Quem pode parecer uma líder? Julho das Pretas e a estética racial do poder

Nenhuma democracia será completa enquanto a autoridade continuar tendo uma única aparência

Julho das Pretas e a estética racial do poder
Créditos: Drs Produções/ Getty Images/ Luis Villasmil/ Unsplash

Ana Bavon 6 minutos de leitura
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Durante muitos anos, eu alisei o cabelo.

Naquela época, ainda não sabia que estava fazendo muito mais do que uma escolha estética. Como tantas meninas negras brasileiras, estava aprendendo uma das primeiras lições da colonialidade: alguns corpos precisam se modificar para parecer pertencer.

O cabelo foi o primeiro lugar onde encontrei o racismo.

Não porque ele carregasse algum problema em si, mas porque foi através dele que aprendi, ainda criança, que existia uma estética considerada mais bonita, mais elegante, mais profissional e, sobretudo, mais aceitável do que a minha.

Hoje compreendo que o meu cabelo nunca foi apenas cabelo. Ele sempre foi linguagem. Foi através dele que a sociedade me ensinou quem eu deveria parecer para ser reconhecida.

E talvez seja justamente por isso que o cabelo ocupe um lugar tão importante na experiência subjetiva de tantas mulheres negras.

Não porque seja um atributo estético qualquer, mas porque ele se transforma, desde muito cedo, em um marcador racial. Antes mesmo que possamos dizer quem somos, alguém já começou a construir uma narrativa sobre nós.

Foi Neusa Santos Souza quem me ofereceu as palavras para compreender aquilo que eu havia vivido durante tantos anos sem conseguir nomear.

Em "Tornar-se Negra", ela nos mostra que o racismo não produz apenas desigualdades sociais; ele produz subjetividades. Ele organiza o desejo, molda a autoimagem e nos ensina a admirar um ideal de humanidade construído sem a nossa participação.

A estética faz parecer espontâneo aquilo que foi historicamente construído.

O processo de tornar-se negra, para Neusa, não é biológico nem automático. É um trabalho profundo de reconstrução psíquica, um rompimento com a necessidade permanente de aproximar-se de um ideal branco de reconhecimento.

Quando li Neusa, compreendi que deixar de alisar o cabelo não havia sido uma decisão estética. Havia sido uma decisão política. Mais do que isso, havia sido uma decisão existencial.

Eu deixava de negociar a minha aparência para me tornar aceitável. Começava, finalmente, a construir uma identidade que não dependesse da aproximação com um modelo que jamais foi pensado para incluir mulheres como eu.

Essa experiência, que durante muito tempo considerei apenas pessoal, revelou-se profundamente coletiva. Porque o problema nunca foi o cabelo. O problema sempre foi a estética.

Nós costumamos pensar a estética como uma questão de gosto. Como uma escolha individual. Como algo superficial. Mas talvez uma das heranças mais sofisticadas da colonialidade seja justamente transformar a estética em uma tecnologia de poder.

a estética racial do poder
Crédito: Magnific

Toda sociedade produz uma estética. Mas sociedades marcadas pelo colonialismo transformam a estética em uma barreira invisível de acesso à legitimidade. 

Ela determina quem parece inteligente antes mesmo de falar. Quem parece confiável antes de demonstrar competência. Quem parece preparado antes de apresentar resultados. Quem parece uma liderança antes mesmo de liderar.

É isso que Frantz Fanon descreve, de maneira magistral, em "Pele Negra, Máscaras Brancas". O corpo negro nunca chega ao mundo como um corpo neutro. Chega atravessado por significados que não escolheu. Antes da palavra, existe o olhar. Antes da experiência, existe a interpretação. Antes da competência, existe a aparência.

Nas organizações, essa dinâmica assume uma forma particularmente sofisticada.

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Gostamos de acreditar que promovemos pessoas por mérito. Que escolhemos líderes pela competência, pela capacidade técnica, pelos resultados que entregam. Mas basta observar quem ocupa, historicamente, os espaços de maior poder para perceber que existe um filtro anterior ao mérito.

Já escrevi sobre isso e repito: existe uma estética da liderança. Ela não está escrita em nenhum manual. Não aparece nas políticas de recursos humanos. Raramente é verbalizada.

Mas ela está presente na imagem que imediatamente construímos quando pensamos em um CEO, em uma presidente de conselho, em uma grande executiva ou em uma intelectual de referência.

Essa imagem, durante séculos, foi racialmente produzida. Ela possui uma aparência, uma forma de falar, uma  forma de vestir, uma  forma de ocupar os espaços. Uma forma de existir. E essa estética, quase sempre, está muito distante dos corpos negros.

É por isso que mulheres negras frequentemente enfrentam um desafio que seus colegas brancos raramente precisam enfrentar.

Não basta liderar. É preciso convencer as pessoas de que se tem aparência de liderança. Não basta conhecer. É preciso administrar continuamente a percepção que os outros constroem sobre o próprio corpo.

Esse talvez seja um dos custos psíquicos menos discutidos da desigualdade racial nas organizações. Gastamos uma quantidade imensa de energia tentando diminuir a distância entre quem somos e aquilo que aprendemos que uma liderança deveria parecer.

Grada Kilomba afirma que a colonialidade não ocupou apenas territórios. Ela ocupou a imaginação. Aprendemos quem pode ocupar o centro da narrativa, quem representa conhecimento, quem simboliza autoridade e quem continuará sendo percebido como exceção.

O corpo negro nunca chega ao mundo como um corpo neutro. Chega atravessado por significados que não escolheu.

A estética é uma das principais ferramentas dessa ocupação. Ela naturaliza a exclusão sem precisar anunciá-la. Ela faz parecer espontâneo aquilo que foi historicamente construído.

Talvez seja essa a razão pela qual um país onde cerca de 56% da população se autodeclara preta ou parda continue apresentando uma liderança política, econômica e institucional tão distante da sua própria composição racial.

Não se trata apenas de acesso. Nem apenas de educação. Nem apenas de oportunidades. Trata-se também de imaginação. Ainda temos dificuldade de reconhecer um corpo negro como a própria imagem da autoridade.

Julho das Pretas não é apenas um momento de celebrar trajetórias. É um convite para interrogar as estruturas invisíveis que continuam organizando a distribuição do poder em nossa sociedade.

E talvez uma das mais invisíveis seja justamente a estética. Porque toda estética produz uma ideia de quem pertence. E toda ideia de pertencimento produz, inevitavelmente, uma ideia de exclusão.

movimento Julho das Pretas, focado nas mulheres negras

Hoje uso meu cabelo exatamente como ele nasce. Durante muito tempo, imaginei que essa fosse apenas uma escolha identitária.

Hoje sei que não.

Cada vez que entro em uma sala de conselho, em um auditório ou diante de uma diretoria sem esconder os traços que contam a minha história, não estou apenas ocupando um espaço de poder. Estou ampliando a própria imagem do poder.

Porque nenhuma democracia será completa enquanto a autoridade continuar tendo uma única aparência. E nenhuma organização será verdadeiramente contemporânea enquanto continuar confundindo competência com familiaridade estética.

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Talvez, neste Julho das Pretas, a pergunta mais importante não seja quantas mulheres negras chegaram aos espaços de decisão. Talvez a pergunta seja outra.

Que estética ainda precisa ser desmontada para que uma menina negra possa olhar para si mesma e reconhecer, no próprio reflexo, a aparência de quem nasceu para liderar?


SOBRE A AUTORA

Ana Bavon é advogada e estrategista especializada em governança social, impacto corporativo e responsabilidade institucional, fundador... saiba mais