Sem ginga, sem hexa: para ser campeão o ‘Brazil’ precisa apenas ser o Brasil

“Jogar como brasileiros” não é recusar o que veio de fora. É recuperar o gesto antropofágico e voltar a transformar o que chega em vez de ser transformado

para ganhar a Copa a seleção precisa recuperar a ginga dos jogadores brasileiros
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Genesson Honorato 5 minutos de leitura

Em um jogo válido pelas fases eliminatórias da UEFA Champions League, Vinicius Jr. fez uma dança diante da torcida adversária ao marcar um lindo gol.

A comemoração foi gatilho para uma série de ofensas feitas por torcedores, por outros jogadores e até mesmo o técnico do time adversário, que disse: “quando você marca um gol como esse, você comemora de maneira respeitosa.”

A pergunta que fica aqui é: em qual momento o drible e a dança deixaram de ser algo do nosso “futebol arte” e passaram a ser símbolo de ineficiência e desrespeito?

Já faz um tempo que tenho ficado incomodado com a forma como o jogador brasileiro é visto nas principais ligas internacionais, como o campeonato inglês, espanhol, francês, alemão etc.

o jogador Vini Jr dança  em comemoração a um gol

Os dribles estão cada vez mais escassos; a caneta, uma carretilha ou uma pedalada é considerado falta de respeito ou uma firula inútil. Soma-se a isso outra questão: os jogadores brasileiros saem cada vez mais jovens para atuar nestas ligas e aprendem as suas formas de jogar e se comportar.

Percebe-se, portanto, um movimento já conhecido de exportação das riquezas brasileiras para “lapidação” e “aprimoramento” em solo estrangeiro.Foi assim com nosso ouro e nossa prata. Agora, nossos jogadores saem cada vez mais cedo para o futebol internacional.

Carlos Drummond de Andrade, falando certa vez sobre Pelé, disse: "o difícil, o extraordinário, não é marcar mil gols, como Pelé, é marcar um gol como Pelé". Dizer marcar um gol “como Pelé" poderia ser entendido como “marcar um gol com a genialidade do futebol brasileiro".

Ao me aprofundar nessa questão, percebi que essa é uma conversa que está para além do futebol. Um fenômeno que fala, sim, sobre futebol, Copa do Mundo e a tão sonhada sexta taça.

Mas que fala também sobre um apagamento e negação do que somos como essência e que nos diferencia do resto do mundo, como a nossa música, dança, culinária e, principalmente, nosso jeito de ser – alegres, acolhedores e cheios de vida por natureza.

"o difícil, o extraordinário, não é marcar mil gols, como Pelé, é marcar um gol como Pelé."

Carlos Drummond de Andrade

Olhamos para a seleção brasileira hoje e não nos reconhecemos nela. É como se faltasse algo – o feijão com arroz, a malemolência brasileira. Os jogadores não esqueceram como driblar, mas talvez nós mesmos tenhamos deixado de defender o nosso drible, e isso pode nos custar caro. 

Quando a firula vira “falta de profissionalismo”, o gol de placa vira “arrogância”, a celebração vira “provocação” acontece algo que pode nos levar, dentro e fora de campo, a tomar como verdade, a premissa de que precisamos, mais uma vez, parecer com eles para sermos bons o suficiente.

A malandragem (como disse Gregório Duvivier na coluna passada) e o jeitinho brasileiro que o mundo aprendeu a admirar não surgiram de uma alma especial ou de uma essência mística, mas, em boa parte, da querência e da necessidade de "siviração".

Roberto DaMatta (1986) pergunta “o que faz do brasil, Brasil?” A resposta dele passa pela mistura do que somos, pela fantasia do carnaval, pelo sorriso fácil, pela beleza sutil do cachorro caramelo. Elementos mínimos que nos fazem reconhecer uns aos outros como brasileiros mesmo sem combinar nada antes.

Uma identidade que nunca se definiu pela pureza, mas justamente pela capacidade de misturar coisas que não deviam caber juntas e fazer daquilo alguma coisa que funciona.

mulher caminha ao lado de uma parede decorada com a bandeira brasileira
Crédito: Bia Santana/ Pexels

Essa mistura nunca aconteceu de forma passiva. Tinha um gesto ativo por trás dela. Oswald de Andrade deu o nome a esse gesto quase 60 anos antes de DaMatta: antropofagia.

Segundo Oswald, o brasileiro não imita o estrangeiro e nem o rejeita, mas o devora. Mastiga, digere, e o que sai do outro lado é alguma coisa nova, que é brasileira porque atravessou um corpo brasileiro.

O problema do nosso tempo não é e não deve ser o contato com o estrangeiro, até porque ele sempre existiu. O problema pode ser fruto dessa ideia, a de que paramos de mastigar.

Leia mais: Brasil é maior potência de soft power do mundo. Por que não nos vemos assim?

Estamos engolindo o workaholic inteiro, a otimização, o mindset, a performance. Tudo cru, sem o trabalho lento de digestão que transforma essas coisas em algo nosso. Estamos em processo de “indigestão cultural” que adoece o corpo coletivo do mesmo jeito que adoeceria qualquer corpo.

A dicotomia entre disciplina e ginga, entre tática e improviso, entre eficiência e presença é, no fim das contas, uma visão de quem geralmente está vendo apenas um dos lados. A escolha real é entre engolir e devorar. Entre receber passivamente o que o mundo manda ou mastigar até virar outra coisa.

“Jogar como brasileiros” não é recusar o que veio de fora nem tentar voltar a ser o que éramos antes. É recuperar o gesto antropofágico e voltar a transformar o que chega em vez de ser transformado somente à revelia dos outros.

"O momento em que a bola chegou aos pés de Pelé, o futebol se transformou em poesia."

Pier Paolo Pasolini

No futebol, isso significa permitir que a ginga atravesse a tática ao invés de ser apagada por ela. Que o Vini Jr. dance sem ouvir que dançar é desrespeito; que a pedalada, o chapéu e a carretilha retornem aos gramados do nosso futebol.

Fora do futebol, significa permitir que a relação atravesse o processo, que o tempo atravesse o calendário, que a alegria não precise pedir licença para a produtividade toda vez que quiser aparecer no expediente. Acredito que o hexa, se vier em 2026, virá disso. Mas, se o hexa não vier, essa não será nem de longe a nossa maior derrota.

A maior derrota talvez seja uma sociedade inteira entrar em campo sem conseguir reconhecer a própria maneira de jogar.

Que a gente possa voltar a fazer poesia brasileira em campo ou em estaremos cada dia mais distantes do hexa, seja ele qual for.

Até a próxima.


Colaborador convidado: Guilherme Ramos, formado em Relações Internacionais pela Universidade de Vila Velha (UVV). Leitor nato, é um grande observador do uso do esporte como ferramenta de poder.


SOBRE O AUTOR

Genesson Honorato é psicólogo com olhar para a psicanálise, tem formação em Marketing e Design Digital pela ESPM e MBA em inovação pel... saiba mais