são interessantes: os participantes que fizeram mais perguntas foram mais apreciados pelos outros membros do estudo. Fazer mais perguntas deu aos participantes uma maior sensação de intimidade e fez com que se sentissem respeitados e ouvidos.

Em outras palavras, o estudo mostrou que fazer mais perguntas constrói inteligência emocional e contribui para melhores habilidades sociais – temas-chave para liderança no trabalho e para a construção de relacionamento interpessoal.

Empresas, instituições de ensino e pensadores se debruçam sobre o tema e buscam alternativas para esta questão. Eric Schmidt, ex-CEO do Google, dizia “Administramos esta empresa com base em perguntas, não em respostas”. Hal Gregersen, ex diretor executivo do Centro de Liderança do MIT e autor de diversos livros como “DNA do Inovador” apontou que fazer perguntas difíceis é essencial no mundo de hoje, “onde a globalização, a digitalização e a desrupção empurram os líderes à beira da incerteza e os forçam a descobrir o que não sabem.”

O Right Question Institute (RQI), instituição sem fins lucrativos sediada em Massachusetts, já treinou mais de 300.000 educadores em todo o mundo a estimular a curiosidade de alunos, ensinando-os a fazer perguntas.

Segundo o RQI, aprender a fazer suas próprias perguntas é importante porque:
* É uma habilidade fundamental – tão crítica quanto ler, escrever e aritmética.
* Uma democracia saudável depende da capacidade dos cidadãos de fazer perguntas.
* A capacidade de fazer perguntas não é uma habilidade que algumas pessoas possuem e outras não: é algo que todos podem aprender.
* Se você puder fazer perguntas, poderá navegar melhor em sistemas complexos e se envolver mais nas decisões que afetam você, sua família e sua comunidade.
* Ensinar e aprender é mais fácil e mais prazeroso quando os alunos fazem suas próprias perguntas.

“Fazer mais perguntas constrói inteligência emocional e contribui para melhores habilidades sociais – temas-chave para liderança no trabalho e para a construção de relacionamento interpessoal”

A importância das perguntas na agenda de dados
“Se eu tivesse apenas uma hora para salvar o mundo, gastaria cinquenta e cinco minutos definindo as perguntas e apenas cinco minutos encontrando as respostas”, é uma frase atribuída a Albert Einstein.

Por trás dessa citação está um insight importante: muito frequentemente pulamos para respostas sem dedicar tempo de qualidade para formular as perguntas certas. Essa inversão de prioridades é especialmente importante em nossa era de big data.

Muitas vezes cientistas de dados concentram mais tempo nas partes mais técnicas do processo – análise, modelagem, teste, visualização, e definindo “Quais dados temos ou devemos ter acesso?” ao invés de definir as perguntas certas, e a partir delas identificar os dados necessários para respondê-la.

Em seu mais recente projeto, o The GovLab (centro de pesquisa sediado na Universidade de Nova York) busca desenvolver uma nova ciência e prática de perguntas. O objetivo da Iniciativa 100 Perguntas, é identificar os 100 problemas mais urgentes que o mundo enfrenta e que poderiam ser resolvidos por um maior uso de conjuntos de dados existentes. Para isso, investem em formas de colaboração interdisciplinar, além das parcerias público-privadas.

A arte e ciência de fazer as perguntas certas

Embora fazer perguntas seja relativamente fácil, fazer as perguntas certas não é trivial, especialmente quando trabalhamos em projetos de dados. Em geral, a pergunta certa para a equipe de dados é:

• Estrategicamente importante: Freqüentemente, as equipes de dados tendem a desenvolver modelos poderosos para resolver problemas que não se relacionam diretamente para a estratégia da organização. Se a questão não apoiar um tema-chave para a organização, provavelmente não vale a pena prosseguir.
• Bem delimitada: Perguntas muito amplas não apontam caminhos claros de investigação, e portanto nāo geram insights valiosos. Ao invés de perguntar “Como posso vender mais?”, procure delimitar hipóteses e/ou investir tempo em perguntas mais objetivas, como “Devo investir mais ou menos no canal X?”
• Acionável: Apenas as perguntas cujas respostas podem ser postas em prática valem o investimento; caso contrário, eles apenas fornecem informações interessantes sobre as quais ninguém pode fazer nada.

Finalmente, para que as perguntas certas floresçam nas organizações é necessário existir uma cultura que incentive o questionamento, argumentação e experimentação.

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O questionamento é uma ferramenta excepcionalmente poderosa para liberar valor nas organizações: estimula o aprendizado e a troca de ideias, encoraja a inovação e a melhoria do desempenho e cria harmonia e confiança entre os membros de uma equipe.

Para algumas pessoas, questionar é fácil, mas a maioria de nós não faz perguntas suficientes, nem formulamos nossas perguntas de uma maneira ideal.

E você? Tem alguma pergunta para mim?

SOBRE A AUTORA

Adriana Knackfuss é head de Integrated Marketing Experiences (IMX) da Coca-Cola para a América Latina. Designer de formação, ingressou na The Coca-Cola Company em 2007. Foi líder de comunicação e marketing no Brasil, VP de transformação digital no Brasil e na América Latina e líder global do portfólio de marcas de sabores na matriz da empresa, em Atlanta (EUA).