Afinal, o que faz um conselheiro? Essa foi a pergunta que começou a pairar na minha mente no último ano, em meio à pandemia. De antemão, já adianto as premissas básicas do que se trata o Conselho de uma empresa. Academicamente falando, governança corporativa é o sistema de relações em que sociedades são dirigidas e monitoradas. Traduzindo, isso envolve os relacionamentos entre acionistas/cotistas, conselho de administração, diretoria, auditoria independente e conselho fiscal, de acordo com o IBGC (Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC, 2015).

Na minha visão sempre em construção, Conselho é uma estrutura comum na governança de empresas, órgãos do governo e até de organizações sem fins lucrativos. Um grupo de profissionais, geralmente C-level e com mais de uma década de experiência (as estatísticas dizem, não eu), acompanha o trabalho realizado pela diretoria. São de 3 a 30 pessoas majoritariamente falantes e com diferentes visões em uma mesma sala: garantia de um ambiente caórdico (como diz minha referência, Luiza Trajano).

Existem dois tipos de conselho, o administrativo e o consultivo. O primeiro tem uma atuação deliberativa, e o segundo atua mais como um mentor para a organização, oferecendo pareceres e recomendações que podem ou não ser adotados. No caso de empresas de capital aberto, os membros atuam como “a voz dos acionistas” nas decisões mais importantes. Os conselheiros são responsáveis por acompanhar e orientar a estratégia e o orçamento anual da organização, contratar e avaliar a performance do CEO/presidente e deliberar sobre investimentos e movimentos estratégicos. Por disso, o ideal é ter pessoas com diferentes perspectivas, assim, a probabilidade de se tomar uma decisão equivocada ou longe da ideal é menor.

Na época em que os questionamentos sobre a função de um Conselho foram levantados, eu já atuava como conselheira do Fundo de População da ONU, mas, por ser um órgão consultivo, o foco maior é em questões de implementação de políticas, reviews de projetos e análises críticas. Hoje, além do conselho das Nações Unidas, ocupo também o board consultivo da Kunumi AI e o emérito do Capitalismo Consciente Brasil.

“Conselheiros são responsáveis por acompanhar e orientar a estratégia, avaliar a performance do CEO e deliberar sobre investimentos e movimentos estratégicos. Por isso, o ideal é ter pessoas com diferentes perspectivas”

Considerando que eu tenho muita clareza sobre meus valores, e um deles é, sem sombra de dúvida, a diversidade, passei a analisar cirurgicamente a ocupação nesses conselhos. Não quero ser peça única nesses espaços, e sinceramente, quando comecei a pensar no tema, era para desenvolver uma trilha em dez, 20 anos, já que estatisticamente um conselheiro no Brasil tem mais de 50 anos. Foi então que surgiu a ideia do Conselheira 101. Naquele momento, eu estava pensando em algo a longo prazo, observando as pesquisas. Em um futuro não tão longínquo, me via ocupando uma cadeira de conselho administrativo. Mas eu precisava agir depressa, dar um impulso nessa mudança que eu quero ver nos próximos anos.

Nesse contexto, o Conselheira 101 surge com a união da potência de oito mulheres (que, diga-se de passagem, não tenho nem roupa para andar junto). Trata-se de uma iniciativa sem fins lucrativos de incentivo à presença de mulheres negras em conselhos de administração. O projeto conta com o apoio da KPMG e da WCD (Women Corporate Directors) Foundation e tem como objetivo ampliar o conhecimento de executivas em relação aos desafios da jornada de uma conselheira de administração. Desenvolvemos um programa de mentoria que selecionou 20 mulheres negras C-level, que só precisavam de um empurrãozinho para se prepararem para um cargo no conselho.

Assumir a cadeira de um conselho requer, além de vasta experiência, certificações e cursos para aprimoramento das boas práticas de governança corporativa. O IBGC é o principal órgão para completar a trilha rumo ao board de conselheiros. Entre os cursos ofertados estão Desenvolvimento em Governança para Executivos, Certificação para conselheiro de administração (CCA) e Certificação para membro de comitê de auditoria (CCoAud) – tanto para atualização de quem já faz parte de comitês quanto para quem está em busca de uma primeira oportunidade.

Por meio do Conselheira 101, ampliamos o conhecimento de lideranças femininas negras nos temas relacionados ao papel de conselheira, como as responsabilidades, a formação e os desafios, e incentivamos o networking das participantes dentro da comunidade de membros do board e empresas. Entre os temas discutidos, levantamos, por diversas vezes, as características principais que um conselheiro precisa ter para ocupar o cargo. E eu, que sempre me perguntava como poderia mover o topo da carreira corporativa, vi a olhos nus o Conselheira 101 abrir uma nova vertente na minha vida e materializar tudo o que acredito.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.