Já há algum tempo venho tentando entender o porquê do acirramento das polaridades mundo afora. Não é um fenômeno brasileiro e também não se restringe à pauta política. Polaridades em diversas dimensões, para diversos temas, com intensidades crescentes. 

E não é uma questão meramente de discordância. Eu gosto disso, a outra pessoa gosta daquilo.

O que assusta, e exige de todos nós uma reflexão e, mais ainda, ações, é a escalada de violência no discurso e, pior, na convivência para além das mídias e redes sociais.

Ter opinião distinta deixou de ser uma possibilidade de se enriquecer o debate, de sair da mesmice e do status quo, de se olhar para outros universos e valores.

Curiosamente, quando as redes sociais apareceram há mais de 20 anos, uma das minhas esperanças como participante do terceiro setor, e, creio, de todas as pessoas participantes ou integrantes de segmentos minorizados, é que a partir dali se poderia expandir o alcance das causas para muito além dos círculos quase sempre restritos a um modelo de comunicação que operava basicamente de pessoa a pessoa.

Não havia interesse da mídia, nem verba para se fazer notar nos principais meios e canais de comunicação de massa.

Com o surgimento das redes sociais, as pessoas se tornaram proprietárias de canais de comunicação. Dentro dessa lógica, essa possibilidade com alcance inicialmente limitado, mais ainda assim maior do que o que se tinha, permitiria trazer mais e mais pessoas para a conversa. O que não só fortaleceria aquele propósito, mas iria abrir mais visões e perspectivas a respeito da sociedade na qual vivemos.

Corta a cena. O que vimos nos últimos anos foi o recrudescimento de visões extremadas, a consolidação das multipolaridades, nas quais o discurso se estrutura entre nós e eles, em diversas dimensões.

Sendo, é claro, que nós somos muito bons, sabemos o que estamos fazendo, estamos no caminho ideal para todos, devemos liderar e eles…

Bem, eles são os outros. 

Sem nenhum valor, sem nada a oferecer, mentirosos, incompetentes, risco para todos, que não nos levarão a lugar nenhum.

A continuidade dessa tomada de posição tem destruído amizades, negócios, possibilidades e tornado o futuro ainda mais incerto. 

Apontar as diferenças e desqualificar o outro virou exercício rotineiro.

Quem quiser entender o que é isso, basta olhar os comentários nas notícias, não importa qual seja, nos sites e nas redes.

Por vezes, é difícil compreender como chegamos a determinados debates.

Quer dizer, não são debates. São monólogos sequenciais.

Mas como dizia a frase nos idos da década de 70, “pior do que consentir e calar; é não consentir e calar”. 

E eu não concordo com essa lógica que vai se cristalizando, que derrubou o lado positivo, muitas das vezes, do jeitinho brasileiro, do acordo mesmo sem concordar só para evitar o confronto.

O desafio agora não é a convivência. É redescobrir as pontes. Estabelecer uma pauta comum.

Olhando pesquisas recentes e lembrando de outros estudos ao longo de 30 anos, vemos que determinados assuntos são historicamente colocados como urgentes para serem tratados no Brasil.

São pontos de convergência pela urgência de solução.

Entre eles, podemos citar a educação para crianças e jovens, saúde de qualidade para a população, moradia, segurança, amparo à velhice, geração de trabalho. E agora, novamente, e ainda mais urgente, por conta da pandemia, a fome.

Esses temas são considerados prioritários, ao longo dos anos, pela maioria dos entrevistados.  Mas estão se perdendo em substratos da conversa, em visões de condução, mas, com certeza, esse grupo de demandas é o que nos une.

E assim, se temos algo que nos une, se existe uma concordância quanto à urgência e inevitabilidade de se combater essas carências, a pergunta que fica é: como vamos encontrar caminhos para recuperar a capacidade de conversar sobre o que nos une e não sobre o que nos afasta?

O que nos une além desses temas?

Como podemos retomar a conversa?

Como restabelecer o espaço de conversa e convivência com aquele amigo que você tirou da lista, bloqueou, pediu para não ser mais avisado de nenhuma atividade, post, nada, mas que foi seu amigo um dia e com o qual você tinha coisas que os uniam?

Que tal recomeçar por aquilo que um dia os uniu e trazer essa conversa como o primeiro espaço para se restabelecer o respeito pela opinião alheia, sem que isso nos embace a visão do que realmente é preciso fazer?

Estamos exauridos do conflito. 

É como pedir um tempo. Um tempo para se respirar.

Um tempo para abrir novas e velhas possibilidades com uma pergunta que começa assim: E SE? 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marco Antonio Souto é head de estratégia do Grupo Dreamers e ativista da causa do Idadismo.