Overview Effect: o que eu não sei que não estou sabendo?
Para enxergar o futuro, primeiro precisamos conseguir enxergar aquilo que ainda não sabemos que existe

Existe um fenômeno chamado Overview Effect, um termo criado pelo escritor Frank White em 1987 para descrever uma mudança profunda de percepção relatada por astronautas depois de verem a Terra do espaço.
Quando passam a observar o planeta de centenas de quilômetros de distância, eles deixam de ver países, fronteiras e territórios separados e passam a perceber a Terra como um único sistema, pequeno, finito e extremamente conectado.
Muitos astronautas descrevem essa experiência como uma mudança na maneira de enxergar o planeta e o próprio lugar que ocupam nele, especialmente pela percepção da fragilidade da atmosfera e pela sensação de que aquilo que aqui embaixo parece dividido em milhares de partes, visto de fora, é na verdade um único sistema compartilhado.
Essa experiência, para algumas dessas pessoas, continuou influenciando suas vidas depois que voltaram à Terra, levando astronautas a se envolverem mais profundamente com temas como sustentabilidade, meio ambiente, educação e futuro da humanidade.
Depois de ouvir tantos relatos como esse, percebi que existe algo muito interessante nessa experiência: a distância muda aquilo que conseguimos enxergar.
Quando estamos perto demais de alguma coisa, nossa atenção naturalmente vai para os detalhes, para os problemas imediatos e para aquilo que precisa ser resolvido agora.
Quando conseguimos nos afastar, começamos a perceber padrões, relações e movimentos que antes estavam escondidos. E acho que existe uma versão corporativa desse fenômeno que os executivos deveriam experimentar com muito mais frequência.

Quem lidera uma empresa passa grande parte do tempo olhando para resultados, metas, indicadores, projetos, clientes, concorrentes e decisões que precisam ser tomadas.
Essa proximidade com a operação é obviamente necessária, mas também pode fazer com que seja cada vez mais difícil observar aquilo que está acontecendo ao redor da empresa e imaginar como esse ambiente pode mudar nos próximos cinco, 10 ou 20 anos.
É por isso que pensar no futuro exige algum tipo de distância. Uma distância cognitiva, tempo para sair da lógica da operação e observar a organização dentro de um contexto maior, olhando para mudanças culturais, comportamentais, tecnológicas e econômicas que ainda não chegaram aos indicadores da empresa.
Só assim líderes e executivos vão estar habilitados a se perguntar: "o que eu não sei que não estou sabendo?".
Muitas tendências começam como pequenos sinais que podem indicar uma mudança maior acontecendo abaixo da superfície.
Essa é uma pergunta difícil justamente porque aquilo que ainda não sabemos que não sabemos não aparece em um dashboard, em uma pesquisa de satisfação ou em uma reunião de resultados. E é uma das razões pelas quais minhas viagens de imersão, que chamo de Future Atlas, se tornaram uma parte tão importante do meu trabalho.
Quando passo semanas ou meses vivendo em outro país, alugando um apartamento, usando transporte público, fazendo supermercado, entrando em lojas, frequentando cafés e observando como as pessoas realmente vivem, começo a encontrar sinais que dificilmente apareceriam no dia a dia ou em um benchmarking.
Uma mudança de comportamento que parece pequena, uma nova expectativa do consumidor, uma tecnologia ainda pouco conhecida ou uma maneira diferente de resolver um problema cotidiano podem parecer irrelevantes quando observadas isoladamente, mas começam a ganhar outra dimensão quando conseguimos enxergá-las dentro de um contexto real.
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Muitas tendências começam assim, como pequenos sinais que ainda não têm tamanho suficiente para aparecer em uma planilha, mas que podem indicar uma mudança muito maior acontecendo por baixo da superfície.
Talvez uma das maiores responsabilidades de quem lidera uma empresa seja justamente criar esses momentos de afastamento, sair temporariamente do campo gravitacional da operação para conseguir observar o que está acontecendo fora dela e fazer perguntas para as quais ainda não existem respostas prontas.
Os astronautas precisam sair da Terra para conseguir entender nosso planeta como um sistema e seu papel dentro dele, e talvez os executivos precisem encontrar suas próprias maneiras de sair temporariamente do hiperfoco da empresa para conseguir enxergar o que está por vir, os riscos e oportunidades.
Até porque, para enxergar o futuro, primeiro precisamos conseguir enxergar aquilo que ainda não sabemos que existe.
