A pandemia nos privou, entre tantas outras coisas, da experiência da cidade. Ao forçar o fechamento dos locais de convivência e sociabilidade, como bares, restaurantes, parques, teatros e cinemas, ela nos afastou da rua (exceto no caso daqueles que precisaram continuar trabalhando presencialmente e assim ficaram mais expostos). A vida social acontecia nesses espaços, responsáveis por muitas de nossas memórias afetivas e relacionamentos sociais. Mas, se por um lado a urbanidade foi totalmente interrompida por vários meses, de outro a Covid-19 gerou um efeito inesperado: a cidade veio até nós. Ela entrou em nossas casas de diversas formas, seja por meio de atrações culturais, lives, do turismo virtual ou pelas novas formas de ativismo que ganharam força do ano passado para cá, como as projeções nas fachadas de prédios – que transformaram as empenas em potentes suportes de mídia distribuídos e coletivos – transmitidas em tempo real pelo Instagram ou Facebook. 

Se por um lado a urbanidade foi totalmente interrompida por vários meses, de outro a Covid-19 gerou um efeito inesperado: a cidade veio até nós.

A cidade foi expandida pelas redes numa dimensão como nunca havíamos experimentado antes. E assim deve continuar no pós-pandemia, com a vida cada vez mais híbrida, com atividades presenciais intercaladas com períodos para trabalhar, estudar e consumir cultura de forma remota, e com o celular – o nosso controle remoto urbano – flagrando sem parar a paisagem e as cenas da cidade.  

Isso nos leva a algumas reflexões. Será que a impossibilidade de vivenciar a cidade por um tempo tão longo vai nos fazer enxergá-la de uma forma diferente nesse retorno? Qual será o impacto dessa cultura híbrida em nossa relação com os lugares? Como isso pode afetar, por exemplo, os setores cultural e de entretenimento? Que tipo de inovações ou criações podem surgir por conta disso? 

NOVOS ESPAÇOS CRIATIVOS 

Um ponto interessante nessa reflexão é que a digitalização acelerada pelo coronavírus, em vez de esvaziar, ampliou os espaços daquilo que antes só existia no mundo físico, como o teatro. Claro, não no momento da quarentena, mas daqui pra frente. Os espetáculos digitais foram inaugurados com a pandemia, e agora os artistas têm a possibilidade do físico e também do online, ampliando os limites de público e permitindo experimentar novos caminhos criativos. 

A Cia de Teatro Os Satyros, grupo de São Paulo que já se apresentou em mais de 20 países e recebeu 53 prêmios – nacionais e internacionais – em mais de 30 anos de carreira, é um bom exemplo disso. Sua sala na Praça Roosevelt, no centro da capital paulista, tem capacidade para aproximadamente 80 espectadores. No online, só a peça digital A Arte de encarar o medo já superou 27 mil pessoas em mais de 100 apresentações de junho de 2020 para cá. O projeto já teve diferentes encenações internacionais, com atores de diversas partes do mundo, como Europa, Estados Unidos, Ásia e África, que nunca se viram pessoalmente, mas ensaiaram e se apresentaram a distância, via Zoom. 

Agora os artistas têm a possibilidade do físico e também do online, ampliando os limites de público e permitindo experimentar novos caminhos criativos.

Essa foi justamente a grande inovação trazida pelo Satyros, o que coloca o grupo como pioneiro no teatro virtual no Brasil. “Descobrimos o teatro digital e não queremos parar. Recentemente estávamos fazendo uma oficina e tinha gente do Acre, do Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo”, diz à coluna Ivam Cabral, cofundador do Satyros. “Eu não quero perder isso. Conciliar essas duas coisas, trabalhar nesses dois lugares, vai ser fundamental”, diz, referindo-se ao teatro presencial e virtual.  

A tendência de fortalecimento do híbrido deve levar a uma nova maneira de pensar a cidade. A presença dos lugares não será apenas física, mas também virtual, levada para qualquer canto do mundo por meio de uma tela de videoconferência ou celular. “Nesse espaço que o Satyros vai ocupar de forma digital, por mais que o digital esteja espalhado pelo mundo inteiro, as pessoas sabem que o Satyros é de São Paulo e da Praça Roosevelt”, afirma Rodolfo García Vázquez, cofundador do Satyros. “O que vai acontecer é que você vai localizar os espaços de convívio, mas sempre trazendo a cidade junto. A cidade vai se expandir. Ela vai ter uma dimensão física, territorial, geográfica e uma digital, que é outro território, outra geografia.”

ARTE E ATIVISMO NAS JANELAS 

Outro exemplo de cidade expandida são as projeções noturnas nas empenas de prédios de grandes cidades como São Paulo. Esse formato já existe não é de hoje, mas foi só durante a pandemia que essa linguagem se disseminou pra valer. A angústia, solidão e também a indignação política fizeram das paredes dos edifícios a mídia para comunicar de tudo um pouco: poesia, palavras de conforto, fotografias, desenhos e mensagens de protesto contra o negacionismo e a postura do governo em relação à Covid-19. 

Ir para a janela à noite acompanhar, fotografar e filmar ou apenas observar as performances visuais se tornou um programa compartilhado por milhares de pessoas, de suas janelas, em diferentes cidades. O projeto A Cara da Vila Buarque, no Centro de São Paulo, por exemplo, fez projeções de retratos de moradores do bairro e as transmitia em lives no Instagram. Foi nesse período também que surgiram vários coletivos de VJs em diferentes cidades com o objetivo de projetar mensagens de protesto contra o governo e desfazer fake news anti-ciência – e um desses grupos foi o Projetemos, de São Paulo, que usa o Instagram para divulgar suas intervenções nas fachadas. 

Esse movimento específico foi chamado de a “revolta das janelas” pela artista, pesquisadora de arte digital e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) Giselle Beiguelman. “A coisa mais interessante, mais relevante, mais importante que está acontecendo em termos culturais no contexto do coronavírus são as projeções nas fachadas. Elas acontecem em todo o país, em diferentes cidades, compondo uma espécie de performance coletiva e anônima”, disse em vídeo no canal da FAU no YouTube. “O confinamento dá vazão a novas formas de ativismo e a estéticas que são construídas por e através das janelas. O ativismo político de tomada das empenas pelas imagens no contexto atual é radicalmente distinto de qualquer outra ação que já ocorreu envolvendo projeções em escala urbana.”

O confinamento dá vazão a novas formas de ativismo e a estéticas que são construídas por e através das janelas.

Ao que tudo indica essas experimentações artísticas que levam a realidade da vida urbana para dentro de nossas casas devem permanecer. E esse futuro híbrido, que artistas digitais e empreendedores da área cultural como Ivam e Rodolfo, do Satyros, estão construindo, serve de inspiração para startups, designers, publicitários e profissionais das mais diversas áreas. Afinal, estamos diante de um momento repleto de incertezas e transformações, e a cidade é a grande arena de tudo isso. A maneira como vamos conciliar digital e presencial terá impactos diretos na cultura, como falamos, mas também nas áreas de gastronomia, turismo, mobilidade, educação, entretenimento, eventos e comunicação, apenas para citar alguns exemplos. Essa jornada está apenas no começo. É tempo de repensar a cidade e a nossa relação com o urbano, que pode ser ainda mais inovadora e criativa.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem.