Quem faz a curadoria do futuro?

É a partir da justiça de dados que podemos imaginar futuros

quem decide como será o futuro
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Silvana Bahia 4 minutos de leitura

Quando uma obra de arte chega à parede de um museu, muita coisa já foi decidida. Primeiro, aquela obra foi concebida e catalogada. Depois, alguém entendeu que ela deveria ser exibida ao público, numa sala específica, acompanhada de determinada legenda e ao lado de outras criações selecionadas da mesma maneira.

Toda curadoria decide o que será visto e, ao fazer isso, participa da construção do que é compreendido como arte, memória, beleza, patrimônio, documento, invenção. Escolhas essas que, ao mesmo tempo, produzem ausência. 

Em junho, vou ministrar no MASP (Museu de Arte de São Paulo) o curso online “Inteligência Artificial: justiça de dados e imaginação de futuros”. Mas qual o sentido de falar sobre inteligência artificial num museu?

A resposta começa pelo que museus e sistemas de IA têm em comum. Ambos lidam com arquivos, imagens, classificações, memória, autoria, linguagem, repertório e representação, organizam modos de ver, ajudam a definir o que será reconhecido como referência e podem ampliar ou restringir aquilo que uma sociedade enxerga sobre si mesma. 

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Qualquer acervo também é feito daquilo que ficou de fora. Uma exposição também é o que deixa de mostrar. Isso pode abrir caminhos de reparação, deslocar leituras consagradas, devolver complexidade a obras e artistas que foram reduzidos por olhares coloniais, racistas ou patriarcais. Em outros casos, pode reproduzir e consolidar antigos apagamentos.

Um sistema de inteligência artificial opera de maneira semelhante quando responde a uma pergunta, gera uma imagem, recomenda um conteúdo ou classifica um rosto. Assim como museus, tecnologias são lugares de escolhas.

Algumas são tomadas por quem desenvolve os modelos, outras estão nos dados usados para treiná-los ou aparecem nos critérios de classificação, nos parâmetros de otimização, nas plataformas que os distribuem e nos contextos em que são aplicados. 

Tudo vem dos arquivos que alguém escolheu para alimentar a IA, das estruturas sociais que produziram esses arquivos e dos interesses que organizaram sua circulação.

uso de IA por parte de artistas e criativos
Crédito: Azrok66/ Getty Images

Por isso, dados, algoritmos e modelos computacionais podem reproduzir desigualdades de raça, gênero, território e classe, entre outras, transformando lacunas históricas em padrões estatísticos e convertendo estereótipos na resposta padrão.

Esse é um dos motivos pelos quais a conversa sobre inteligência artificial precisa sair do campo puramente técnico. Para mim, não basta perguntar o que a ferramenta faz, mas, sobretudo, de onde vem aquilo que ela aprendeu a reconhecer como possível.

Como define a professora Ruha Benjamin, a imaginação é um campo de disputa. Antes de aceitar futuros prontos, vendidos como inevitáveis por empresas ou governos, precisamos perguntar quem teve o poder de desenhá-los. A tecnologia costuma ser apresentada como destino, mas todo destino tecnológico é feito de escolhas humanas, políticas e econômicas.

ainda é possível vislumbrar outros futuros e disputar as escolhas que podem torná-los nossos.

Se arte e tecnologia podem reproduzir violências, também podem ser usadas para deslocar imaginários e construir outras formas de presença. Para isso, precisamos disputar as condições em que pessoas, territórios e histórias são transformados em informação.

O nome disso é justiça de dados. É a partir dela que podemos imaginar futuros. Para comunidades que tiveram sua memória interrompida e sua humanidade reduzida por regimes de violência, imaginar também é uma forma de reparação. Isso é o oposto da fantasia: é prática política.

A arte tem um papel central nesse debate também porque conhece, há muito tempo, a disputa pelos sentidos. Uma imagem, muito além de uma simples representação, pode confirmar uma ordem ou desorganizá-la, pode repetir uma mentira contada mil vezes ou reimaginar uma verdade silenciada.

Foi essa reimaginação que o Olabi buscou fazer nas edições mais recentes do Códigos Negros. Em 2024, sob o tema “A imaginação como tecnologia e a tecnologia para a imaginação”, artistas como Bruna Kury, Gê Viana, Mayara Ferrão, Thiago Britto e Trojany usaram a IA e outras tecnologias como linguagem crítica para reconstruir presenças e enfrentar apagamentos históricos.

cartaz da edição 2025 do evento  Códigos Negros

No ano seguinte, na Flup, partimos de “Os condenados da terra”, de Frantz Fanon, para olhar para o corpo, a linguagem e o território como espaços de disputa e reinvenção. Guilherme Bretas, Ilka Cyana, Poliana Feulo e Walter Mauro foram provocados a trabalhar com IA para expressar processos de libertação, cura e resistência num mundo ainda marcado por lógicas coloniais.

Por isso, um museu é, sim, lugar para falar de inteligência artificial. Se o museu nos ajuda a ver que toda imagem tem história, todo arquivo tem lacunas, toda classificação organiza poder e toda curadoria define um mundo possível, a IA amplia essa disputa para uma nova escala.

A pergunta é antiga (quem decide o que será visto, lembrado, reconhecido e projetado como futuro?), mas ganha uma nova formulação: quem está fazendo a curadoria daquilo que ensina a IA a imaginar?

É a partir daí que quero abrir a conversa no MASP. O que me motiva, afinal, é a certeza de que ainda é possível vislumbrar outros futuros – e disputar as escolhas que podem torná-los nossos.


SOBRE A AUTORA

Silvana Bahia é codiretora executiva no Olabi – organização dedicada a diversificar a cena de tecnologia e inovação no Brasil. Fellow ... saiba mais