Há algum tempo um grande amigo insiste para que eu escreva sobre o Guru da Administração, Peter Drucker: “ele viveu até os 94 anos e até aquele momento prestava consultoria para empresas e marcas icônicas. Se ele trabalhou até os 94 anos, por que insistem em abreviar a nossa atuação por volta dos 60 anos?”

Peter Drucker, me desculpe, mas não vamos falar de você e sim do que está em torno dessa trajetória vitoriosa, profícua, inspiradora.
Eu tenho 63 anos e trabalho há 40 anos com comunicação e marketing.

Foram várias vidas profissionais em uma única existência.

Diversas empresas, corporações, terceiro setor, consultoria e agora, mais que nunca, ativista contra o idadismo.

A luta contra o idadismo é, provavelmente, a mais recente a ser incorporada às políticas de diversidade no Brasil. Até tempos atrás, era como se a questão da idade fosse algo natural: envelheceu, perdeu o lugar. Simples e dramático assim.

Como eu, muitos outros, inclusive esse meu amigo, veem ao longe, por vezes não tão longe, a ameaça de uma hora pra outra serem considerados inadequados ou insuficientes ou qualquer outro termo associado ao prefixo de negação.

O mercado de trabalho já baixou a barra em muitos casos para 40 anos.

Acima de 40 anos para entrar numa empresa é tarefa para poucos.

Os motivos, discutíveis em alguns casos, e mentirosos em outros, vão desde capacitação física e adaptabilidade até modelos comportamentais. Sem falar, do óbvio, a falta de conhecimento e vivência com as novas tecnologias.

Eu poderia falar que o que mais vimos nos últimos anos foram quebras de tecnologia.

Mas não é só o mercado de trabalho que nos surpreende negativamente.

Somos invisíveis.

A luta contra o idadismo é, provavelmente, a mais recente a ser incorporada às políticas de diversidade no Brasil. Até tempos atrás, era como se a questão da idade fosse algo natural: envelheceu, perdeu o lugar. Simples e dramático assim.

Com exceção de algumas categorias e marcas que já perceberam a importância e as oportunidades desse segmento, produtos e serviços ainda relutam, ou nem desconfiam, atender de maneira mais direta os chamados 60+.

E o erro começa por aí: 60+.

Se fôssemos ficar apenas na segmentação etária, é fácil perceber que uma pessoa de 60 e uma pessoa de 80 não são necessariamente iguais em seus desejos e possibilidades.

Já aqui temos que começar a olhar de maneira mais acurada.

Quando nos voltamos para outros tipos de segmentação, como comportamento ou interesses, a matriz de clusters se amplia de maneira potencial.

Peter Drucker com certeza nos ajudaria nessa hora: “mais arriscado que mudar é continuar fazendo a mesma coisa.”

O mercado potencial desse segmento no Brasil gira hoje em torno de 1,8 trilhão.

Com o envelhecimento acelerado da nossa população – o Brasil é um dos países que envelhece mais rápido no mundo – esse potencial de consumo deverá crescer significativamente.

Estamos diante de um oceano azul similar ao que foi nas décadas passadas a chamada explosão da classe média.

E o que isso tem a ver com o movimento de juniorização do mercado de trabalho?

Tudo.

Mas tem saída e essa é mais uma boa notícia.

As marcas ainda acreditam que apontar seus recursos para esse segmento, ou esse multisegmento, melhor falando, poderia contaminar suas marcas e trazer uma imagem de velha, ultrapassada, inapropriada.

Será?

Estaremos condenados à síndrome de Peter Pan para todo o sempre?

Outra explicação se apropria da lógica do life time value que nos jovens poderia perdurar por 20 anos.

Dois pontos para refletirmos: qual “jovem” (como o idoso, o jovem como ser único também é uma abstração) permanece fiel a uma marca por 20 anos considerando as fortes transformações que uma linha natural de vida irá imprimir a qualquer pessoa entre os 25 e 45 anos?

Será que o “idoso” que tem hoje 60 anos com perspectiva de vida até 75 ou 80 anos não teria uma contribuição similar ou até mesmo maior?
Mas como eu disse, tem saída.

Basta seguirmos os princípios básicos do design thinking: empatia, colaboração e experimentação.

Só como exemplo, o crescimento do acesso às redes sociais por pessoas com mais de 60 anos foi significativa no período da pandemia. E não poderia ser diferente. Como diz o ditado popular – “o sapo pula por necessidade e não porque acha bonito”.

A necessidade nos mostrou o potencial nesse segmento para produtos associados ao universo digital.

Mas que marcas estão usando os princípios do design para gerar novos produtos e serviços?

E não estamos falando de celulares com algarismos gigantes.

Que demandas não estão sendo atendidas?

Quantos 60 + participaram de processos de criação de novos produtos e serviços?

Ou foram chamados para participar de equipes de desenvolvimentos voltados para a totalidade da população.

Que totalidade seria uma boa pergunta?

Por que não chamar?

Mas talvez o melhor seja perguntar às age techs que não param de crescer.

E que a exemplo das fintechs, vão começar a incomodar as grandes.

Agora que você já sabe, que tal começar a levar pra prática buscando conhecer mais profundamente, ouvindo e trazendo para dentro de casa novas perspectivas de negócios.

Eu, do meu lado, com 63 anos, tenho certeza que a pauta da diversidade mais que nunca validada pelos resultados das empresas que já entenderam que as melhores respostas para velhos e novos problemas virão de uma perspectiva múltipla, diversas, por vezes conflitante, mas extremamente rica.

É o que eu acredito. É o que eu falo para esse meu amigo.

Temos um valor que ninguém pode negar ou retirar: vivemos mais tempo, vivenciamos mais momentos, armazenamos mais situações, problemas, soluções, erros, emoções.

Estamos prontos.

Vamos juntos?

“Não podemos prever o futuro, mas podemos criá-lo.”

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marco Antonio Souto é head de estratégia do Grupo Dreamers e ativista da causa do Idadismo.