O teste real da sustentabilidade começa quando o orçamento acaba

A gestão moderna deve ser avaliada pela capacidade de gerar resultado financeiro, social e ambiental de forma que um sustente o outro

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Luana Ozemela 4 minutos de leitura

Durante muitos anos, a discussão sobre impacto e sustentabilidade foi sobre convencer empresas a investir. Hoje ela é outra, e mais incômoda: quais compromissos sobrevivem quando os recursos ficam mais escassos e a pressão por eficiência aumenta.

Passei os últimos anos observando essa agenda sair da margem do discurso corporativo e migrar para o centro da conversa sobre crescimento. O que aprendi nesse caminho é que o principal desafio nunca esteve onde quase todo mundo procura. O problema raramente está na intenção, está na arquitetura.

Quando a pressão aperta, a primeira pergunta que aparece nas mesas de decisão é se a agenda de impacto sobrevive a um corte de orçamento. A resposta honesta exige admitir que boa parte do que o mercado construiu nos últimos anos foi feita para ser vitrine, e vitrine não resiste a um trimestre difícil.

Uma agenda desenhada como área apartada, com orçamento próprio e narrativa própria, sempre será a primeira candidata ao corte, porque ninguém defende com convicção aquilo que não está costurado à operação que gera receita.

Eu mesma demorei a enxergar isso. Já defendi abordagens generosas no papel que não tinham a menor chance de sobreviver a um ciclo de baixa, porque dependiam de orçamento abundante e de um humor de mercado que nunca é permanente.

Impacto que depende de tempos de bonança é impacto frágil. Metas desenhadas no calor de um ciclo de alta dificilmente sobrevivem quando o vento vira, e isso raramente tem a ver com intenção, tem a ver com arquitetura.

A frente de redução de resíduos foi a que mais me ensinou sobre o tamanho dessa dificuldade. No iFood, acompanhei de perto um esforço que testou várias iniciativas para avançar nessa agenda.

A mesma inteligência que torna uma operação mais eficiente pode tornar o impacto mensurável.

O que ficou claro é que o gargalo real raramente está na tecnologia ou na boa vontade, está no custo. Alternativas mais sustentáveis que pesam mais no bolso da cadeia do que ela consegue absorver não escalam, por mais bem-intencionadas que sejam.

Demorei a aceitar que insistir no contrário é confundir propósito com voluntarismo. Sustentar o compromisso enquanto se reconhece com honestidade que a escala ainda não fecha é o tipo de decisão difícil que separa quem trata impacto como estratégia de quem ainda o trata como reputação.

No cenário atual, com todo mundo perseguindo resultado, há algumas coisas que não podem sair do radar.

A primeira é a integração ao core. Enquanto a agenda de impacto for uma conversa que acontece em uma sala e a conversa sobre lucro acontecer em outra, sempre haverá um momento em que as duas entram em conflito e a segunda vence. A forma de evitar isso não passa por proteger a agenda da lógica de negócio, passa por submetê-la a essa lógica.

Quando se consegue demonstrar que cuidar da base que sustenta a operação fortalece o próprio negócio – e vi isso ficar concreto em iniciativas de educação como o Meu Diploma do Ensino Médio –, a agenda deixa de ser custo a ser justificado e passa a ser variável de crescimento a ser defendida.

setas apontando para o alto indicam crescimento sustentável
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A segunda coisa que não é negociável é o papel da liderança. Sustentação de agenda não se delega para uma diretoria específica para depois cobrá-la isoladamente. Ela se decide no topo, repetidamente, especialmente nos momentos em que seria mais fácil recuar.

Liderança em sustentabilidade se prova menos nos anúncios e mais nas escolhas que ninguém vê, quando existe a opção de cortar um investimento de impacto para entregar uma meta de curto prazo e a decisão é manter, porque se entendeu que aquele corte custa caro lá na frente.

Essa coerência sob pressão é o ativo mais difícil de construir e o mais fácil de perder.

Olhando para frente, acredito que a próxima fronteira da agenda está em deixar de medir intenção e passar a medir resultado integrado.

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Por anos, o mercado se contentou em contar quantos projetos uma empresa mantinha e quanto investia neles. A pergunta que vai ganhar relevância é sobre o que de fato mudou na vida de quem deveria ser impactado e se isso se traduziu em um negócio mais resiliente.

Gestão moderna não pode mais ser avaliada só pela margem, mas pela capacidade de gerar resultado financeiro, social e ambiental de forma que um sustente o outro. Quem não conseguir mostrar essa conexão vai ter dificuldade crescente para atrair capital paciente.

Tecnologia entra exatamente nesse ponto, e é onde vejo a maior aceleração possível. Operações de grande escala produzem dados que, bem usados, permitem enxergar impacto em tempo real em vez de no relatório anual.

impacto ambiental e responsabilidade corporativa

A mesma inteligência que torna uma operação mais eficiente pode tornar o impacto mensurável. Manter essas duas inteligências separadas é desperdiçar a maior vantagem que uma empresa de tecnologia tem.

A parte difícil da agenda de impacto nunca foi convencer alguém de que ela importa. A parte difícil é mantê-la de pé quando manter custa caro e abrir mão sai barato no curto prazo.

Liderança em impacto não se prova nos anúncios, se prova nas escolhas difíceis feitas quando seria mais fácil recuar. Essa conversa, sobre o que estamos dispostos a sustentar quando ninguém está olhando, é a que mais falta no mercado hoje.


SOBRE A AUTORA

Luana Ozemela é Chief of Sustainability Officer do iFood, Conselheira do Global Future Councils 2025, iniciativa do Fórum Econômico Mu... saiba mais