A pandemia do coronavírus tem provocado grandes mudanças na forma como vivemos, em especial na relação das pessoas com a cidade. Muito se fala sobre êxodo urbano, um novo clichê – a ponto de a expressão ter sido batizada como um “meme durável” pelo economista urbano Joe Cortright, fundador do site e thinktank City Observatory.

Há quem fale até em fuga em massa das metrópoles como uma tendência global. É só dar um Google para encontrar inúmeros links sobre isso. Geralmente uma frase solta no meio do texto ou um título caça-clique. Mas será que os dados sustentam essa tese?

Se levarmos em consideração as informações disponíveis até o momento, a resposta é não.

Claro, você com certeza conhece – e nós também – vários amigos que se mudaram, temporariamente, para uma casa de praia ou para o sítio da família no interior. Mas pense melhor: qual a proporção desse movimento diante dos mais de 12 milhões de habitantes de São Paulo? Quantos realmente se mudaram e quantos estão apenas passando uma temporada, num momento em que os atrativos gastronômicos e culturais de São Paulo não estão plenamente disponíveis?

Sente-se falta de cidade. Não dos prédios, das avenidas cheias de carros e dos ônibus barulhentos. Mas das pessoas. Do encontro com os vizinhos do bairro na padaria ou com amigos num bar da moda. A tendência que deve se consolidar num cenário pós-Covid é a redescoberta da cidade.

O que se vê é, ao contrário, sinais, evidências empíricas e estudos indicando que a privação provocada pelo isolamento social, com restrições ao funcionamento de bares, restaurantes, centros culturais e parques urbanos, tem levado os moradores de metrópoles como São Paulo a ressignificar sua relação com o espaço urbano. No ano passado, com o fechamento de academias, shoppings e outros espaços, muitos redescobriram o espaço público – a pracinha do bairro, as ruas boas para caminhar.

Sente-se falta de cidade. Não dos prédios, das avenidas cheias de carros e dos ônibus barulhentos. Mas das pessoas. Do encontro com os vizinhos do bairro na padaria ou com amigos num bar da moda. A tendência que deve se consolidar num cenário pós-Covid é a redescoberta da cidade.

Em setembro do ano passado, nossa plataforma gerou um relatório com dados quantitativos, entrevistas com especialistas e trendsetters. Conclusão: as pessoas estão buscando praças e outros espaços abertos, redescobrindo seus bairros, valorizando a facilidade que a vida urbana proporciona. As reclamações pelo fechamento do Minhocão e da Avenida Paulista durante a pandemia são indícios desse desejo por vivenciar a cidade. Embora não seja mais do que um viaduto de concreto, como lembram seus críticos, o Minhocão foi ressignificado, de cicatriz urbana a ponto de encontro com vizinhos e com a própria cidade. Outro indicador é o recente amor dos paulistanos pela arte de rua, que vem substituindo o cinza pelo colorido dos grafites. Nunca o conceito de “museu de arte a céu aberto” fez tanto sentido.

Isso quer dizer que não houve êxodo em nenhum lugar do mundo? Não. Cidades globais, como Nova York e Londres, que atraem moradores de todas as partes do mundo e têm preços exorbitantes de moradia, de fato sofreram o baque da crise econômica que veio junto com a pandemia. Sem emprego, ou com emprego remoto, muitos decidiram se mudar para lugares com custo de vida menor.

Quem não gostaria de se mudar para uma residência maior e trabalhar em casa com conforto? Mas quantos podem, efetivamente, fazer isso?

No caso de Nova York, um estudo da empresa de mudanças MyMove mostra que 110 mil pessoas deixaram a metrópole americana em 2020, cinco vezes mais do que no ano anterior. O êxodo de Nova York, contudo, já é antigo. Desde 2017 a cidade vem perdendo população, num ritmo entre 0,06% e 0,32% a cada ano. A região metropolitana, ao contrário, teve uma redução maior em 2019 (-0,07%) do que em 2020 (-0,01%), de acordo com o World Population Prospects, da ONU.

Londres, uma das cidades mais caras da Europa, perdeu moradores no ano passado. Cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram o Reino Unido entre o fim de 2019 e o fim de 2020, dos quais 700 mil viviam em Londres, segundo estimativas de dois economistas britânicos, Jonathan Portes e Michael O´Connor, com base em dados de emprego e população. Muitos perderam seus empregos, vistos de trabalho e o direito a benefícios sociais.

Mas a explicação dada pelo tatuador espanhol Alberto Domínguez, em entrevista à BBC, para voltar para Madri, sua cidade natal, reforça o encanto da vida urbana. “Amo Londres: suas opções de lazer, seu multiculturalismo, sua eficiência, as oportunidades que tinha antes. Mas é extremamente difícil viver ali devido à pandemia, com um custo de vida tão alto e nenhuma renda.”

No Brasil, não há dados confiáveis sobre mobilidade. Por isso, pesquisas realizadas pelo setor imobiliário com seus clientes acabam muitas vezes passando por verdade estatística. É o caso de relatórios que mostram o aumento das buscas por apartamentos maiores ou casas no interior.

Quem não gostaria de se mudar para uma residência maior e trabalhar em casa com conforto? Mas quantos podem, efetivamente, fazer isso?

De qualquer forma, a pandemia trouxe uma tendência que veio pra ficar – embora esteja apenas começando a se manifestar. O trabalho remoto ou híbrido deve levar a uma mudança no perfil dos bairros, com incentivos aos pequenos negócios locais e ao senso de comunidade. Trabalhando em casa, as pessoas compram mais no mercado do bairro e comem no restaurante perto de casa. Uma mudança de comportamento com potencial para, aos poucos, reverter décadas de visão de cidade compartimentada, com bairros exclusivamente residenciais ou comerciais.

Uma pesquisa do Zap+, feita com clientes que buscam imóveis para comprar ou alugar, mostra que a vizinhança ideal é um bairro com muita arborização (76%), calçadas largas, com muito espaço para o pedestre (87%), num ambiente calmo, com baixo fluxo de pessoas (81%), prédios e construções sem muros (66%), onde é possível se deslocar a pé e fazer tudo andando (91%). O problema é que 59% também preferem prédios de uso único, apenas comercial ou residencial. Como dissemos, as mudanças estão apenas começando…

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE OS AUTORES

Clayton Melo e Denize Bacoccina são jornalistas e fundadores d’A Vida no Centro.