De zero a dez, qual seu nível de irritação quando você não consegue uma conexão com a Internet?

No trabalho, quantas ligações o “pessoal da TI” costuma receber quando a “rede cai”? Quanto a sua produtividade é afetada nos momentos em que você está desconectado?

Eu me lembro da cara de espanto de um ex-chefe meu, CEO de uma multinacional, quando, certa vez, o informei sobre minhas férias. O espanto não foi por ter pedido 30 dias seguidos, mas quando ele soube para onde eu iria. “Mas nesse lugar não tem Internet. Você vai ficar desligado do mundo. Não que eu queira falar com você nas suas férias, mas… você consegue?”

Evidentemente que é possível ficar desconectado do mundo e ainda assim aproveitar momentos de prazer e até mesmo manter um ritmo de produção e produtividade minimamente aceitáveis. Afinal, comercialmente falando, a Internet sequer tem 30 anos no Brasil. Contudo, é inegável que estar conectado a quase tudo nos proporcionou benefícios incríveis e oportunidades de negócios que sequer poderiam ser imaginadas antes de 1995.

Uma nova revolução está por vir com a chegada do 5G. Mas enquanto aguardamos esse processo e tudo o que virá com ele, haveria ainda por aqui algum lugar possível de se gerar oportunidades com o que já termos hoje?

A resposta é sim.

A atividade agropecuária no Brasil, ou seja, só aquilo que é produzido dentro das porteiras nacionais, está com um valor estimado para 2021 em mais de R$ 1 trilhão. Você não leu errado. Toda a soja, milho, boi, leite, alface, tomate, berinjela, café, cana e tudo mais que é produzido dentro das fazendas do país, sejam elas grandes ou pequenas, vale pouco mais de R$ 1 trilhão. Essa cifra é gerada a partir da ocupação produtiva de pouco mais de 250 milhões de hectares, ou 2,5 milhões de quilômetros quadrados. Cerca de 30% do território nacional.

Do total dessa área ocupada pela agricultura e pela pecuária no Brasil, apenas metade conta com conexão à Internet móvel.

Em julho do ano passado, a ConectarAgro, entidade formada por empresas como CNH Industrial, AGCO, Jacto, Climate FieldView/Bayer, Nokia, TIM, Trimble e Solinftec, anunciou a meta de levar uma rede 4G para 13 milhões de hectares rurais. Em dezembro, foi a vez de a Claro e a John Deere comunicarem uma parceria para ampliar de 85 milhões para 100 milhões de hectares sua área de cobertura. Ainda que não houvesse sobreposição do sinal, as duas iniciativas juntas, quando estiverem 100% implementadas, levarão Internet móvel a 113 milhões dos 250 milhões de hectares produtivos do Brasil.

Uma pesquisa da Opensignal mostrou que a duração média do sinal 4G era de 75% nas áreas urbanas do Brasil em 2019, mas de apenas 41% nas áreas rurais. O estudo levou em conta o conceito de área urbana e rural determinado pelo IBGE, usando critérios populacionais. Na prática, o sinal poderia até chegar na sede da fazenda, mas não necessariamente na área de produção, de onde os dados efetivamente saem e precisam ser transmitidos.

Na média, existem R$ 500 bilhões sendo produzidos sem a cobertura de um sinal 4G. São R$ 500 bilhões desconectados do mundo num primeiro momento. Quanto eles poderão gerar em negócios quando estiverem conectados?  A quanto eles podem chegar, quando forem ungidos pela eficiência e os benefícios que a Internet traz?

Já tem gente de olho em pelo menos um pedaço desse bolo. Quem mais virá? Empresas do agro? Empresas de fora do agro?

Seja quem for, sejam todos bem-vindos às oportunidades de inovação no agronegócio.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Alexandre Inacio é consultor, jornalista e atua no agronegócio há quase 20 anos