Falar de saúde, principalmente em tempos de pandemia, pode parecer prolixo. Mas a minha experiência de consultório me conta que infelizmente muitas pessoas ainda não entenderam o real significado dela.

Saúde é um conceito amplo, que fala sobre todos os aspectos da nossa vida. Não se limita ao que comemos ou à atividade física que fazemos.

Analisando os povos mais longevos do mundo, as Blue Zones, podemos observar vários aspectos interessantes aos quais esses 5 povos, localizados em lugares totalmente diferentes entre si, mantêm as taxas de doenças crônicas abaixo da linha média. E não só vivem mais, vivem com qualidade até os últimos anos de vida.

O que eles fazem de certo? O que nós fazemos de errado?

Analisando o comportamento desses povos, podemos aprender sobre propósito, comunidade, prática espiritual e o conceito da família em primeiro lugar. E se quisermos entender também o que eles comem, fica fácil, alimentos de origem local, respeitando as estações do ano, sem consumo de alimentos ultraprocessados e baixa ingestão de açúcar.

As gorduras são de origem natural, então não estamos falando de óleos vegetais e de margarina. E a atividade física não se reduz a uma hora de academia por dia, são ativos o dia todo, pois também optaram por usar menos carros e controles remotos, assim usufruem do corpo para realizarem todas as atividades da rotina, e obviamente não passam o dia em frente à luz do computador.

Na pandemia utiliza-se o termo “o novo normal”. O novo normal de agora seria usarmos máscaras, fazer home office e utilizarmos álcool gel a cada pouco? Jura?

Porém quando estudamos mais a fundo essas comunidades, podemos identificar um ponto decisivo na longevidade e vitalidade desses indivíduos: o fator felicidade.

Ser feliz parece ser a qualidade mais importante para a saúde do ser humano. Ser feliz…

Ser feliz melhora a resposta ao estresse e consequentemente a resposta imunológica. E se colocássemos uma lupa de aumento só nessas duas situações, já poderíamos destrinchar uma tese de mestrado.

O estresse é o maior disruptor do nosso organismo. E hoje o normal é ser estressado. Acho que faz anos que não encontro alguém que me diga que está completamente satisfeito com seu corpo e sua mente, seu trabalho ou condição financeira. É a famosa frase: Tudo não terás.

Mas por que não? Será mesmo que nós não poderíamos viver a plenitude da vida? Já pensou você amar se olhar no espelho todos os dias e quando chegar na sala do café da manhã, trocar conversas carinhosas com seus familiares, ir trabalhar naquela atividade que te faz extremamente feliz, ter amigos com os quais você se importa e que também cuidam de você, ser de verdade a sua melhor versão…?

Na pandemia utiliza-se o termo “o novo normal“. O novo normal de agora seria usarmos máscaras, fazer home office e utilizarmos álcool gel a cada pouco? Jura?

Para mim, o novo normal traz o NOVO. Hora de repensar a vida e o consumo, o corpo, a alma, a saúde.

Quando eu comecei a trabalhar com pacientes em uso de Cannabis medicinal, observei que de uma certa forma todos tinham algo em comum; a saúde fragilizada e o uso de extensas listas de medicamentos. Isso chamou muito a minha atenção, pois todos estavam tão bem medicados, por que ainda precisavam de ajuda?

Porque remédios não curam. E quando a gente consegue entender que o que nos torna saudáveis ou doentes não é a nossa genética e sim nossos hábitos, podemos lembrar das Blue Zones. Nossos hábitos são quem nós somos. Falam tudo sobre nós.

A nossa biologia, circuito neural, neuroquímica, neuro-hormônios e mesmo nossa expressão genética são a expressão da forma como pensamos, agimos e como sentimos.

A forma como você pensa, age e sente é a sua personalidade.

E a sua personalidade cria a sua realidade pessoal. É simples assim.

Hábitos inconscientes, reações emocionais automáticas, crenças, percepções e mesmo atitudes que funcionam exatamente como um programa de computador nos levam sempre ao mesmo lugar. E quando percebemos estamos esgotados, estressados, tristes e sem saúde.

Somos a somatória da nossa vida aprisionada dentro de nós. E se não nos tratamos corretamente, como vamos expandir esse conceito aos outros seres humanos, aos animais e ao planeta?

O novo normal me parece um grande chamado para o despertar. Temos acesso a informações e podemos ser a transformação que queremos ver no mundo. Podemos escolher onde vamos viver, o que vamos comer e com quem vamos dividir a nossa vida. E a pandemia, para muitos, foi a força motriz da mudança.

Quem entendeu que é preciso ter saúde para enfrentar essa e as outras que virão, entendeu o jogo da vida, e do novo normal.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Paula Dall’Stella é médica e fundadora da Sativa Global Education e integra a equipe do Núcleo de Cannabis medicinal do Hospital Sírio Libanês. Em seu podcast, New Normal, ela fala sobre o uso terapêutico da Cannabis.