Ao contrário do que muitos pensam, as práticas de liderança pouco têm a ver com um cargo específico, mas sim com comportamento. Muito além de planejar, criar estratégias, definir ferramentas, apontar e orientar direções, liderança é sobre inspirar pessoas. Todo líder tem uma noção básica de como gerir, porém você só se torna um bom gestor se entende as especificidades da área e, em paralelo, impulsiona e impacta os demais a se comprometerem com as missões e a excelência. Lembro de um gerente que passou pela minha trajetória e o ponto que mais me marca é a liderança gentil que ele tinha, bastante distante daquele perfil de chefe que grita ou que bate na mesa. Ele se destacava por ser transparente e entender os meus valores, o que era importante para mim e para a empresa. Isso faz toda a diferença!

Enquanto liderança, sempre me questiono sobre o que eu quero atingir e vejo que os meus valores estão altamente ligados a propósito. Quando há oportunidades à minha frente, eu as alcanço e encorajo outras pessoas a sonhar em atingi-las. Cito aqui o programa Conselheira 101, que nasceu de um incômodo, de uma reflexão sobre a ausência de mulheres negras em conselhos de administração. É algo que me atravessa. Lembra que eu falei que liderança envolve comportamento? Pois bem, ela depende de movimento. Movimentar-se por coisas maiores, por mudanças, para influenciar o outro e abrir portas.

“Pessoas que seguem pela rota corporativa, normalmente, demoram três, quatros, cinco anos para ascender e o que você tem de bagagem pode ser decisivo para o seu sucesso.”

Um líder se constrói com vivências. Na minha trajetória, atribuo meu sucesso às várias oportunidades que tive em minhas formações, trabalhos voluntários e empresas por onde passei, um conjunto de coisas. Comecei a trabalhar como voluntária nos projetos sociais da minha mãe ainda muito nova e essa experiência me trouxe muitas skills de organização de eventos, convencimento e vendas. Já na faculdade, me encontrei como palestrante e dei aulas para os docentes (pois é!) discursando sobre educação e direitos humanos. Depois, passei pela AIESEC e fiquei por um bom tempo liderando o escritório local, sendo coordenadora nacional e, mais tarde, diretora internacional. Por último, tive um grande aprendizado no Grupo Mulheres do Brasil, fundado pela Luiza Trajano, co-liderando o Comitê de Igualdade Racial.

Gosto de resgatar as habilidades que adquiri e que aprimorei nessas trocas, porque são referências, um ponto de partida. É como um exercício, por exemplo, quando eu não tive a oportunidade de ter um cargo de liderança na Microsoft, aprimorei a líder em mim no Grupo Mulheres do Brasil. Quando eu não tive ferramentas para criar projetos, direcionei meu potencial criativo a outros espaços, graças à ótica de voluntariado que construí. Essas ações foram e ainda são determinantes para a construção dos meus próximos passos, pois há um diferencial aí, o desenvolvimento de soft skills, que, neste contexto, não encontro em ambientes corporativos. É fora do escritório que eu me potencializo.

Sempre fui muito observadora e, para a minha carreira, ser espectadora é um diferencial, vai muito além de conhecer a organização. Eu, particularmente, preciso entender os ciclos de liderança e as confluências que me cercam e se cruzam. Isso sempre foi meu ponto forte, aprender com os outros, com quem já tenha trilhado esse caminho, afinal eu não preciso reinventar a roda. Pessoas que seguem pela rota corporativa, normalmente demoram três, quatros, cinco anos para ascender e o que você tem de bagagem pode ser decisivo para o seu sucesso. Não me considero uma pessoa ambiciosa, não é sobre milhões. É sobre me conhecer, me permitir planejar, mas ajustar a rota quando necessário. E, acredite, isso impacta o outro também.

Tem uma frase que digo sempre que é: “A gente só sonha o que a gente vê”. E o que quero dizer com isso é que em meu caminho tive e tenho várias mãos me impulsionando e destacando as minhas potencialidades, quando as esqueço por alguma adversidade. Eu quero ser essa pessoa também. Estou em construção, mas tenho em mim o sentimento de dever cumprido, porque o que a gente joga para o mundo, retorna muito maior. Acredito na liderança humanizada, visionária e transformadora. Meu papel é ser lente para que aqueles que caminham comigo possam enxergar a grandiosidade de ser o que quiserem.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.