Os filmes de ficção científica do século passado previam um futuro em que seria possível viajar no tempo e espaço. Os anos se passaram e o futuro chegou – trazendo desafios que, paradoxalmente, foram e ainda são subestimados.

Enquanto Elon Musk, fundador da SpaceX (dedicada ao desenvolvimento de tecnologia e transporte aeroespacial) se mostra incansável na meta excêntrica de ocupar outros planetas, ironicamente investe-se bem menos na ciência que, de fato, impactaria positivamente a vida das pessoas no nosso planeta. Não que eu não queira passar umas férias em Marte, mas por que não defender o planeta Terra com a mesma obstinação com que Musk tem de transformar em realidade o que ele assiste no cinema?

É verdade que as grandes corporações já entenderam que estar alinhadas aos princípios de ESG (a sigla para as governanças ambientais, sociais e corporativas) é bom para os negócios. Hoje, os grandes fundos globais de investimento atribuem selos que afetam direta e indiretamente o valor de mercado das empresas em que investem. Em 2020, a BlackRock, maior gestora de investimentos do mundo, anunciou para executivos e clientes que esse seria critério fundamental nas suas decisões de negócios. Um empurrãozinho e tanto para quem ainda não havia percebido o quanto esse tema era urgente.

“Em 2015, a ONU falou sobre a importância do consumo consciente. Em 2018, o Greenpeace publicou um relatório recomendando a redução de 50% no consumo de carne e derivados até 2050.”

Mas também é verdade que, enquanto negócios não nascerem com esse propósito, enquanto as pessoas por trás das grandes empresas não estiverem de fato motivadas para além das prestações de contas em relatórios anuais de sustentabilidade, ainda estaremos vivendo o futuro do pretérito. Continuaremos presos a conflitos que ainda não conseguimos resolver nos últimos 100 anos, como equilibrar o desenvolvimento com uma lógica de preservação da Terra, deixando para trás (de vez) a mentalidade exploratória que sustenta um modelo de capitalismo no qual não acreditamos mais.

O mais preocupante é que essa mesma mentalidade exploratória, se não fizermos nada, vai persistir quando Musk, finalmente, chegar a Marte em 2030.

Não precisamos de outros planetas para entender que essa mentalidade é falha. A conta não fecha.

Desde que entendi que o empreendedorismo iria nortear a minha vida, tenho buscado carregar como propósito revolucionar a indústria de alimentos no país. Com a minha mais recente empreitada (produzir carne à base de plantas), estamos alcançando vários países no mundo trazendo uma solução para o fato, hoje inquestionável, de que precisamos diminuir o consumo de carne para desacelerar os impactos negativos do agronegócio no meio ambiente.

Em 2015, a ONU, através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, falou sobre a importância do consumo consciente. Em 2018, o Greenpeace publicou um relatório recomendando a redução de 50% no consumo de carne e derivados até 2050, como parte de estratégia para diminuição da emissão de gases poluentes, que acelera os efeitos do aquecimento global.

Minha batalha é pela solução e pela diversidade em nosso planeta. O modelo de negócio da Fazenda Futuro nunca foi uma afronta aos frigoríficos. Nunca os vi como inimigos, e sim como parte de um problema que eu acredito que a ciência e a tecnologia podem resolver.

Podemos desenvolver novos processos e ser mais eficientes. Podemos – e devemos – acreditar que é possível praticar atividades que são necessárias para a sobrevivência da humanidade de uma forma mais sustentável, sempre olhando para o longo prazo. Basta investimento e vontade.

Precisamos aproveitar a terra como se houvesse amanhã. Porque haverá. Esse é o tipo de reflexão que busco inspirar em quem me segue.

Felizmente, muitos já despertaram da percepção mais pessimista do cenário que temos. O Planeta Terra tem, sim, jeito. E há várias experiências ao redor do mundo que caminham para ressignificar atividades que são importantes para atender quem habita o planeta hoje, sem que deixem marcas que inviabilizam a vida de quem vai habitá-lo amanhã. São passos pequenos, mas importantes para avançarmos nessa causa.

Quando vejo Musk sonhando com um futuro em outro planeta, embora seja deste planeta Terra que ele extraia as reservas de lítio que viabilizam suas excentricidades, mais me vejo parte de um movimento que se contrapõe a essa ideia de desenvolvimento. Uma ideia que pressupõe, nas entrelinhas, que estamos em terra esgotada e que, por isso, já não vale mais investir nela.

Desistir? Jamais. Meu ideal de futuro está aqui. Acredito no nosso planeta. Acredito na ciência. E tenho orgulho de me apoiar nos pilares do desenvolvimento sustentável.

É por esse futuro que eu acordo todos os dias.

Por qual deles você luta?

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marcos Leta é fundador da Fazenda Futuro e sucos Do Bem.